Portugal pode ser o maior, mas deprime

Perante a excelência da portugalidade, prescindimos saber o que se passa. Hoje no i.

Portugal pode ser o maior, mas deprime

10 de Junho de 2018. Domingo de manhã, à hora do almoço e, depois, à tarde. Fosse a que horas fosse, assim que o leitor ligasse o televisor nos canais noticiosos portugueses, a transmissão, o relato, a reportagem, as entrevistas e o mais que possa imaginar sobre peças de teor jornalístico relativas às comemorações do Dia de Portugal lá estavam, preenchendo o ecrã, monopolizando a notícia.

Porque nada mais acontece por esse mundo fora, desenxabido e desinteressante. Trump não destruiu 70 anos de confiança atlântica com um tweet, a cimeira entre o presidente dos EUA e o ditador da Coreia do Norte não estava em preparação. Noticiar os temas em cima da mesa em qualquer das duas cimeiras, discutir o que se tinha passado numa e poderia acontecer noutra, informar sobre os interesses de cada uma das partes envolvidas são questões menores perante a grandiosidade que se celebrava em Ponta Delgada.

Não questiono que se celebre o 10 de Junho, mas não posso deixar de o fazer quando esse dia, à semelhança do que sucedia no anterior regime, seja instrumentalizado para, debaixo da capa de um contentamento geral e festivo, propagandear o governo e as instituições públicas. Pior: como outrora, propagandear a originalidade portuguesa perante as confusões e as disputas do mundo de hoje, de que nós, fechados numa redoma, somos a benigna exceção. As praças enchem-se de gente (onde é que já vimos isto?) e se se enchem de gente satisfeita é porque alguém está a fazer um bom trabalho.

Para quê estragá-lo com más notícias? Corrompê-lo com informação que poderá baixar o moral? Um país de acordos, e não de ruturas, não se compadece com as tricas, trapaças e desentendimentos das grandes potências. Estas não conhecem a consensual suavidade portuguesa.

Ter ligado o televisor no dia 10 de Junho de 2018 foi deprimente. Foi rever a cores o passado que tantas vezes nos mostraram a preto-e-branco. O que nos leva a concluir que a essência que permitiu o Estado Novo é a mesma que permite este novo estado das coisas. A frase proferida por Marcelo nesse mesmo dia em Boston – “Os Estados Unidos são um grande país, mas Portugal ainda é maior” – resume bem o que Salazar quis transmitir-nos: a força espiritual de um país representada na bondosa figura do chefe. Tal como no passado, o país adormeceu para não se preocupar com as crises e as guerras que ocorriam no mundo, como mais tarde também adormeceu perante a guerra que acontecia em África e também agora adormece, se deixa anestesiar, com a ilusão da festa e dos afectos. Para quê estar informado se está tudo bem?

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7 thoughts on “Portugal pode ser o maior, mas deprime

  1. Pingback: Portugal pode ser o maior, mas deprime — O Insurgente | O LADO ESCURO DA LUA

  2. JP-A


    Informa-se a gente da informação que apesar de o número de pessoas que na cidade do Porto recorrem à assistência de rua para comer estar a “evoluir” a olhos vistos, se nota o desinteresse de [agora] colar esse tipo de situações ao Governo através de trabalhos jornalísticos.

  3. JP-A

    O ar deslumbrado-esbracejante das duas criaturas que nos representam circulando hiperativos por ruas americanas de dentes em riste. Uma “ajuda do governo português” à Google que ninguém sabe exactamente o que significa (tenho pela Google a mesma consideração que muita gente teve pela Pescanova e pela Qimonda), no meio de um mar de trasparências geringonças. Um PM que acha que os EUA podem chegar à Europa por Portugal porque perante o Brexit olha para o mapa e constata que o país está 100km mais perto que outras costas da Europa como fazem com Sines como se os barcos tivessem de parar para meter gasolina e fazer despesa em mais um porto! Como se a relação com o Reino Unido fosse fruto da proximidade ao metro! Pessoas arrastando-se na TV, quase babando-se com a espera do falhanço do acordo com a Coreia do Norte.

    Tenho a sensação de estar dentro e no meio de um circo.

  4. …..debaixo da capa de um contentamento geral e festivo, propagandear o governo e as instituições públicas….Efectivamente o articulista também poderia analisar e tecer as suas criticas colocando-se na posição de ANTIGO COMBATENTE OU VETERANO da nação. Não sei se há contentamento geral e festivo (???), pelos menos da parte dos ANTIGOS COMBATENTES não há nenhum. Uma parte muito grande dos nossos camaradas mortos em África, por lá se encontram sepultados (melhor enterrados) em pseudo cemitérios, porcos e com o capim a cobrir as campas. Os heróis, mortos em África e sepultados em Portugal, na maior parte dos casos, as suas campas são incógnitas (vergonha?). Os vivos, muitos vivem na miséria e são sem-abrigo. A nossa média de idade são os 70´s e existe algum lar, algum abrigo, assistência médica/hospitalar digna desse nome. Milhares têm ainda estilhaços de granada. Estes Veteranos não podem andar de avião nem submeterem-se a exames magnéticos porque estragam as máquinas. Mas ainda por cima, temos ao abrigo da Lei 3/2009 ( Uma Lei socrática que inutilizou ou reverteu as chamadas Leis Portas) a qual inibiu muitos militares de a receberem, baixou os montantes e adicionou o IRS à esmola. Esmola essa diga-se NÃO ULTRAPASSA OS 150 EUROS ANUAIS, ou seja 41 cêntimos diários. Sua Exa. o Senhor Presidente da República já foi bastas vezes informado destas situações, porque é o Comandante Supremo das Forças Armadas de Portugal, mas foge com o cu à seringa e passa a bola ao Senhor Ministro da Defesa, que já informou que esses casos são para serem apreciados só quando a Grécia pagar a dívida.
    Senhor articulista, não sei (também não vejo nenhum(=todos!!!) canal de TV nacional por isso não faço ideia quantas pessoas viram essas reportagens, mas nós. ANTIGOS COMBATENTES, fomos cerca de UM MILHÃO que demos os pés e as pernas às minas e o peito às balas e o corpo a montes de terríveis doenças. Também “obrigamos” 3 milhões de familiares a sofrerem connosco.
    Teria sido muiito importante falar de nós, falar por nós e criticar a Nação pela falta de respeito que mantém para connosco.
    Obrigado.

  5. Isto é só azia.

    As pessoas sentem-se melhor com este governo do que com o Passos e então o blogger amua.

    Isso passa, deixe lá.

    Os vossos especuladores dos mercados ainda hão-de rebentar com a economia mundial muitas vezes para vocês depois virem dizer que a culpa é do “socialismo”.

  6. Não percebo porque tanto problema com o dia de Portugal.

    A porcaria do futebol ocupa mil vezes mais tempo de antena que devia ser de informação e não vejo os bloggers choramingar por causa disso.

    Antes pelo contrário, neste blog até os vejo alinhar com uma data de posts sobre as mutilas e intermináveis telenovelas futeboleiras.

    Para mim Portugal ainda é um tudo nada mais importante que a trampa do futebol.

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