Deverá um liberal festejar o “25 de Abril”?

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Em linha com a tradição insurgente por esta altura do ano, recomendo um texto já clássico: Deverá um liberal festejar o “25 de Abril”? Por Luís Aguiar Santos.

Ano após ano, as comemorações do “25 de Abril” estão enredadas numa série de equívocos que seria pueril esperar que políticos ou jornalistas desfizessem. Supostamente, festejamos nessa data a “democracia”. Mas qual “democracia”? A que estava pressuposta no abraço frentista entre Álvaro Cunhal e Mário Soares dias depois do golpe de estado (que não seria muito diferente da dos oficiais da Coordenadora do M.F.A.)? Ou a que estava pressuposta na acção do general Spínola (e que, doa a quem doer, é aquela que hoje temos e quase todos defendem)?

Ao contrário do que possam pensar alguns distraídos, os liberais identificam-se com muito pouco no regime derrubado em 1974: não gostam de um figurino “constitucional” que limitara bastante as liberdades individuais instauradas no século XIX (e não na I República, como os mesmos distraídos pensam); não gostam da arbitrariedade com que o poder executivo se permitia violar as liberdades restantes; não gostam do monopólio político e sindical que o Estado patrocinava (União Nacional e estrutura corporativa); não gostam do regime económico profundamente regulado e proteccionista que fôra herdado do passado, mas que Salazar aperfeiçoara, sistematizara e tornara ainda mais pesado; não gostam da férrea regulação da educação e das actividades culturais que a burocracia e a polícia impunham.

Talvez tenham alguma simpatia pela geral ordem financeira em que o Estado vivia e pela política do “escudo forte”; mas, convenhamos, é pouco quando tanto estava tão mal. No que os liberais divergem dos “democratas de Abril” é no pouco entusiasmo com que olham para a cultura política que surgiu em 1974 como alternativa ao Estado Novo.

O “25 de Abril” não se fez em nome da experiência histórica do liberalismo que o republicanismo, primeiro jacobino e depois autoritário, interrompeu; fez-se em nome de uma míriade de socialismos coligados que iam fundar um “país novo” e que chegaram ainda a apresentar-se como nova “União Nacional democrática” no defunto M.D.P. (PCP+PS+PPD), como se ainda se vivesse, trinta anos depois, no equívoco frentismo anti-fascista de 1945.

(…)

Se quiséssemos, como os liberais franceses do século XIX tentaram fazer com a revolução de 1789, distinguir no “25 de Abril” entre uma fase inicial, imaculada e generosa, e uma posterior degeneração jacobina (ou, neste caso, socialista), ficaríamos limitados a uma nesga de tempo que dificilmente permitiria comemorar “outro 25 de Abril”. É que logo a 1 de Maio, quando os socialistas de todas as matizes (e, em particular, os comunistas) tomaram as ruas, ficou patente quem teria força para imprimir à revolução a direcção e a cor que lhe construiriam a identidade.

Apesar da resistência civil ao radicalismo militar e militante, a normalização de 1976 veio a fazer-se com uma vitória ideológica inequívoca do socialismo, que só o pragmatismo dos políticos e a realidade das coisas foi forçando a esbranquiçar em sucessivas revisões constitucionais. Onde, nesta “herança de Abril”, os liberais se podem situar não é nada claro. Em Spínola? Na tímida e lenta liberalização do regime?

Mas será isso ainda o “25 de Abril”?

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14 thoughts on “Deverá um liberal festejar o “25 de Abril”?

  1. Seria um excelente texto não fosse o chorrilho de tretas do costume sobre isto ser tudo “socialista”.

    O autor sabe perfeitamente que o partido socialista só é socialista no nome e que é uma das principais forças do liberalismo em Portugal.

    Por exemplo, o PS fez mais do dobro das privatizações e das PPP do que o PSD e só não privatizou absolutamente tudo porque ainda não conseguiu.

    Mas enfim, a propaganda dos liberais tem de fingir que vivemos numa espécie de estalinismo para se armarem em vítimas e fazerem de conta que são muito perseguidos, quando de facto têm feito tudo quanto querem nas ultimas décadas.

  2. André Miguel

    Comemorar o quê?! Uma dívida mostruosa que nos escravizará durante décadas? Uma constituição cujo preâmbulo é o caminho para a servidão? Obrigado, mas dispenso.

  3. Comemoração do 25 de Abril hoje e todos os dias.
    Mexer mas não estragar, sempre!
    Não é deste São Bento que vem bom vento.
    Falta cumprir “E depois do adeus”

  4. A. R

    Do que me lembro:
    O Copcon: pior que a DGS
    Queima de revistas e livros à estilo nazi
    O assalto e destruição de empresas mais importantes do país
    Caça às bruxas
    Subida de preços galopante
    Cólera
    Escassez de produtos básicos
    Gente desesperada em fuga dos territórios ultramarinos e abandonadas pelo exército português
    Guerras civis no ultramar que deixaram 1.5 milhões de mortos
    Ditaduras em todas as províncias ultramarinas.

    Uma tragédia … sem fim à vista.

  5. Caro Miguel.

    Não sabe que fomos á bancarrota durante o liberalismo do Séc.XIX que este texto tanto gaba ?

    E não se preocupe com o preâmbulo da nossa constituição, que nos últimos 40 anos ninguém lhe ligou nenhuma a isso. É apenas decorativo.

  6. Caro A.R

    O seu texto é interessante.

    Portanto, para si, a culpa das guerras coloniais e derivadas da descolonização não é do colonialismo e nem sabe que na década de 70 a inflação e a estagnação económica foi o principal problema de TODO O OCIDENTE.

    Fizeram-lhe de tal modo a cabeça que já ignora o mais básico.

  7. Luís Lavoura

    A questão é simples: houve mais ou menos liberdade depois do 25 de Abril do que havia antes? Para mim, é evidente que houve mais liberdade depois do 25 de Abril. Logo, um liberal deve celebrar esse golpe de Estado.

  8. Caro Lavoura.

    Depende do liberal.

    O liberal de direita típico é liberal apenas no aspecto económico e mesmo aí apenas “cirurgicamente” quanto baste aos interesses corporativos da casta empresarial.

    Basta ver a profunda dúvida existencial expressa por esses liberais neste mesmo post sobre se devem ficar tristes ou contentes com o derrube de uma ditadura clero-fascista…

  9. Ricciardi

    O 25 de abril só podia ter sido conduzido pela esquerda (extrema)pela simples e obvia razão de que o regime deposto era de direita (extrema).

    Da mesma forma se regime a depor for ou fosse de esquerda será ou seria a direita a organizar a revolução.

    Foi, é e será sempre assim. Não tem nada que enganar.

    Por essa razão é que pessoas que hoje sao da direita moderada, por alturas do 25 abril eram perigosos extremistas de esquerda. O Durão Barroso por exemplo, entre muitos outros.

    Para combater um mal um tipo junta-se aqueles que o combate.

    O inimigo do nosso inimigo é nosso amigo.

    Não vejo razao de espanto. Nesta linha de raciocínio o texto é um bocado imbecil.

    O autor diz que até gosta da liberdade proporcionada e que o regime autocrático do estado novo devia acabar por.isto é por aquilo , sim senhor, porem, não vai à bola com aqueles mais determinados que acabaram com ele.

    É, não apenas um bocado imbecil a ideia mas também bastante acriançada. Só quero o chupa chupa se não for mano a dar-mo.

    Quer dizer, um tipo depois cresce e deixa-se desse tipo de merdas.

    Rb

  10. A. R

    Caro O. R
    “Portanto, para si, a culpa das guerras coloniais e derivadas da descolonização não é do colonialismo”

    Óbvio que não: Hutus e Tutsis mataram-se; pretos sempre se degladiaram; a fome do biafra não foi colonialista, as guerras entre etnias foram desde sempre um denominador comum. As guerras fora os comissários de Moscovo que a promoveram e financiaram.

    O chamado colonialismo foi ir para uma terra onde havia meia dúzia de cubatas levar estradas, medicina, portos, linhas de caminho de ferro, aeroportos, sapatos, roupas, água potável, vacinas, agricultura, indústria, etc. Veja-se a Rodésia no que se tornou depois do “colonialismo” e no esgoto para o qual escorrega a África do Sul.

    “e nem sabe que na década de 70 a inflação e a estagnação económica foi o principal problema de TODO O OCIDENTE.”
    Não aprendeste nada apesar do dinheiro nas novas oportunidade que investi em ti. Portugal crescia em quase 2 dígitos antes dos comunistas derreterem tudo: industria cimenteira, siderurgia, industria química, bancos e ainda liquidarem a agricultura do Alentejo por mais de duas décadas . Mas teimas em ir buscar pergaminhos ao esquife de Lenine ou ao bafio do Avante na Soeiro Pereira Gomes que atribui a fome da Ucrânia a um “mau ano agrícola” (nem se riem)

  11. “O chamado colonialismo foi ir para uma terra onde havia meia dúzia de cubatas levar estradas, medicina, portos, linhas de caminho de ferro, aeroportos, sapatos, roupas, água potável, vacinas, agricultura, indústria, etc.” — pois, só levaram coisas…

    ‘Besides the several causes of destruction, there seems to be some mysterious agency generally at work. Wherever the European has trod, death seems to pursue the aboriginal. We may look to the wide extent of the Americas, Polynesia and the Cape of Good Hope and Australia and we find the same result. Nor is it the white man alone that thus acts as the destroyer.’
    Charles Darwin. The Voyage of the Beagle, 1836

    … e claro, também não tiraram nada!

  12. Caro Guna.

    Os liberais dos “mercados livres” tiravam tanta coisa das colónias que até deixaram cair umas coisitas ao mar…

    O massacre do navio negreiro Zong.

    “Em meados de novembro de 1781, o inexperiente Collingwood estava preso no meio do Atlântico, incapaz de navegar para fora das Doldrums ( expressão inglesa para denominar uma zona de calmaria equatorial ). Os escravos, sofrendo de desnutrição, disenteria, escorbuto e outras doenças começaram a morrer. Até 28 de novembro, 60 haviam morrido, junto com sete tripulantes. Muitos mais adoeciam a cada dia. Collingwood começou a entrar em pânico, escravos mortos não valeriam nada. Se, no entanto, os africanos fossem de alguma forma perdidos no mar, então o seguro dos armadores cobriria a perda de 30 libras por cabeça.

    Então Collingwood, ele mesmo sofrendo de febre, teve uma ideia. Tendo discutido com sua equipe, ele fez a cruel, mas em sua mente gananciosa, lógica decisão: em vez de permitir que os escravos doentes morressem a bordo, acarretando prejuízo, ele os jogaria ao mar e reclamaria o seguro. O primeiro imediato, James Kelsall, protestou, mas foi voto vencido. Em algum momento durante a viagem, Kelsall havia sido suspenso do serviço, contudo, não se sabe se por este ato de protesto (na chegada na Jamaica, o diário de bordo havia desaparecido convenientemente).
    Assim, em 29 de novembro, 54 escravos doentes, principalmente mulheres e crianças, foram arrastados pelo convés, desagrilhoados (afinal, por que desperdiçar boas algemas?) e jogados no oceano. No dia seguinte, mais foram assassinados. No final, Collingwood havia jogado 133 escravos para a morte no mar. Muitos, mesmo doentes, lutaram, mas foram subjugados pela tripulação e atirados ao mar com bolas de ferro amarradas nos tornozelos. Mais de dez escravos atiraram-se ao mar por vontade própria, o que Collingwood descreveu como “um ato de desafio”.

    O navio finalmente chegou ao seu destino em 22 de dezembro de 1781. Uma viagem que normalmente levaria 60 dias, sob o comando de Collingwood demorou 108. Havia ainda 208 escravos a bordo, vendidos por uma média de 36 libras cada.

    Ao chegar de volta em Liverpool, o proprietário do navio, James Gregson, devidamente fez sua reivindicação: 4.000 libras pela perda da “carga” descartada. O caso foi a julgamento – não pelo assassinato de 133 desamparados africanos, mas para decidir quem era responsável pelos custos. Collingwood fez a afirmação desonesta que suas ações foram necessárias em suas preocupações com a falta de água. Ele alegou não haver água suficiente para manter a vida de sua tripulação e da dos escravos saudáveis. O primeiro imediato Kelsall, que descreveu o episódio como uma “brutalidade horrível”, desmentiu tal alegação, revelando que na chegada na Jamaica ainda havia cerca de 430 litros de água a bordo do navio. Entretanto, o tribunal deu ganho de causa aos donos do navio.
    As seguradoras recorreram e o caso chegou ao tribunal pela segunda vez. Já era maio de 1783, Collingwood havia morrido (ele morreu apenas três dias depois que o navio ancorou na Jamaica) e o caso se tornou um escândalo de proporções épicas na Grã-Bretanha. Olaudah Equiano, um ex-escravo que comprara sua liberdade e se estabelecera em Londres, levou o caso ao conhecimento do líder abolicionista inglês, Granville Sharp. Sharp queria apresentar um caso de assassinato, mas o juiz, Lord Mansfield, rejeitou sua tentativa, afirmando:

    “O que é essa afirmação de que seres humanos foram jogados ao mar? Este é um caso de bens móveis ou mercadorias. Os negros são bens e propriedades, é loucura acusar estes homens honrosos de assassinato. Eles agiram pela necessidade e da forma mais adequada para o momento. O falecido capitão Collingwood, agiu no interesse do seu navio, para proteger a segurança de sua tripulação. Questionar o julgamento de um capitão bem-viajado e experiente é uma loucura, especialmente quando se fala de escravos. O caso é o mesmo que se madeira tivesse sido jogada ao mar. “

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