Liberalismo iliberal, populismo e nacionalismo

Recusando o tribalismo. Por João Carlos Espada.

Muito diferente desta ideia de “viver e deixar viver” é a ideia de um certo liberalismo iliberal — que John Gray designa, na esteira de Raymond Aron, como “religião secular”. Este liberalismo iliberal entende a liberdade como conformidade com um modo de vida “correctamente liberal”. Este seria o modo de vida radicalmente autónomo, “libertado” de todo e qualquer vínculo particular — à comunidade local, à religião, à nação, a regras de conduta tradicionais (e, seguramente também, a normas clássicas de cortesia e de vestuário).

Está bem de ver que, se a liberdade for entendida como adesão a um modo de vida particular considerado “livre” ou “liberal”, esse entendimento da liberdade torna-se sinónimo de conformidade. Como consequência, os modos de vida que não se reconheçam nesse modo de vida particular (chamado livre ou liberal) vão natural e legitimamente reagir.

Não há nada de mal nessa reacção — que hoje é designada por populista ou nacionalista. Ela faz inteiramente parte da saudável controvérsia que sustenta as sociedades livres e anima os debates parlamentares. O problema surge quando a “religião secular” do liberalismo iliberal recusa aceitar como legítima essa reacção. E o problema torna-se ainda mais grave quando — por causa, ou com o pretexto, da intolerância da religião secular do liberalismo iliberal — os ideólogos radicais no campo populista passam a atacar a liberdade e o pluralismo, identificando-os demagógica e intencionalmente com o liberalismo iliberal.

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2 thoughts on “Liberalismo iliberal, populismo e nacionalismo

  1. Até metem os pés pelas mãos para tentar impingir a treta que ser “liberal” é abdicar da liberdade individual e seguir à risca as ordens das burocracias empresariais e religiosas – e andar ás ordens das beatas linguarudas do bairro.

    O pensamento da direita liberal é do mais bronco que há.

  2. Não sei se o JCE não estará, como por vezes se diz, “a combater a última guerra”.

    Vamos lá ver – a questão que parece mais importante hoje em dia na “guerra cultural” (pelo menos atendendo ao que se diz nas tais redes sociais…) é a da imigração. Ora, no caso da imigração não há (na minha opinião, infelizmente…) praticamente quase ninguém defendendo um «modo de vida radicalmente autónomo, “libertado” de todo e qualquer vínculo particular — à comunidade local, à religião, à nação, a regras de conduta tradicionais (e, seguramente também, a normas clássicas de cortesia e de vestuário).» O que há cada vez mais é tradicionalistas monoculturalistas de um lado (querendo preservar as tradições “ocidentais”), e tradicionalistas multiculturalistas do outro (querendo que os imigrantes preservem as suas tradições). Veja-se todas as polémicas sobre “apropriação cultural” para ser ver que a maré não é de forma nenhuma para defender uma libertação dos “vínculos particulares” e da “comunidade local”, mas pelo contrário para glorificar esses vínculos.

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