O Paciente Inglês

o pac

Como a direita continua a não ter vergonha na cara e teima em chafurdar na mesma desonestidade intelectual de que acusa os Costas e os Galambas desta vida, acumulam-se as duras críticas à sensata posição do Governo de Portugal em relação à guerra fria entre a Rússia e o Reino Unido. Serão os mesmos que evocam uma aliança centenária, quase pretendendo fazer a equivalência entre a defesa da mesma e o patriotismo, patriotismo esse que os leva, em certas ocasiões e nas poucas partes que conhecem de cabeça, a cantar um hino que surge de uma marcha exigindo que os portugueses rasgassem essa tal aliança e pegassem em armas, o equivalente a um suicídio dos dolorosos, “contra os Bretões”. Bom povo inglês, sempre do nosso lado em Goa, em Angola, em Timor.

Bem faz o Governo em exigir prova concreta que suporte as acusações inglesas, como também faria bem em desconfiar das mesmas, sejam elas apresentadas. Não há muito tempo, a dupla Durão e Portas arrastou Portugal para um conflicto desencadeado à margem do direito internacional, cujas provas, posteriormente, se verificaram serem falsas, e que pode bem acartar as culpas da terrível situação que o Médio Oriente hoje enfrenta. Sim, PSD e CDS têm ambos sangue nas mãos e a choradeira dos seus dirigentes e apoiantes quando se deparam com imagens dos meninos sírios lembra aquelas viúvas chorosas no luto do defunto,  tendo umas semanas antes escarniado o marido à cabeceira do amante.

Desde que o Reino Unido abandonou a sua realpolitik, que permitiu ao continente europeu escapar, ao longo de séculos, do domínio francês, espanhol ou  alemão, através de intervenções cirúrgicas contra o poder hegemónico em cada situação específica, transformou a sua política externa numa cruzada ideológica subjugada aos interesses dos EUA, a grande potência imperialista do nosso tempo. Sendo que a Rússia não é o céu, nem Putin é o santo que alguns entre nós pregam, convém recordar a longa lista de malfeitorias praticadas além-mar pelos líderes da NATO, com especial destaque para as recentes desestabilizações da Ucrânia e da Síria.

É claro que quem lê as relações internacionais, não como um burro olhando para um palácio, mas como um burro estudando um manual de astrofísica, poderá retirar da vida política doméstica deduções morais para o que é a sua política externa e, portanto, é óbvio que as velhas democracias jogam sempre do lado dos bons e Putin, que se quer quase equivalente a Stalin pese embora que das suas mãos de contem menos mortos que nas dos cabecilhas do ocidente, é o diabo em pessoa. Esta linha de propaganda foi utilizada com grande sucesso durante a Primeira Grande Guerra e conhecem-se potes de mentes indigentes que vêem no conflicto uma luta pela liberdade, não obstante a Rússia Czarista, do lado aliado, ser talvez o menos democrático de todos os regimes em guerra.

Ora pouco me importa o que o Sr. Putin faz dentro de sua casa relativamente à situação que me leva a escrever texto. Importa-me sim que o Reino Unido apresente prova fidedigna das acusações que lance e importa que, mesmo após essa hipotética apresentação, Portugal se reserve ao direito de desconfiar de um crápula, princípio comum aos estados e às pessoas com dois dedos de testa.

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11 thoughts on “O Paciente Inglês

  1. JMS

    Se dúvidas existissem sobre esta gente que nos “governa”, ficou demonstrado, mais uma vez, a “matéria” de que são feitos.

    A cobardia, o eleitoralismo, a incompetência e o sectarismo demonstrados desde há dois anos, deveriam envergonhar qualquer português.

    Mas não. Estamos todos felizes e contentes por pagarmos impostos mais elevados do que no tempo da troica/Passos, pelas mentiras descaradas de Costa cada vez que abre a boca, sem ser questionado pelos “jornalistas” do rectangulo, sem oposição política e com o apoio dum palhaço que se faz passar por Presidente da República.

    Pelos vistos e, contra aquilo que seria de esperar, esta gente arrisca-se a ter maioria absoluta nas próximas legislativas.

    Não vale a pena perder mais tempo com o assunto Portugal. Nos tempos mais próximos, pelo menos.

    Quanto à opinião do Ricardo, não concordo com ela mas respeito-a.

  2. A “jiade” dos mentirosos e corruptos lideres ocidentais contra a Russia insere-se no plano da oligarquia Americana para aplicar os produtos do seu complexo financeiro-militar numa tentativa desesperada de manter o dominio total do mundo.
    Os mentirosos e corruptos politicos europeus não passam de idiotas úteis na acção de espalhar a guerra atraves de muita mentira e propaganda , tal como aconteceu no Iraque , na Libia , Tunisia , Egitpto , Ucrania e Siria .
    O Putin é um ditador ? Não sei . O que sei é que a Russia não é de perto nem de longe uma ameaça para os europeus . Os Obamas , as Klintons, e até já o Trump ( terá sido obrigado pelo verdadeiro poder?) desunham-se para provocar uma guerra com a Russia , arranjando sucessivos fabricados pretextos .A nato também tem que justificar a sua existencia pelo que uma guerra fria pelo menos é o ideal.
    Brincam com o fogo . Foi com brincadeiras do genero que começaram as guerras mundiais . Os politicos são os culpados e não os povos que esses sim querem a paz.

  3. Raios partam o seu patriotismo, sr Ricardo Lima.

    São até agora 20 os países europeus que condenam os abusos de Putin com medidas diplomáticas. Além desses, Canadá, Austrália e Estados Unidos também alinharam.

    Os atrasados mentais que nos governam não perceberam que Portugal opta por estar fora desse mundo civilizado, aliando-se à ralé de paises atrasados ou de (semi)ditaduras ?

    É preciso procurar para encontrar paises democráticos que NÃO tenham tomado medidas contra a intervenção russa no Reino Unido.

    Unidos estiveram Alemanha, França, Polónia, Lituânia, República Checa, Dinamarca, Holanda, Itália, Espanha, Irlanda, Islândia, Croácia, Estónia, Finlândia, Roménia, Hungria, Suécia, Letónia, Noruega, Ucrânia e até a Macedónia e a Albânia !!

    Esta é a minha Europa. Portugal, com a Áustria, a Sérvia e a Grécia, faz parte dos cobardolas. Não é de agora. Toda uma tradição de demissão face aos desafios internacionais.

    Sr. Augusto Santos Silva, ‘brilhante sociólogo’, ainda “está a pensar”? Tenha vergonha. Só mostra quanto depende do CES/UC do Sr. Boaventura.

  4. mg

    “quando o jornalismo é marxista é o que acontece.”
    E usa o New York Times como fonte de informação…

  5. Buiça

    Somos pobres e endividados, dependentes da UE para a moedinha e no que interessa para este caso subditos da Nato.
    Tanto podemos reconhecer que o mundo está a mudar e ir assumindo uma conveniente neutralidade; como podemos seguir a voz do dono sem questionar.
    O xinfrim em volta do assunto é que nao ajuda ninguém… não vale a pena chamuscar a bandeira só para embaraçar a geringonça forçando o (ainda) dono a mandar fazer o que eles mandam.

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