Dois erros clamorosos

Quando, há um ano e pico, tomava café com um dos membros-fundadores do que seria mais tarde o partido Iniciativa Liberal, recordo-me de fazer dois prognósticos (ainda o jogo nem havia começado): 1) que nunca seriam um partido liberal, até porque há uma contradição insanável nos termos; 2) que muito provavelmente o partido iria ser canibalizado por progressistas, à semelhança do que aconteceu com o Movimento Liberal Social, transformando-se em mais um trampolim da esquerda. Disse, porém, que para terem o meu singelo apoio, pelo menos em espírito, bastava-me que fossem menos socialistas do que os outros. Desejei-lhe boa sorte e seguimos viagem.

Hoje, vendo em retrospectiva, temo que alguns destes prognósticos se estejam lentamente a materializar. Vejo na estratégia actual dois erros que me parecem ser absolutamente contra-producentes para os objectivos que serão — diria eu — os de um partido liberal. Um é um erro meramente comunicacional (sei bem que estão especialistas no assunto a definir o marketing político, mas ouso, ainda assim, dizê-lo). O outro é um erro de posicionamento ideológico.

O primeiro é a luta estéril pelo fim da destrinça esquerda/direita. Sabemos bem que a origem destes termos remonta à Constituinte da Revolução Francesa, que está desactualizado, que não reflecte as múltiplas dimensões políticas, etc e tal. Ainda assim, é espúrio um partido perder-se no diz e desdiz que não é de esquerda nem de direita. Os de esquerda dirão que afinal é um partido de direita com medo de o assumir; os de direita dirão que é um partido de esquerda encapotado. No meio ficam três ou quatro que votam de forma «pragmática», sem olhar a «ideologias», e que oscilariam entre BE e CDS só para garantirem a «rotação do poder».

O segundo erro é dedicarem grande parte do seu tempo e das suas energias a rebaterem conservadores, quando deveriam estar a rebater socialistas. Sempre me deixou perplexo o sectarismo que pautava a esquerda, com a troca de remoques — isto quando não escalava às trocas mais físicas — para saberem quem era verdadeiramente o digno mandatário do maoismo, do estalinismo ou de qualquer uma das correntes primogénitas do real socialismo marxista. Deixa-me agora perplexo que a luta se trave à direita (note-se que ainda coloco o IL nesta esfera), e que o IL faça do aborto, um tema que sempre dividiu liberais (Hobbes e Locke diziam que existe um direito inalienável à vida; JS Mill, pese embora o seu flagrante utilitarismo, era opositor declarado do aborto; já Rothbard, por seu lado, achava que o feto é um parasita no corpo da mulher, pelo que a decisão é da mulher), uma bandeira. Este tema, pelas suas implicações morais (e aqui faço a ressalva de que moralidade não implica religiosidade, algo que também parece apoquentar sobremaneira muitos membros do IL) deveria ficar à consciência de cada um, e se todo o partido votasse a seu favor, pois que assim seja, mas não por posição e imposição una do partido. Fazer do tema uma causa do partido é que me parece muito progressista — eis um raro instante em que um progressista, rejeitando a possibilidade de escolhermos a escola dos nossos filhos ou o hospital onde queremos ser tratados, fala de «liberdade de escolha».

Em suma, e espero estar enganado — escrevo isto na esperança de estar mesmo enganado —, o que está a acontecer em Portugal e, muito em particular, à Iniciativa Liberal, parece ser um remake do que aconteceu outrora nos EUA: tendo o socialismo se tornado uma palavra proibida, os progressistas açambarcaram o mais neutro termo liberal, estabelecendo aí a sua plataforma. Pode servir os interesses eleitorais, não serve é os interesses do país. Afinal, já temos partidos socialistas que cheguem.

Anúncios

12 thoughts on “Dois erros clamorosos

  1. Albino ramos

    Tal e qual. O principal problema está no marketing político que acha que o partido se deve adaptar ao eleitorado e não passar uma mensagem que permita ao eleitorado evoluir na forma desinformada como vota. No fim, como dizes, são todos socialistas.

  2. Luís Lavoura

    Eu sou um membro recente da Iniciativa Liberal e assisti (como mero observador) à última reunião do seu Conselho Nacional. Ora, tanto quanto percebi dessa reunião, 1) o programa do partido ainda não está elaborado, muito menos faz qualquer mênção ao aborto ou ao suicídio assistido, 2) o partido não gasta energias absolutamente nenhumas a demarcar-se do conservadorismo. Por isso, fico perplexo com este post.
    A figura que ilustra o post está assinada “agenda-liberal.pt” e não “Iniciativa Liberal”. Penso que devam ser duas coisas diferentes.

  3. transcrevo o que escrevi a um amigo em 20/12/2017:

    “Nos países anglo-saxonicos os partidos liberais são esquerda.
    Tenho dúvidas que seja um PSD mascarado, mas…

    Estou à espera que me convençam

     Não gostei da porta aberta a conceitos duvidosos do que fnciona ou não em concorrência.
     Dizer que está ao centro. Parece-me um bloco de esquerda mascarado.
    ……
    Não estou muito convencido, será que é mais um Livre?
    Pelo manifesto, parece bonito, mas a prática??”

    Na base do que escrevi está um conceito simples:
    Para quem sabe o que é liberdade, não necessita de meias palavras para se definir, um liberal não questiona, qual o agente económico que deve prestar o serviço, assume que é o mercado que o deve seleccionar.
    Por isso já o manifesto não cheira bem.

  4. Quando soube deste partido, há uns meses atrás, foi ao site ao li alguns materiais. Fiquei desmotivado com a ambiguidade ideológica, e com a sobreposição com as causas da esquerda. De vez em quando estou atento, mas ainda não vi nada até agora que me convencesse.

  5. > Sempre me deixou perplexo o sectarismo que pautava a esquerda

    É inerente – como a multiplicação das seitas protestantes. Se há justificação para uma primeira cisão, porque não para uma enésima? Cinde-se até ao limite do grupelho ridículo, onde até o ambicioso mais cego nota que já é demais.

  6. Evidentemente que um VERDADEIRO movimento liberal terá de se demarcar vigorosamente do conservadorismo.

    O modo de vida conservador deverá ser uma opção do individuo e nunca uma imposição legal como pretendem os políticos conservadores.

    Como tal um VERDADEIRO liberal terá de ser a favor da descriminalização de coisas como a eutanásia e o consumo de drogas leves, independentemente de na sua vida particular os poder rejeitar completamente.

    Nada mais ridículo do a contradição de “liberais” tentarem impor uma agenda conservadora fundamentalista cerceadora da liberdade de escolha.

    O facto da maior parte dos “liberais” fazerem isso prova que este “liberalismo ” de direita não passa de uma burla para servir de lóbby aos interesses corporativos de um grupo socio-económico.

  7. Caro Gonçalves.

    O artigo que indicou é interessante mas baralha liberalismo politico-social com liberalismo económico o que não é necessariamente a mesma coisa.

    O liberalismo político/social implica a limitação de TODOS os poderes, porque sabe que qualquer poder entregue a si mesmo torna-se excessivo e que qualquer poder excessivo é mau.

    Pelo contrário, o liberalismo exclusivamente económico concentra todo o poder nos detentores do poder económico, em detrimento do resto da sociedade que nessas condições tende a perder a sua liberdade.

    Como tal, o radicalismo do liberalismo económico tende a destruir o liberalismo político e social.

  8. O senhor Lopes não é capaz de perceber que para haver liberdade de escolha tem de haver legalização ?

    O nível destes sites se propaganda é tão baixo que mete dó.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s