É possível estar Reformado 30 Anos em Portugal?

Sim, é possível.

Vamos começar por estabelecer que a EMV à nascença em Portugal é de 80,6 anos. Mas esta média é puxada para baixo por crianças que infelizmente morrem cedo (felizmente cada vez menos casos). Assim usemos em vez disso usaremos a EMV aos 65 anos: 19 anos – ou seja, quem chega aos 65 em média viverá mais 19 anos. Idealmente até usaríamos a EMV aos 55, mas teremos de usar a EMV aos 65. A CPAS afirma que no caso dos advogados a EMV aos 65 é superior (mais de 20), mas estamos a falar da Seg. Social portanto 19 é a mais apropriada. A nossa pergunta deve então ser se há em Portugal quem se reforme antes dos 54 anos? Vejamos alguns exemplos que conheço.

1. Imagine um militar do Ultramar. Chega a Portugal e entra na GNR, onde os anos de combate contam, e contam a dobrar. Um homem nestas circunstâncias podia reformar-se aos 49 Anos. Conheço vários casos que o fizeram, enquanto que outros foram generosos e ficaram a trabalhar até aos 50 e tal, pois gostavam do que faziam.

2. Imagine uma professora. Depois do Magistério, começa a trabalhar aos 21. Depois de 32 anos de serviço reforma-se aos 53. Sem penalização alguma. Sem se colocar a hipótese de passar de professora para um papel menos stressante numa outra posição no ministério (que me parece que é para onde vai este debate do envelhecimento activo).

3. Imagine-se uma trabalhadora nos campos no interior. O marido morreu cedo e começou a receber pensão de viuvez ou sobrevivência. Aos 65 a pensão converte-se em reforma. Quantas viúvas conhece que ficaram viúvas antes dos 54, sobretudo nos campos do interior? A mesma conversão acontece nas pensões de invalidez (e note-se que neste ponto 3 não estou a criticar quem recebe um apoio porque necessita).

Se isto é comum? Todas as pessoas com quem cresci, a cumprirem a EMV65, vão receber pensões da Seg. Social mais de 30 anos. Todas. E cada um representa grupos com milhares de casos.

Sublinho que para mim o problema não é as pessoas viverem muito. More power to them. A questão é que ou o sistema passa a ser um sistema tendencialmente individualista, ou se cortam a direito em metade destes direitos, ou o sistema colapsa sobre a o seu peso devido à falta de natalidade. E eu preferia que isso não acontecesse.

Post Scriptum: Quer saber a piada? Os colegas do meu pai que se reformaram aos 49 recebem 100% da reforma e o meu pai que trabalhou por opção bem mais anos foi castigado e só recebe 90%. Sublinho: quem se reformou mais cedo, não apanhou uma reforma do sistema e recebe mais. E ainda lhe lembram do facto nos encontros de antigos colegas. Este país, vá por mim, é uma anedota.

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9 thoughts on “É possível estar Reformado 30 Anos em Portugal?

  1. Luís Lavoura

    ou o sistema passa a ser um sistema tendencialmente individualista, ou o sistema colapsa devido à falta de natalidade

    Qualquer sistema, individualista ou não, colapsará se as pessoas quiserem viver 30 anos na reforma ser produzirem nada.

    Um sistema individualista não resolverá o problema, porque é impossível a generalidade das pessoas produzirem, durante 40 anos de trabalho, suficientes poupanças para se alimentarem durante 30 anos de reforma.

    E o problema não é a falta de natalidade. O problema é mesmo as pessoas quererem viver 30 anos na reforma.

  2. Um sistema individualista é possível, um sistema individualista existe, e um sistema individualista pode ser subscrito por si, pessoalmente, através de mim.
    Você diz que eu não existo, eu garanto-lhe que existo. E agora? 🙂

  3. 30 anos? A minha sogra reformou-se com cinquenta e poucos anos… E queixa-se dos cortes do PPC… E que descontou muito rebéubéu…

  4. Luís Lavoura

    Ricardo Campelo,
    suponhamos uma situação deveras favorável: ausência de impostos, um indivíduo ganha 2 mil euros por mês, gastando 1500 e poupando 500. Faz isso durante 40 anos. Passados esses 40 anos tem 500 x 12 x 40 = 240 mil euros poupados. Suponhamos que os investe numa obrigação que rende (mais uma suposição muito favorável) 4% de juros ao ano; suponhamos que esses 4% são juro real, uma vez que a inflação é completamente nula. Então esse indivíduo fica a ganhar 240 mil x 4% = 9600 euros por ano, o que é igual a 800 euros por mês. Ou seja, o indivíduo que toda a vida consumiu 1500 euros por mês, chegada a reforma só tem 800 por mês.
    E isto, repito, é sob condições muito favoráveis.

  5. PMBBPMBB,
    Se se reformou aos 50, em princípio viverá 30 anos à custa da Segurança Social.
    Se ela descontou muito? lol
    Ela que faça as contas. Se pagar 1/3 ou 1/2 da sua reforma, já será muito.
    E contribuiu 0 para Pensões de Invalidez e Sobrevivência, o que era a sua obrigação pois tinha um seguro implícito de que se acontecesse algo desse tipo ela estaria protegida.
    Felizmente a sua sogra não me conhece, pois a mim ela não dizia isso sem eu a corrigir onde ela me dissesse tal barbaridade.

  6. Luís Lavoura,
    Atenção que a ideia não é apenas viver dos juros mas também ir consumindo o capital até que na EMV o capital disponível seja 0.
    Se entregar a uma companhia 240.000€, ela entrega-lhe esse valor dividido em 192 meses (se estiver a 16 anos da EMV, por hipótese) – actualizando todo o ano com juros de 0% (ou seja, iguais à inflação, pelo que todos os anos a sua reforma subiria um poucochinho).
    Adiciono só para que compreenda melhor o lado da seguradora que neste cenário os que morrem mais cedo pagam para os que morrem mais tarde e portanto em média a conta fica certa. (se a seguradora quiser ganhar dinheiro, acrescenta 1 ano à sua EMV, claro 😉 ).

  7. Luís Lavoura

    Ricardo Campelo,
    Se entregar a uma companhia 240.000€, ela entrega-lhe esse valor dividido em 192 meses (se estiver a 16 anos da EMV, por hipótese)
    Certo. Mas se a pessoa quiser viver durante 30 anos de reforma, isso faz 360 meses, logo a pessoa receberá 240 mil / 360 = 670 euros por mês. O que é pouco.
    O que eu pretendo salientar é que é extremamente difícil – mesmo no caso favorável que eu supus, de uma pessoa que ganha bem e poupa bastante – poupar o suficiente para se viver de forma confortável durante 30 anos de reforma.
    Ou seja, os planos de poupança individuais dificilmente serão uma solução para o problema. Só o serão se – as pessoas morrerem cedo.

  8. Luís Lavoura

    Ademais, há um problema político. O dinheiro, seja ele de que forma fôr obtido, é apenas um claim à riqueza total (ao PIB, se se quiser) de uma sociedade. Numa sociedade em que metade das pessoas são idosos que não trabalham, as pessoas que trabalham sentem-se crescentemente exploradas pelos idosos que têm muito dinheiro e portanto conseguem ter um grande claim sobre a riqueza. A prazo, esta situação pode-se tornar socialmente e politicamente explosiva. Isto é verdade independentemente da forma como o dinheiro desses idosos fôr obtido – venha ele de poupanças individuais ou de um sistema de pensões. O facto de o dinheiro provir de poupanças individuais não resolve o problema político; as pessoas jovens continuarão com a desagradável sensação de estarem a trabalhar para uma data de tipos que não fazem nada.

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