CDS – Uma Reflexão Pré-Congresso

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O CDS padece, desde a sua génese, de uma lamentável disposição a ser bengala. Esta disposição, originada, a meu ver, por um medo de parar, permite-lhe ir andando, mas também o impede de correr. Nas ocasiões, poucas, em que o CDS resolveu tentar aspirar a marcar a sua posição no espectro político, ora obteve votações expressivas da parte do povo português – ver este artigo de Richard A. H. Robinson -, ora foi esmagado por circunstâncias da época, como o foi o choque de Lucas Pires e do Grupo de Ofir – ver artigo do Adolfo MN – com a ascensão do Cavaquismo. Faz falta pensar, sobretudo pensar. Os tecnocratas que nos apoquentam, os que nos bombardeiam diariamente com chavões como challenge e leadership e branding, não entenderam, ou não quiseram entender, o poder da marca na política: e essa marca é a ideologia, firme, segura de si.

Ao ambicionar diminuir-se ideologicamente, para com isso assaltar o eleitorado ao centro, o CDS consolida a desconfiança já tremida daquela que é a sua base: a direita. E porque um mal nunca vem só, enxota de vez os desapontados, aqueles que nos mais de 40% de abstenção não se reconhecem neste sistema putrefacto do arco da governação. Hipoteca o futuro por umas migalhas no presente, apesar de ser, mais tarde do que imaginam os arautos da serenidade do bom povo português, Pinheiros de Azevedo desta vida que tomam por fumaça o êxodo dos jovens da política, candidato a como os outros perecer na poeira do tempo, olhado daqui a uns anos como relíquia de uma época menos afortunada.

Lá vai ele, a galope do centrão e do pragmatismo. Confunde o ordoliberalismo, património de Erhard e de Friburgo, com pôr ordem no liberalismo, julgando que a resolução dos problemas sociais está na socialização dos problemas. Confunde o progresso com o progressivismo, alternando entre a bloquização das suas causas e um ultramontanismo encapotado de moral cristã, o dos que se pretendem doutores da igreja sem conhecer uma vírgula de Santo Agostinho. Samba pela modernidade com a esquizofrenia de quem não se conhece, não se quer conhecer e rejeita todo e qualquer tratamento como uma vil apropriação da sua consciência por parte de perigosos extremistas, os conservadores e os liberais, essas seitas que lhe vetam o casamento e lhe estragam as núpcias com os partidos de poder. Já não são muitos os saudosistas das colónias, como prega a propaganda de esquerda, enfatuada pelo marxismo cultural. Vemos sim, em alguns elementos da classe dirigente, os que levam Angola, ou os seus dirigentes, demasiado perto do coração.

A Juventude Popular, recheada de bons quadros e bem à direita do partido, como se tem visto pelo venturoso desfile do seu líder pela imprensa – que o vai mimando a jeito -, pode parecer aos mais esperançosos, como eu, um farol da destra, rumo a um futuro luminoso, mas tem vindo a esbarrar na intransigência dos políticos profissionais, e lá vão saindo os seus frutos de uma casa de saber para uma casa que se espera que não seja de sabidos.

O partido também hesita em encontrar formas de combater a Nova Esquerda, barricada no Bloco e ganhando força no PS. O feminismo de terceira via, as questões do género, o higieno-fascismo, o politicamente correcto e os ataques daí decorrentes à historia de Portugal no mundo são algumas das temáticas em que o CDS recusa o combate, balançando entre o silencio e a crítica branda. As tendências, sempre tendenciosas,  escarrapacham-se em moções e adiam um esclarecimento. De tantos em tantos anos aparece alguém que descobre “a verdadeira” Democracia-Cristã debaixo de uma pedra ou incorpora Freitas do Amaral e o centrismo estrito – que como se viu no próprio e em alguns companheiros seus, descamba no Partido Socialista.  Não se discutem as funções do estado, coisa aborrecida e perigosa. Somos sim confrontados com uma noção de família alheia aos que precederam a escalada da classe média que se inicia na segunda metade do século XIX e que prosperou nos trinta gloriosos, para agora se achar refém do mundo líquido de que nos fala Bauman. A noção aristotélica de família, consagrada na sua Política por “aqueles que comem do mesmo pão e se aquecem no mesmo fogo” parece ceder perante o reaccionarismo velado em moral.

Os defensores da tal “democracia-cristã” real devem entender que a Rerum Novarum e a Quadragesimo Anno – ver “Classical Liberalism of Rerum Novarum, “Catholicisms Developing Social Teaching” e “Liberating Labor” – são textos relevantes, mas próprios da sua época, onde a protecção aos desvalidos era mínima, no caso da primeira, e onde a luta de classes ameaçava engolir a Europa, na segunda. Desde aí, outros países com forte influência democrata-cristã encontraram formas de reformar os estados de bem-estar que foram construindo, incluindo a liberdade de escolha e a autonomia como pontos cruciais dos mesmos. Desde aí o corporativismo, à época quiçá exacerbado de forma a assegurar a manutenção da paz social, culminou com casos como o alemão, em que patrões e trabalhados de diversos sectores definem um salário mínimo e outros pontos desde o Acto de Acordos Colectivos de 49. Adenauer foi um grande estudioso de ambas as encíclicas. Urge retornar às mesmas e proceder ao seu estudo à luz dos dias que correm.

As moções que vão a Congresso este Sábado são muito disto. Só naquela que a Juventude Popular se propõe apresentar podemos encontrar uma visão mais liberalizante e mais conservadora, menos consumida em recuperar a “teoria das bossas” ou outros trapos velhos e mais focada em capacitar o partido para um debate político cada vez mais ideológico e um eleitorado, sobretudo o jovem, cada vez mais entristecido com a falta de contraste entre as alternativas. É sintomática a irritação da imprensa portuguesa com a firmeza de voz a que assistimos no último ano, cristalizada nesta moção. A imprensa, radicada ao centro e à esquerda, teme sempre o encara como ameaça ao status quo, prova cabal do sucesso deste posicionamento.

O CDS deve pautar o seu caminho e recusar ir à boleia do caminho por outros traçado, colhendo uma bandeira aqui ou acolá na esperança de marcar o horário nobre. Deve ambicionar para si o centro-direita, aproveitando a mudança de ciclo do PSD e a jacobinização progressiva do PS. Querer ser outra coisa, ou querer ser tudo e mais alguma coisa, apostar única e exclusivamente no carisma da líder ou em projectar a sua “vitória” em Lisboa, competir para o mesmo espaço com partidos que o superam em recursos e em implementação história, é cair num crasso erro que pode, não reconduzi-lo a partido do táxi, mas a partido do segway.

O CDS deve apresentar-se como o partido dos defensores da iniciativa privada, de um estado social, pautado pela Doutrina Social da Igreja, assente na eficiência e na liberdade dos seus agentes, à semelhança de alguns dos seus parceiros europeus. Deve acompanhar a transformação moral da sociedade, ainda que desconfiando das engenharias sociais que a modernidade lhe tenta incutir. Deve apostar no rigor das contas públicas, na revisão de um sistema fiscal complexo e pesado que asfixia privados e colectivos e pune a ascensão social. Deve colocar-se na vanguarda do redimensionamento da administração, da desburocratização e da revisão da legislação laboral. Deve ter coragem para apresentar uma visão séria em relação à reforma da segurança social, ao que fazer com o sector empresarial do estado e à sua visão de Europa – a meu ver, abraçando uma Europa unida sem utopias federais ou encantos ingénuos com os chiques ares de Bruxelas.

Deve rejeitar o ultramontanismo nos valores, o dirigismo na economia e a disputa pelos lugares de poder na administração. Deve reconhecer que, como nas palavras de um dos seus mais capazes quadros, o Michael Seufert: “o Estado não tem de ordenar aos indivíduos, às famílias ou às organizações como se governam naquilo que é seu e não colide com direitos de outros indivíduos, famílias ou organizações. O auto-governo, por definição, é desses casos”. Deve construir-se como alternativa a São Bento, não descurando reforçar o seu crescimento autárquico. Deve abraçar o passado, mas olhar o futuro. Deve ganhar juízo ou arriscar desaparecer.

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12 thoughts on “CDS – Uma Reflexão Pré-Congresso

  1. Como é que o CDS se pode afirmar ideologicamente se não passa de uma burla ideológica tal como o PS e o PSD ?

    Este partido afirma-se democrata cristão, pelo que seria obrigado a seguir a doutrina social da igreja, que defende o estado social, tal como a social-democracia, mas segue políticas neoliberais que negam tudo o que diz acreditar.

    – Também gostei daquela de presunção de darem como adquirido que os 40% de abstenção estarão ansiosos para votar num CDS convertido á extrema diteita. Mais do que já é…

    Ao partido da abstenção pertenço eu, que só votei duas ou três vezes e não me estou a ver a ir correr a votar num CDS ainda mais tretas do que aquilo que já é.

  2. Mario Figueiredo

    Li na diagonal algumas das moções (não houve paciência para mais). É impressionante como o CDS abandonou a lógica e a ideologia de direita e se tornou um partido de causas. Conseguem-se ler moções em que as linhas orientadoras do partido são definidas como sendo a homosexualidade e o aborto. Nem uma palavra para a economia, para as finanças, para o papel do estado.

    Ainda antes de começar, este congresso já demonstra bem o esvaziamento ideológico do partido, sem dúvida porque o partido também se esvaziou de gente capaz. Isto não é um partido de estado, é um partido de causas em nada diferente de um PAN ou de um qualquer partido que concorre a eleições parlamentares para defender a produção nacional de feijão verde.

    O CDS precisa realmente de recuperar a sua ideologia. Mas obviamente quye rema contra a maré, já que ideologia partidária está fora de moda neste mundo novo em que a política se faz espectáculo e o mundo do espectáculo se faz à política.

  3. Ainda bem que a actual líder do CDS está disposta a visitar a mesquita central de Lisboa, ser submissa e meter a vestimenta islâmica destinada às mulheres enquanto espreita por uns buraquinhos o que os homens lá em baixo fazem, ainda bem que está disposta a confraternizar com o Sheik “parto a cara à minha mulher à cotovelada” Munir, tudo isto encapsulado num videozinho com uma banda sonora de como allah é o maior, para depois se virar para o país e falar das mulheres e coisas assim, muito bom mesmo. É esta a liderança actual do CDS, submissa.

  4. Caro Marialva.

    Não se consegue abrir as tuas fotos, não consegues arranjar nada que se possa ver bem ?

    É que, pelo pouco que se consegue ver, parece um meme do movimento nazi da alt rigth a celebrar os assassinatos em massa por parte das ditaduras neoliberais.

    É bom que ponhas isso em grande, nas cores mais brilhantes possível, para que se veja bem o que é a defesa do “direito, liberdade e democracia” por parte dos conservadores neoliberais.

    Obrigado por ilustrares tão bem o que vocês realmente são.

    Mas ao menos fá-lo bem e arranja fotos que se consigam ver.

  5. lucklucky

    Mais de 40% do PIB em impostos e ainda tem a lata de falar em políticas neoliberais. Mais uma demonstração que mentir é necessário para um Marxista. Ork Ragnarok mente.

  6. lucklucky

    Como é que julgam que a D.Cristas chegou a líder do CDS?

    Com a promoção do jornalismo Marxista que lhe deu visibilidade.
    Por isso é que ela diz coisas que poderiam vir do PCP ou do BE.

    Quer o PSD quer o CDS são partidos que já não existem.
    Não representam nada a não ser escolhas do jornalismo marxista.

  7. Caro Lucky.

    A Cristas é Marxista ?

    Foi apoiada pelo jornalismo marxista ???????!!!!!!

    Nunca vi o jornal Avante a apoia-la…

    E é o Avante que apoia o PSD e o CDS ?

    Estamos no reino do delírio.

  8. lucklucky

    Leia-a eu disse que Cristas diz coisas Marxistas.

    Você ignorante ao ponto de não saber que o Comunismo é hoje só uma pequena parte do Marxismo? Que a maior parte dos Marxistas em Portugal estão fora do PCP.

  9. Caro Lucky.

    Acontece que o marxismo tanto tem coisas más, como coisas boas, que muito pouca gente hoje em dia poderá negar.

    Por exemplo, o manifesto comunista defende a educação infantil e a limitação do trabalho infantil nas fábricas.

    Você é contra a educação para todas as crianças ? É contra uma especial proteção das crianças no caso de trabalho infantil ?

    É que se não for, pela sua bitola, é marxista.

    Mas tirando estas coisas básicas, em que ninguém com um mínimo de ética discorda, francamente não estou a ver a Cristas a defender a abolição da propriedade privada…

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