As universidades portuguesas e a endogamia

Um artigo de leitura obrigatória do Alexandre Homem Cristo: A Universidade que temos.

Quem tivesse aterrado há cinco dias em Portugal, e ouvisse as críticas à contratação de Passos Coelho para dar aulas no ISCSP da Universidade de Lisboa (UL), poderia convencer-se que, por cá, se leva muito a sério a qualidade no recrutamento das universidades, assim como o rigor na atribuição de graus académicos. E se se convencesse disso estaria obviamente equivocado.

Poder-se-ia entrar no debate e explicar que ter ex-políticos de relevo a dar aulas numa universidade é uma prática comum no contexto internacional. Ou até esclarecer a ignorância de quem não sabe que o estatuto de catedrático-convidado, que Passos Coelho terá no ISCSP, não equivale a professor catedrático em termos de carreira académica. Mas o ponto não está nesta argumentação. A questão que realmente importa tem raízes mais profundas: a contratação de Passos Coelho nunca poderia ser bem-recebida num sistema universitário alheio ao mérito, alimentado por compadrios e redes de influência. Isto é, um sistema que aclama a endogamia – e que é, portanto, arbitrariamente precário para uns e generoso para outros.

(…) O que quer dizer tudo isto? Que o caminho mais certo para a obtenção de um lugar numa faculdade é a vassalagem académica, tendo as lideranças das faculdades um poder tremendo sobre a carreira (e a vida) dos docentes. Que são estas as regras do jogo, que muitos lamentam mas cumprem porque disso depende a sua progressão profissional. E que quem entrar vindo de fora, por mérito próprio ou melhores contactos, será visto com inveja e tratado como ameaça.

Sim, há um problema nas escolhas que as universidades fazem na contratação dos seus docentes. Mas não, esse problema não está no perfil de experiência e qualificações de Passos Coelho para leccionar Administração Pública no ISCSP – já agora, a unidade da UL com mais baixa taxa de endogamia (59%). O problema está num sistema universitário erigido sobre pequenas teias de influência, lealdades, invejas e redes de poder. Discuta-se isso, que o resto é só ruído.

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4 thoughts on “As universidades portuguesas e a endogamia

  1. O sistema está podre e por qualquer lado que se pegue cheira sempre mal. A política, que devia ser a mãe de toda a justiça e oportunidades, gerou dentro de si uma teia que a corrompe e alimenta. Isto já não tem cura porque os alicerces estão contaminados, e o edifício, mais ano menos ano, cai.

  2. É nestas que se apanham os neolibs.

    Sempre a clamar contra o princípio do crony capitalismo mas sempre a praticá-lo.

    Este gajo estava bom para fazer umas conferências de propaganda, não tem qualquer preparação para ser professor muito menos catedrático.
    P
    Acho graça é a desculpa do “jornista” avençado pela máquina de propaganda do PSD.

    Que como também são corruptos e distribuem tachos aos políticos que serviram bem o crony capitalismo nos governos, então não faz mal ser corrupto.

  3. Pingback: As universidades portuguesas e a endogamia (2) – O Insurgente

  4. Luís Lavoura

    Eu creio que o trajeto universitário do autor deste post é ele próprio bastante típico. Licenciou-se numa universidade, depois arranjou lugar de assistente nessa mesma universidade, depois foi fazer doutoramento lá fora, e depois voltou para ser professor na mesma universidade em que se tinha licenciado. Um trajeto muito típico da endogamia universitária portuguesa.

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