O que se ensina pelas nossas escolas

O Gabriel Mithá Ribeiro dedicou a sua última crónica do Observador a relatar um revisionismo histórico surreal que podemos encontrar não no manual de história da China, como seria de esperar, mas num manual de história de Portugal, escrito por portugueses e leccionado por portugueses a pobres criaturas portuguesas.

Em causa está a forma assertiva com que os autores do manual de história abordam o Holocausto e todo o período do nazismo e a forma soft e descontraída com que se referem à China de Mao e aos mais de 60 milhões de mortos que esta causou — e que os autores estranhamente omitem.

Antes que uns tontos me venham acusar de nazi, deixo bem claro que a crítica é, obviamente, à forma eufemizada com que os autores do manual se referem ao maoísmo, e não à forma factual e detalhada com que se referem ao nazismo. Em particular, atente-se a estas duas passagens:

Sobre o nazismo alemão ensina-se que «O fascismo era uma doutrina antiliberal e antidemocrática. (…) Os movimentos fascistas perpetuaram-se no poder graças à organização de um sistema fortemente violento e repressivo (…). (…) Os judeus foram deportados para campos de extermínio nos quais ocorreu o genocídio de 11 milhões de pessoas, mortas nas câmaras de gás (polacos, eslavos, homossexuais, ciganos, opositores políticos, prisioneiros de guerra, deficientes). Seis milhões eram judeus» (pp.136, 142 e 147 – I Parte) [sublinhados meus para facilitar a comparação].

O mais relevante está aqui: um regime fascista, antidemocrático, facínora, que cometeu crimes contra a humanidade e em particular contra os judeus, tendo exterminado mais de 6 milhões nas câmaras de gás. Bastante fica por dizer, mas os detalhes mais relevantes, e mais sangrentos, não são omitidos.

Compare-se com a descrição do que foi a China de Mao, o Grande Passo em Frente e a Revolução Cultural, tal como relatado pelo Gabriel:

«A nação chinesa foi [ter sido]  mobilizada para um programa de desenvolvimento económico (…)» (p.72 – II Parte). Depois, vem a referência ao período das «Cem Flores» (1957) em que a violência do regime atingiu os que caíram no engodo do convite à crítica aberta, sendo referido que «(…) a contestação cresceu e o governo respondeu com repressão e purgas, em grande escala» (p.72 – II Parte). Sem mais. Não se referem ou mostram cadáveres ou os «laogai», os campos de reeducação e trabalho forçado da República Popular da China.

Como se não bastasse, refere-se ao período pós maoismo, encabeçado por Deng Xiaoping, como

Aos sucessores de Mao coube o desafio de modernizar a China e de integrá-la nos circuitos da economia mundial» (p.75 – II Parte).

Tudo está bem quando acaba bem. Perante um regime que condenou à fome milhões de Chineses, que matou dezenas de milhões de civis (não apenas em contexto de guerra), diz-se ao estudante que o governo respondeu com «repressão e purgas». «Repressão e purgas».

O resto está na crónica do Gabriel. Não obstante estes esforços para denunciar esta óbvia doutrinação, Che Guevara continuará a ser beatificado e descrito como um líder que inspira milhões de pessoas por todo o mundo, e o marxismo cultural travestido de «história» continuará. É o fado da civilização Ocidental, tão sequioso por se redimir de ser a civilização Ocidental.

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21 thoughts on “O que se ensina pelas nossas escolas

  1. Então mas ainda não sabia que a escola, especialmente a pública, apenas reproduz a narrativa e o poder dominante? É assim em todo o lado e sempre foi. Porque é que a narrativa dominante iria querer subverter-se a si mesma?

  2. Já que os gaiatos vão para a escola aprender umas coisas úteis porque não levarem também com uma boa dose de ideologia? Junta-se assim o útil ao agradável.

  3. Luís Lavoura

    Em Portugal vigora um regime de amplas liberdades, no qual há muitos manuais escolares alternativos, uns mais bem escritos e outros mais mal escritos. Não há uma comissão censória que elimine manuais. É pois natural que se encontrem manuais pouco desejáveis. Cabe aos professores de cada escola escolherem o manual que seguem, se é que algum. Nenhum professor é obrigado a seguir qualquer manual.
    Não sei se o Gabriel Ribeiro ou o MAL têm algum sistema alternativo a propôr.

  4. É assim a esquerdalhada.
    Democratas de enorme sensibilidade social, se lhes convém; cegos, surdos e mudos para tudo que lhes contradiga os mantras.

    Uns fdp desonestos.

  5. mg

    “apenas a denúncia pública, que é isso que estamos a fazer.”

    Oh camarada Amorim, à quantas décadas já se fazem estas denuncias públicas. Você acha que foi com as denuncias públicas que os mesmos, ou quaisquer outros que metem isto na educação foram para as cadeiras do poder.
    Até os vossos antepassados liberais sabiam bem como funciona o lobo politico e a verdadeira insurgência. Não a vossa composta de tertúlias e bolinhos com cházinho e um emprego no Estado.

  6. Caro MG, se quer ir para a rua partir uns caixotes do lixo e incendiar uns pneus é lá consigo. Faça boa viagem. Eu cá sou um bom burguês que aprecia a companhia de de uma boa tertúlia e em especial o bom vinho que a acompanha. O mg vai para a rua, eu fico a apreciar o meu vinho, pode ser?

  7. mg

    AH, longe vão os tempos em que os senhores feudais e os burgueses travavam as suas próprias batalhas…
    Ó Senhor Dom Amorim, melhor seria que senhor fosse um “burguês”, do que um pretensioso candidato, a querer parecê-lo ficando-se pela futilidade do vinho e do blazer de seda. Como diz o proverbio antes sê-lo que parecê-lo.
    Sabe, o problema não é propriamente os seus caprichos hedonísticos, o problema é que a única coisa que se distingue entre si e o seu prazer pelo “vinho”, e os vossos “antagonistas” intelectuais vermelhinhos e o seu prazer pelo “caviar”, é só a cor do clube de futebol à qual se tornaram adeptos durante a vossa infância choruda. Na verdade, todos vós são parentes e amigos uns dos outros, têm as vossas rixinhas clubísticas de café, mas no final do jogo vão todos Jantar juntos, comer da mesma panela e beber o leitinho mesma “grande Porca”.

    “O mg vai para a rua, eu fico a apreciar o meu vinho, pode ser?”

    Ó dom Amorim, não sou eu que me declaro um Insurgente e tem o Thomas Paine e o Thomas Jefferson a ganhar pó nas prateleiras da minha biblioteca “burguesa” , para impressionar os meus amiguinhos “intelectuais”.
    Largue lá então a sua suposta Insurgência, dedique-se antes a continuar a aldrabar os vossos camaradas libertários a comprar Bitcoins. E não se preocupe há sempre um cantinho na história reservada para os oportunistas e os cobardolas pomposos.

  8. O Mário Amorin Lopes andou tanto tempo a apreciar o seu bom vinho e as suas tertúlias que entretanto já foi tudo tomado e o único “poder” que tem é a “denúncia pública”, o que é que a sua “denúncia pública” adianta quando o público a quem se dirige já está todo formatado a ser contra si? Não falo da sua dúzia de amigos das tertúlias, esses com certeza concordam consigo, falo dos outros tantos milhões. Faça uma petição a seguir.

  9. Um verdadeiro guerrilheiro, mg. Coloque a boina, vá buscar o fusco e mande-se para um monte. Olhe, vá para Montesinho e abrigue-se numa escarpa enquanto planeia a revolução. Quando voltar passe por Murça e traga-me uns vinhos. Agradecido.

  10. “a cidade está a arder mas vou tipo… contar as minhas bitcoins…. participar numas conferências exclusivas sobre o mises e tal… e quem sabe… talvez venha até a expressar as minhas preocupações num blogue na internet”

  11. “e o bom vinho das tertúlias claro, nada como juntar-me à dúzia de amigos altamente intelectuais e mandar-mos uns bitaites sobre a sociedade, entretanto os outros ardem, e ardem, e ardem…”

  12. Bem e o MG já o arruinou na resposta que lhe deu acima às 16:45, de ali dificilmente sai com alguma reputação ou honra, mais nada a acrescentar.

  13. Dou-lhe razão Mário, certamente que agora não tem agenda para tal coisa – mas vai ter, e vai estar numa posição bem pior.
    Depois admiram-se…

  14. O marxismo cultural é contra a civilização ocidental ?

    Então os senhores não sabem que o marxismo é uma criação da civilização ocidental ?

    Marx é um ocidental e foi buscar materiais a outros filósofos ocidentais, de Platão a Hegel.

    O espirito crítico e revolucionário marxista é típico do ocidente.

    É ridículo contraporem o vosso suposto conservadorismo a esse espirito porque o vosso próprio liberalismo é tão revolucionário como o marxismo. Impôs-se através das revoluções inglesa, americana e francesa.

    – Sim, as ditaduras de esquerda costumam ser melhor tratadas que o fascismo. Mas não precisam de inventar conspirações que a explicação é simples.

    O Hitler era uma besta. Consegue juntar toda a gente contra si, desencadear a guerra mais sangrenta de todas e levar a alemanha á maior derrota da história.

    A arrogância germânica consegue o feito de tornar o fascismo o inimigo comum de toda a gente.

    Como tal não tem nada de espantoso que leve porrada de todos os lados.

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