O comovedor zelo dos indiferentes e dos ateus pela Igreja Católica

A Igreja dos caminhos que se bifurcam. Por Rui Ramos.

Uma das coisas mais comovedoras em Portugal é o zelo dos indiferentes e dos ateus pela Igreja Católica. Não vão à missa, “não acreditam em nada daquilo”, mas ei-los sempre cheios de opiniões sobre o que devia ser o catolicismo. Cento e dezassete anos depois da separação, a Igreja continua a ser discutida como se fosse o equivalente religioso do Serviço Nacional de Saúde.

Não faltou por isso quem, não sendo católico nem recasado nem pretendendo ter acesso aos sacramentos, se sentisse “importunado” pelo que o Cardeal Patriarca de Lisboa terá recomendado aos católicos divorciados que, casados outra vez, queiram ter acesso aos sacramentos. Acontece que a doutrina da Igreja corresponde a uma tradição dogmática que ao clero é dado interpretar, mas não actualizar conforme os likes das redes sociais. A única questão, portanto, seria saber se o que o Patriarca disse está de acordo com essa doutrina. Os críticos, porém, alegam que a Igreja precisa de se “modernizar”, se quiser “sobreviver”.

(…) Acontece que a grande ambição do laicismo nacional, desde o século XIX, não foi apenas “separar” o Estado da Igreja, mas também dominar e usar a Igreja. Os laicistas detestavam a Igreja enquanto veículo da revelação divina e organização dirigida pelo Papa. Mas apreciavam-na enquanto máquina para fomentar consenso na sociedade. De resto, mesmo os mais materialistas suspeitavam da aptidão de um Estado “sem espírito” para satisfazer todas as aspirações. Nunca foram só os cristãos a saber que nem só de pão vive o homem. Por isso, os jacobinos arranjaram um Culto do Ente Supremo, Auguste Comte inventou uma réplica “científica” do catolicismo, e até os bolchevistas tiveram a sua Comissão de Imortalização. Claro que é possível inventar cultos seculares. Mas haverá quem prefira, para o mesmo fim, uma Igreja politicamente correcta, disponível para actualizar constantemente a doutrina à luz das modas certificadas em Hollywood.

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3 thoughts on “O comovedor zelo dos indiferentes e dos ateus pela Igreja Católica

  1. Luís Lavoura

    Isto que o Rui Ramos aqui diz (com muita razão) sobre a Igreja Católica também poderia ser dito sobre os Estados Unidos da América. Em Portugal debate-se os assuntos dos EUA como se fôssemos todos cidadãos americanos.
    Inclusivé neste blogue.

  2. Só tretas.

    A origem da preocupação dos ateus com a igreja é que a igreja não tenta impor os seus dogmas apenas aos crentes, mas a toda a gente.

    Assim, por exemplo, tenta usar o estado para impor legislação restritiva á procriação assistida, ao casamento gay, à educação sexual, etc, não apenas aos 30% de católicos praticantes, mas também aos 70% que não têm nada a ver com aquilo.

    Aliás, durante mais de mil anos a igreja usou o estado para matar quem não acreditasse em todos os seus mitos e dogmas.

    É engraçado ver estes “liberais” a defenderem um sistema burocrático que tenta subjugar todas as facetas da vida humana, mesmo as mais íntimas.

  3. Uma das coisas mais comovedoras na igreja católica, é o zelo pelo o que se passa no “quarto” de cada um. Não são casados e (supostamente) não fornicam, mas ei-los sempre cheios de opiniões sobre o que devia ser o casamento ou o que cada um faz com o corpo.

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