Coisas raras, muito raras, raríssimas até

Em 1984 li este fenomenal artigo do Vasco Pulido Valente e nunca mais me esqueci. A propósito da indignação du jour ocorreu-me e reencontrei-o publicado pela Margarida Bentes Penedo no Gremlin Literário. Até o ano é muito bom, como me fez notar alguém no facebook, parece que tudo o que tem 1984 no título é encarado como um manual. Se era assim há 33 anos, imagine-se o que anda por aí em 2017. Se começam a escavar tudo o que aí anda financiado pelo Estado, quotas e doações, não sobra ninguém nem para amostra. A ler, o VPV em 1984:

«Um indivíduo está aborrecido com o emprego que tem, ou precisa de emprego ou ambiciona, por razões óbvias, ganhar mais. As coisas correm-lhe cada vez pior e as empresas privadas não o querem. Esclarecidamente, o indivíduo pensa no Estado, a que supõe o dever de lhe dar uma ocupação e proventos compatíveis. Não encontra nada ou o que encontra não o satisfaz.

Deste fracasso o indivíduo retira a conclusão de que o Estado não cumpre cabalmente as suas funções. Os seus enormes talentos merecem com certeza ser usados e seriam com certeza usados por um Estado que se prezasse. O indivíduo concebe então o plano simples de conseguir que o Estado reconheça a sua utilidade. Procura dentro de si sinais de distinção. Depressa se descobre uma especialidade, um amor, uma causa. Digamos, por exemplo, a casa portuguesa.

A casa portuguesa típica, que lhe despertou sempre surtos de paixão, desaparece lentamente da paisagem. As câmaras não a protegam; a Fundação Gulbenkian ignora-a; o público despreza-a. A preservação da casa portuguesa constitui um interesse social, digno da atenção do Estado. Aliás, todos os interesses sociais são dignos da atenção do Estado. O indivíduo decide, portanto, persuadir o Estado a encarregá-lo de preservar a casa portuguesa, tão ameaçada pela incúria, por autarcas néscios e pelos emigrantes.

Convoca três amigos: dois arquitectos e um autoproclamado sociólogo, como ele convencidos da sua importância e carentes de uns dinheiros. Os quatro põem-se em campo. Trata-se de obter acesso a um ministro ou a um secretário de Estado, através de relações pessoais ou de influências partidárias. O ideal é escolhê-lo num departamento com objectivos tão etéreos e brumosos como a própria preservação da casa portuguesa: a Cultura, a Qualidade de Vida, a Família, o Ordenamento Territorial, a Paz nas Consciências. Em rigor, qualquer serve, mas estes apreciam em particular os projectos fantásticos.

Imaginemos que o indivíduo e os três amigos se apoderam do ministro da Cultura. Tal ministro, principalmente se, como com frequência sucede, é analfabeto ou quase, jamais se atreverá a manifestar indiferença seja pelo que for que se lhe apresente como Cultura (com C grande). No “Botequim”, Natália Correia vela. A esperteza reside em que tudo lhe pode ser apresentado como Cultura, até Natália Correia e a preservação da casa portuguesa. Intimidado, aflito, prevendo críticas devastadoras à sua relutância em preservar a casa portuguesa, o ministro rende-se. Discretamente, e supondo assim desembaraçar-se do sarilho, nomeia por despacho uma Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa, com o indivíduo e os três amigos, que passam a receber a remuneração mensal de cento e cinquenta contos, para o chefe, e cem cada, para os comparsas.

Ganhou-se a primeira batalha. O indivíduo adquiriu uma posição oficial. O próximo passo consiste em montar um cerco ao gabinete do ministro para lhe subtrair “espaço”, isto é instalações. Como preservar a casa portuguesa nos corredores ou nos cafés? Sem telefones? Sem um sítio para guardar os papéis e atender pessoas? Os argumentos parecem racionais, a reivindicação justa. Comprometido no princípio, o ministro volta a render-se. A Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa instala-se em duas assoalhadas, num canto obscuro do ministério.

Daí reclama telefones, um contínuo (para recados), uma escriturária-dactilógrafa e um técnico de terceira, destacados de outros serviços ou contratados de fresco entre familiares indigentes. Como recusar pedidos tão lógicos e triviais? Existe a Comissão, existem duas assoalhadas: o resto segue-se. O trabalho vai, enfim, começar a sério.

A Comissão produz, após esforços esplêndidos, um documento de dezassete páginas, com título de: “A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural”. Forte de semelhante obra, entra na matéria. Pouco a pouco, estende os seus tentáculos. Ocorre-lhe desde logo que os seus objectivos são intradepartamentais. A casa portuguesa também é da responsabilidade dos ministérios das Obras Públicas e Habitação, da Qualidade de Vida e dos Assuntos Sociais. A Comissão exige, por consequência, que se forme uma subcomissão com “representantes qualificados dessas áreas”, e que se lhe atribuam os respectivos subsídios. Requisita, evidentemente, um carro para as tarefas de coordenação (e para ir a Sintra aos domingos). Mas não se esquece nem das autarquias nem dos emigrantes. Cheios de zelo, os seus membros partem para a província, enquanto o chefe, com mais majestade, “se desloca” às colónias portuguesas no estrangeiro, com o objectivo de esclarecer os emigrantes sobre as vantagens de “manter o perfil” das nossas queridas aldeias.

Entretanto, o chefe já informou o ministro da impossibilidade física de prosseguir estas enérgicas actividades em duas meras assoalhadas. Em luta dura com várias direcções gerais, institutos e gabinetes, a Comissão acaba por conquistar mais cinco e aumenta o seu pessoal de sete para vinte e sete. Chegou a altura de se ocupar da decisiva questão dos “contactos internacionais”. A inutilidade notória do exercício assegura que a Comissão brilhará. No Conselho da Europa, na UNESCO, em viagens diplomáticas à Assíria e ao Daomé, o chefe e os sócios discutirão moções, aprovarão recomendações, estudarão acordos de intercâmbio, comerão jantares e tirarão retratos. O mundo ficará sabendo que Portugal, país civilizado, se preocupa com a preservação da casa portuguesa. O orçamento da Comissão subiu de três mil contos por ano para cinquenta mil, o que a torna uma coisa digna de respeito e, pelo menos, de uma condecoração da Embaixada Francesa.

A Comissão, porém, é precária. Não tem lei orgância e não tem quadro. Acima de tudo não tem quadro. Os seus membros e empregados vivem no risco de despedimento, o que compreensivelmente os perturba, impedindo-os de trabalhar como gostariam. Para eles, os seus inestimáveis serviços justificam, mais, clamam, que lhes seja concedida segurança e aposentadoria. O ministro da Cultura entende esta angústia, porque aprecia que os seus subordinados o estimem. O ministro das Finanças, que não entra no ministério da Cultura, não se comove tanto. Mas é-lhe explicado o alcance da preservação da casa portuguesa, a sua indispensabilidade, o prestígio que a Comissão adquiriu em Bogotá e em Munique, e ele contrariadamente cede.

A Comissão transforma-se, deste modo, em Instituto para a Preservação da Casa Portuguesa, com um quadro de oitenta lugares, sendo cinquenta instantaneamente preenchidos. Muda de instalações, recruta telefonistas, motoristas, contínuos, técnicos, conselheiros, assessores. Gasta agora duzentos mil contos. O chefe inscreve-se no PSD e fala-se discretamente dele para secretário de Estado, em parte por causa de um livro de excessivo mérito chamado “A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural”.

A moral da história é a seguinte: se amanhã desaparecessem duzentos mil funcionários públicos, ninguém, excepto os próprios, daria por nada. Ou daria – daria porque pagava metade dos impostos.»

Vasco Pulido Valente

(Diário de Notícias, 5 de Fevereiro de 1984)

 

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13 thoughts on “Coisas raras, muito raras, raríssimas até

  1. Alberto Mendes

    Nao sei porque carga de àgua ao ler isto lembrei-me do Rui Tavares do livre Unipessoal da luta para se pedir desculpa pela escravatura…

  2. Euro2cent

    Uma peça de antologia. Ainda outro dia referi vagamente a este texto, mas é sempre boa ter a citação completa.

    Só tem graça que o VPV não entenda que é o seu próprio nojo ao “atraso atávico” que impele o progresso por estes delírios. Porque têm todos medo de serem acusados de serem contra o progresso e a cultura. Cruzes, canhoto, arrenego.

  3. QUE RARIDADE
    Giló do “Roque Santeiro” revisitado. Agora temos o nosso coscuvilheiro ao vivo que de tão parecido com as cenas do ator até o Fernando que vai a todas foi destronado no caudal das aparições. Ou como um saudável modo de rir dá lugar a tal contaminador veneno.

  4. O senhor acha mesmo que não se excede nessa coisa de comparar a (excelente) caricatura para a qual remete no seu texto com uma IPSS, já que em outra coisa não é possível pensar quando fala em “indignação du jour” ? (e já agora: acha mesmo que é só isso que está em causa, uma porcaria de uma “indignação du jour”, uma francesice de tias?)
    Estou absolutamente seguro que o mais humilde dos homens, por exemplo, um pastor na aldeia mais remota diria imediatamente que sim, se ao comprar um pão se importaria de pagar por ele um pouco, muito pouco mais para ajudar alguém fisicamente inibido de levar uma colher à boca. Evidentemente, o senhor tem a felicidade de não ter um filho nessas circunstâncias. E ainda bem. Para o pastor do meu exemplo e para qualquer pessoa normal. E isso inspira-lhe a grosseria sem que se lhe possa desculpar a preguiça dos neurónios.
    Confrontado com a anormalidade da sua comparação pergunto-me o que o senhor proporia para lidar com aqueles que entre nós – pessoas como nós – são física ou mentalmente incapazes de cuidar de si mesmas. Atiram-se da beira de um penhasco e seguimos com a nossa vida? “Ideologicamente” parece-me que esta solução não lhe serve; não é “de direita”, é pecado e a eutanásia é coisa mais “de esquerda”.
    O que sobra então às famílias destas pessoas (as que a têm) quando precisam de ajuda? E precisam de ajuda, o senhor manifestamente não sabe, mas eu estou em condições de lhe assegurar que precisam. O que devem fazer? Levá-las ao colo para a frente de uma igreja, expor-lhes as deformidades, as pústulas, a baba e colocar-lhes uma lata em frente?
    Não se preocupe em responder. A pergunta é retórica. E o senhor é um anormal.

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