Questões em aberto na Macroeconomia moderna

Há uma série de questões de investigação na área da Macroeconomia, em particular da Política Monetária e da Moeda, que me deixam sobejamente curioso. A primeira tem que ver com a forma como a inflação é medida. A forma mais usual é usar um índice de preços do consumidor (geralmente a versão harmonizada, o HICP). Isto ignora por completo as variações dos preços dos activos financeiros, o que não é de todo despiciendo, especialmente quando NASDAQ e S&P500 sobem 20% yoy, e os preços do imobiliário estão também em forte ascensão. Tudo isto pode ter um impacto muito grande na condução da política monetária por parte dos bancos centrais. Há argumentos interessantes de ambos os lados. Por um lado, faz sentido não incluir activos, se por inflação entendermos variações da unidade de conta (o que leva a variações absolutas nos preços nominais, isto é, no nível de preços), e não variação dos preços relativos. Neste segundo caso, um bem fica mais caro em relação a outro, o que não significa necessariamente que seja por efeito da alteração da unidade de conta (pode ser porque a procura por aquele bem aumentou consideravelmente; vide aumento do preço do imobiliário em Portugal). A questão é se as autoridades monetárias devem ou não estar atentas a estas variações. A criação de sistemas macroprudenciais que monitorizem estas apreciações nos preços dos activos indica que sim, mas isto depois não é plasmado nos objectivos dos bancos centrais (desconheço uma regra de Taylor que considere preço dos activos).

A segunda questão é bem mais interessante. Qual o impacto das cryptocurrencies no mercado das moedas, no mercado interbancário, e como isso interferirá na condução da política monetária e fiscal. As cryptos criam, antes de mais, concorrência no mercado das moedas. Se por um lado era caro e pouco prático ter uma conta em USD ou em CHF, as cryptos tornam tudo isso obsoleto. Ainda mais quando começam a surgir startups que permitem usar meios de pagamento tradicionais (Visa e Mastercard) para pagar com cryptos (TenZ, Monaco). Isto tem várias implicações. A primeira é que as pessoas já não dependem de bancos para depositarem os seus bens nem para pedirem crédito, o que quebra por completo o canal de transmissão de política monetária. Os bancos centrais são (mais ou menos) eficazes porque conseguem afectar a taxa de juro no mercado interbancário. Ora, tal deixa de acontecer. Segundo, os bail ins criaram um moral hazard grave: em caso de crise, a probabilidade de um bank run aumentou. Se dantes levantar o dinheiro e guardá-lo em casa era impraticável (embora tal tenha acontecido na Grécia), em meia dúzia de cliques pode comprar uma cryptocurrency e usá-la em qualquer lugar do mundo. Se a procura por moeda cai, estaremos permanentemente na ZLB.

Enfim, questões interessantes a analisar. Davam um belo PhD.

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14 thoughts on “Questões em aberto na Macroeconomia moderna

  1. Por enquanto não chamaria criptomoedas a algumas coisas que aí andam, a começar pelo Bitcoin. Criptocommodities, talvez.
    Como moeda, sem regulação, e com a volatilidade actual, é impracticável. Note-se que um mesmo número de bitcoins, numa semana pode comprar um Bugatti, na seguinte um Fiat 600, e na seguinte dois Bugattis.
    Se nenhum comerciante aceita que lhe paguem uma camisa com acções – que são apesar de tudo menos voláteis – como vai aceitar bitcoins? Eu não aceitava.

  2. AB, é verdade que o BTC não permite estabilidade de preços, especialmente pelo facto da oferta ser relativamente fixa, pelo que se a procura oscilar o seu preço vai naturalmente variar. Mas isso não implica que não possa ser usada ou como digital gold, ou como meio de pagamento, especialmente no e-commerce, em que não existem sticky prices, pois o preço face ao dólar ou ao euro pode ser ajustado automaticamente.

  3. Inflação não é o aumento de um cabaz de preços controlados pelo estado. Inflação é o aumento de quantidade de moeda em circulação é isso inclui notas e depósitos.
    As criptomoedas vão a prazo substituir as moedas controladas pelos estados/bancoscentrais. O poder dos estados sobre os governados está a chegar ao fim.

  4. Caros Carlos Saraiva da Rocha, inflação só ocorre se a quantidade de moeda em circulação causar um aumento no índice de preços. No limite, o aumento do stock nominal de moeda pode ainda não ter ocorrido, e ocorrer uma subida generalizada nos preços, caso os agentes esperem que vá haver inflação. Ou seja, mais do que os agregados monetários, contam as expectativas de inflação.

  5. lucklucky

    Também não se contou, ou contou mal a inflação a quando da bolha do crédito.

    Bolhas que os estados criam para conseguirem aumentar os seus gastos num contexto em que a eficiência do capitalismo baixa o preço dos produtos.
    Por isso depois da bolha do crédito temos a bolha dos “assets”.

  6. AB

    Caro M. A. Lopes, você trocaria, hoje, 10 000€ por uma Bitcoin?
    E se comprar um dvd na Amazon por 10€, como lhe fazem o troco em Bitcoins?
    É mais parecido com ir comprar uma carcassa com uma barra de ouro – não é uma moeda.

  7. Uma boa questão para phd (creio eu – a parte académica/investigação não é algo em que eu esteja a par) seria fazer um estudo imparcial (ao invés do natural enviesamento da generalidade dos estudantes de economia das últimas décadas em favor da teoria neoclássica) sobre a razão para as crescentes desigualdades e sobre qual a melhor forma de as atenuar: se são provocadas pelos governos/bancos centrais (via introdução de regulamentação excessiva nos mercados, o que prejudica o pequeno empreendedor e beneficia as grandes empresas/quem tem mais capital para investir, ou via política monetária excessivamente expansionista, que faz com que um pequeno punhado de pessoas se torne mais rica via investimento em ativos financeiros, em contraponto com os mais pobres, que optam, erradamente, por mais consumo), que as tentam atenuar via política fiscal, ou se o mito do “capitalismo a definhar” se confirma – o que não é certamente o caso, para mim.

    Quanto ao que o Carlos Saraiva da Rocha referiu, creio que se fez uma confusão, ignorando a distinção que há entre inflação monetária (aquela que o Carlos referiu) e inflação de preços (a que o Mário Amorim Lopes mencionou).

  8. lucklucky

    Mas quais desigualdades? nunca na história passada um pobre pode ter o que um rico não podia 10-20 anos atrás. Hoje pode em muitas coisas.

  9. Luís Lavoura

    era caro e pouco prático ter uma conta em USD ou em CHF

    Como assim? Não custa absolutamente nada ter uma conta em moeda estrangeira. Por motivos óbvios – os bancos sabem que são contas para investimento, logo, que não terão custos com elas, só cobrarão comissões sobre os investimentos.

  10. Luís Lavoura

    Já há muitos anos que, no rescaldo da crise financeira de 2008, diversos economistas defenderam que era importante os Bancos Centrais começarem a medir a “inflação” do preço dos ativos. Um exemplo foi George Cooper, no seu livro sobre a crise. Portanto, aquilo que o MAL está aqui a sugerir não é propriamente uma novidade.

  11. Luís Lavoura

    Davam um belo PhD.

    É digno de louvor que o MAL já se esteja a preparar para a sua agregação, na qual terá que, precisamente, apresentar uma proposta de tema de investigação para doutoramento.

    Entretanto, sobre as criptomoedas, temo que, dada a sua volatilidade extrema, quando o PhD estiver concluído, daqui a três anos, já seja irrelevante, porque o valor das criptomoedas pode ter crashado e elas terem passado de moda…

  12. Essa também era uma boa questão, Hélder.

    Quanto a inflação, não há confusão alguma. Inflação é um fenómeno apenas: é a alteração da unidade de conta, que afecta o valor real de todos os bens; se se dá um aumento de um conjunto de preços em particular (por exemplo de uma moeda, do petróleo, de activos financeiros), isso não é inflação: simplesmente o preço relativo daquele bem aumentou (seja por que motivo for).

  13. Está a acontecer o que aconteceu na pré-crise 2008. Em economias estabilizadas a eficiencia tecnológica impede qualquer inflação dos bens de consumo. Sem eventos catastróficos (sanitários, guerras, tumultos…), há capacidade de resposta suficiente para qualquer aumento de procura. Isso adormece os Bancos Centrais e inflaciona Bolsas de acções e activos imobiliários. Quando acordam a casa já está em chamas.

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