Sobre o fim anunciado do ensino vocacional

O triste fim anunciado do ensino vocacional. Por Inês Gregório.

(…) a erradicação dos cursos vocacionais contribui para perpetuar o desprestígio social relativamente a esta via de ensino. Uma imagem negativa que se reflecte principalmente na ideia de que estes cursos se destinam apenas aos menos capazes, àqueles que não conseguem ter aproveitamento nas vias académicas de ensino. Um estigma que penaliza duramente quem mais precisa: os alunos com mais dificuldades no sistema actual e os provenientes de contextos sociais menos favorecidos, que são deixados para trás por um ensino que não os acompanha e que não acomoda as suas motivações e necessidades particulares.

Uma discussão séria e alargada sobre a estruturação de percursos de ensino com formação de natureza profissional, nomeadamente no que diz respeito a questões éticas mais sensíveis como o momento de introdução desta diferenciação ou o regresso a percursos de natureza académica, é bem-vinda em qualquer momento. Já a eliminação em absoluto dos cursos vocacionais (e a sua substituição por uma opção que se revelou pouco estruturada e incapaz de responder aos desafios do elevado abandono escolar e da falta de qualificação dos jovens portugueses) parece ser uma opção meramente ideológica e baseada num preconceito intelectual que vai contra a generalidade das recomendações das instituições internacionais e contra as melhores práticas de outros países da União Europeia.

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11 thoughts on “Sobre o fim anunciado do ensino vocacional

  1. Pelo que eu percebo, o problema dos cursos vocacionais era que não eram carne nem peixe – nem eram suficientemente práticos como os CEF (que, esses sim, serão o equivalente aos cursos profissionais dos outros países europeus, enquanto aos cursos vocacionais não era reconhecida a equivalência), nem suficientemente teóricos como os cursos da “via de ensino” (ou lá como se chamam agora).

  2. Luís Lavoura

    ignorando que os jovens têm motivações e maturidades distintas em momentos diferentes do seu percurso académico e acabando por prejudicá-los

    Pois o problema pode estar em grande parte na maturidade dos jovens. Um aluno que tem más notas com 14 anos de idade pode tê-las apenas devido a falta de maturidade e à instabilidade emocional própria da adolescência. Dizer que com essa idade o melhor é chutar esse aluno para um curso vocacional pode ser um disparate.

  3. Eu só acreditaria a sério em afastar o “estigma” do ensino profissional se algum governo fizesse uma regra dizendo que quem chumbasse dois anos no ensino profissional seria transferido obrigatoriamente para a “via de ensino” (“esta aluno é um incapaz que nunca será um bom mecânico ou cozinheiro, portanto a única maneira de ele escapar a um percurso de insucesso escolar e exclusão social é tornar-se advogado ou economista, porque é a única coisa em que ele ainda poderá ter algum jeito”) – porque a regra oposta (a que vigorou algum tempo, de transferir automaticamente para o ensino profissional os alunos com insucesso na via de ensino) está implicitamente a apresentar o ensino profissional como uma segunda escolha.

  4. Uma decisão que retrata na perfeição a mentalidade de todo um povo.
    E ainda nos afadigamos na busca das causa do nosso inapelável atraso…

  5. Holonist

    Em compensacao tirou um de escriturario… Se vao falar do que nao sabem, ao menos inventem mitos novos, sempre torna as coisas mais divertidas.

  6. “provenientes de contextos sociais menos favorecidos, que são deixados para trás por um ensino que não os acompanha e que não acomoda as suas motivações e necessidades particulares.”

    não há “burros” ricos???

  7. O negacionismo é a base ideológica do abrilesco ensino.

    Invoca-se a luta de classes mas nega-se-lhes a existência negando-lhes as consequências mais óbvias.
    Quando reconhecer essas consequências é sem dúvida matéria que exige avaliações fundadas e rigor que não exclua a reversão.
    Tudo mais é treta esquerdalha.

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