Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

A minha crónica hoje no i.

Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao cumprimento do mandato que assumi e nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato.” Marcelo Rebelo de Sousa, em 17 de outubro de 2017, ao finalizar o seu discurso em Oliveira do Hospital.

É importante relembrar estas palavras do Presidente da República porque marcam um ponto de viragem no seu mandato.

Até então, Marcelo andava sempre junto a Costa, apoiava o governo, alinhava, embora com as reservas normais numa pessoa minimamente inteligente e sensata, no optimismo dos socialistas. Marcelo ria, sorria, falava, gesticulava, tornara-se um homem fútil, um Presidente supérfluo que não fazia contraponto ao governo, mas à oposição. Alegre, jovial, folgava os bons tempos com que os bons ventos vindos do exterior bafejavam o seu mandato. Marcelo desfrutava ao mesmo tempo que rebaixava Passos, troçando do seu azar.

Mas depois Passos saiu, a tragédia instalou-se e Marcelo, qual verdadeiro animal político, mudou. Ele sabe que a felicidade da primeira parte do seu mandato não tem bases para se manter e que tudo se esboroará sem que se perceba bem como. É para esse tempo que Marcelo se prepara. Assim, enquanto Costa e Medina se abraçavam na abertura da Web Summit, quais crianças felizes e contentes, Marcelo visitava os sem-abrigo. Porque Marcelo já não tagarela; ainda sorri, mas de um jeito triste, e já não se ri por tudo e por nada. Marcelo deixou de querer estar na roda e já não dança. Mudou porque as circunstâncias mudaram. Tornou-se sério e passou a ser levado a sério.

O problema, no entanto, é que a ação de Marcelo não vai resolver problema nenhum. O país continua a endividar-se, e o Estado sequestrado por interesses vários; não há reformas que reduzam a despesa pública, nem Marcelo, mesmo que a isso estivesse disposto, podia fazer o que quer que fosse. Desta forma, caminhamos para o pior dos cenários numa democracia: um Estado endividado, preso por variadíssimos interesses que vão das empresas dependentes dos decisores políticos aos sindicatos que precisam de mostrar serviço, passando pelas fundações e demais entidades públicas. Com uma classe política desacreditada e um Presidente generoso, popular, mas totalmente incapaz de propor as mudanças que são indispensáveis, temo que muitos dos que hoje culpam a liberdade económica por todos os males do mundo acabem por apontar o dedo também ao liberalismo político. Marcelo mudou, mas a mudança serve-nos de alguma coisa?

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2 thoughts on “Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

  1. Decifremos esta linguagem do império

    Estado sequestrado por interesses vários; não há reformas que reduzam a despesa pública, nem Marcelo, mesmo que a isso estivesse disposto, podia fazer o qu……

    Interesses vários – O pensionista de 253 euros , a operária têxtil que vai ganhar o salário mínimo.

    Reformas — privatizar a segurança social, despedir médicos, professores, enfermeiros do sector público , liberalizar os despedimentos , acabar com subsídio desemprego, acabar com os sindicatos. Etc

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