Da ditadura do politicamente correto

Um país com a riqueza patrimonial de Portugal deve, na minha opinião, colocar os seus monumentos nacionais ao serviço dos agentes económicos, para que estes os rentabilizem, desonerando os contribuintes dos elevados custos de manutenção dos mesmos. Acresce que a riqueza dos nossos edifícios são um fator diferenciador de atração de Portugal ou dos países que, à nossa semelhança, souberam ao longo de séculos ocupar um lugar especial na História. A utilização dos espaços públicos para fins privados deve ser feita, obviamente, com regras e normalidade, e a lei aprovada em 2014 introduziu, precisamente, esse sentido de equilíbrio de permitir que, caso a caso, fosse definida a adequação do uso dos monumentos. A lei de 2014 não veio propriamente permitir a utilização privada dos espaços públicos, mas introduzir regras numa prática que já existia anteriormente, num ambiente, pelo que percebi, de alguma opacidade normativa – uma vez que antes de 2014 já era prática corrente em alguns monumentos realizar atividades diversas de natureza festiva ou cultural sem que preços, e cadeias de aprovações, estivessem devidamente previstas. Estranho? Não. Até os franceses, que não passam por dificuldades financeiras, e têm os seus monumentos entre os mais bem mantidos do mundo, rentabilizam o seu património, com grande extensão, como aliás poderão ver aqui, na página do Palácio de Versailles dedicado às “private functions.

O que é assustador nesta historieta toda é pensar como os nossos responsáveis (?) políticos vivem ao sabor dos caprichos das redes sociais, que verdadeiramente definem a agenda, o debate – e, mais grave, a ação política. Foi isso que assistimos aquando dos incêndios de Pedrógão. Ou no caso do Urban Beach, discoteca conhecida pelos seus constantes desacatos. Ou no famoso livrinho para-meninos-e-meninas da Porto Editora. Basta alguém indignar-se, incendiar as redes sociais, e tornar o assunto viral, para que as pernas dos nossos governantes tremam que nem as dos banqueiros alemães. Ao bom estilo Twitter Trump, António Costa rapidamente alinhou com a turba cega,  culpando os seus antecessores, numa lógica Lucky Luke, em que o passa-culpas é disparado twittado mais rápido que a própria sombra. Pelo caminho, fica uma sensação que a decisão não é ponderada, não é pensada, e não merece o tempo de amadurecimento normal nestas situações. O importante é o goofy manter o equilíbrio em cima da prancha, backside e a disparar para a direita, adiando a arrebentação. Pedrógão, Tancos, Porto Editora, Urban Beach, Legionnella, Panteão. Vamos então surfando na onda, até que ela arrebente. O mar, esse, tem andado agitado, e promete.

 

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15 thoughts on “Da ditadura do politicamente correto

  1. É isto. Se a guincharia das redes sociais tivesse começado no sentido “Paddy arrasa burocrata que impede jantar de trendsetters e tastemakers no Panteão”, a esta hora estava o Dr. Costa lá a servir cha… croquetes. E é assim que andamos.

  2. JP-A

    Do pobre coitado não se pode dizer que é uma espécie de vinho a martelo da política nacional porque de há muitos anos que já se lhe conhece a etiqueta e a etiqueta é sempre a mesma:

    «Costa diz que SMS de campanha em dia de eleições foi “um lapso”»

    «O escritor António Lobo Antunes foi incluído “por lapso” na comissão de honra da lista “Unir Lisboa”, encabeçada por António Costa, reconheceu hoje fonte da candidatura.»

    «…um cartaz de propaganda eleitoral do PS, com a cara do candidato socialista à Câmara de Lisboa, António Costa. Em declarações à agência Lusa, Miguel Coelho assumiu que o outdoor, “de pequenas dimensões”, foi colocado pela empresa que trabalha para o PS no Terreiro do paço “por lapso” e que só esteve ali três dias, tendo sido já retirado.»

    Curioso é que quando o lapso não foi mesmo dele, ele pediu desculpa:

    «Estou certo que resultou de um lapso involuntário de quem embainhou a bandeira e de que não demos conta de imediato. Em qualquer caso, cumpre-me assumir as responsabilidades pelo ocorrido, e expressar-lhe quanto lamento o incómodo causado a V. Exa., que foi totalmente alheio ao erro cometido», acrescenta o presidente da autarquia de Lisboa.»

    Não admira que a seita tenha “destravestido” o Público, como diria o aldrabão-mor e querida referência sintomática, cujo legado está noutro lado graças ao auto-proclamado “partido fundador da democracia” que esteve prestes a ter a informação do país na mão sem que ninguém fora de Aveiro desse conta disso, nem sequer dentro do Conselho de Ministros:

    http://observador.pt/videos/programa-comentarios/a-falta-de-vergonha-de-antonio-costa-no-caso-do-jantar-no-panteao/

  3. Luís Lavoura

    Concordo plenamente com este post.
    E até vou mais longe: quem quer que seja deve poder usar o Panteão Nacional para lá fazer as festas que quiser, desde que pague e que seja minimamente idóneo (e se responsabilize pelos eventuais estragos, eventualmente depositando uma caução). Não deve estar sujeito a autorização casuística e discriminatória – todos devem ter direito. É assim que deve ser numa sociedade livre, aberta e transparente.

  4. Stalenin

    Este “insurgente” nunca desilude!
    Mas sim, é isso mesmo. Deve ser dada oportunidade aos agentes económicos para rentabilizarem tudo quanto seja possível. Foi dentro desta lógica que o Convento de Cristo, em Tomar, foi parcialmente destruído durante as gravações de um filme. Será que os 172 mil euros que o Estado encaixou pagam os danos causados nos claustros?
    E se o Estado rentabilizar com a venda a privados, i. e. agentes económicos, de obras de arte e monumentos nacionais, devem ser-lhes entregues? Será que preferem ter um parque temático em vez do Mosteiro da Batalha? Não é isto que pedem os planfetários liberais e anarcocapitalistas que V.Exas veneram?

    STALENIN

  5. Mario Figueiredo

    Já eu, senti-me ofendido pela utilização abusiva do espaço. Mas nem vos passa pela cabeça a dificuldade que tenho tido em fazer ver a quem me acusa, que “ficar ofendido com utilização abusiva” não é o mesmo que defender que não se deve fazer utilização.

    O que é precisamente o que este governo se prepara para fazer ao revogar um despacho que está bem redigido. Mais gravoso ainda é o facto de ao que parece também se preparar para legislar de forma a impedir a utilização dos espaços culturais. Ou seja, seremos talvez o único país da Europa Ocidental onde não se alugam espaços culturais.

    Cumpra-se!
    E lembremos que o Anúncio Trivago também veio dizer, após António Costa anunciar o desejo de revogar o despacho, que concordava que se devia alterar a lei que permitia estas coisas acontecerem. Está tudo dito.

  6. Caro “Stalenin”,
    Os franceses, que estão longe de ter sido mordidos por vírus “planetários liberais e anarcocapitalistas”, permitem que no Palácio de Versailles se filme, festeje, e pasme-se, se realizem espetáculos equestres.
    Mas claro, é preferível ter tudo a cair, do que rentabilizar os edifícios com normalidade. Folgo é em saber que a forma de V. Exa. resolver os problemas é proibindo. Por isso, e como há acidentes na estrada, por excesso de velocidade e álcool, porque não proibir a circulação automóvel? Assim tudo se resolvia, como parece ser a sua receita face aos incidentes de Tomar, e ao eventual mau uso do Panteão por ocasião do Web Summit: proíbe-se, e está resolvido.
    Em qualquer caso, a solução parece-me nem em linha com a apologia estalinista – há problema? Corta a direito!

  7. Oscar Maximo

    Eu também já me senti ofendido pela utilização abusiva do espaço. Por exemplo, as linhas escritas pelo STALENIM

  8. Euro2cent

    Se calhar, devia haver uma autoridade gerida por pessoas com experiência de vida, que filtrasse a passagem de informação para os grandes meios públicos.

    Podia-se chamar, por exemplo, “Exame Prévio”.

    Deveria ter efeitos benéficos na saúde pública, evitando os ataques de nervos que tanto custam ao estado em receitas de calmantes.

  9. Mario Figueiredo

    Acalmaria também os indignados pela indignação dos outros?

    Acabei de ver à poucos minutos o 360 na RTP3. Num dos momentos mais surreais da televisão Portuguesa, assisti ao Ângelo Correia e levantar a voz (e levantou mesmo!) tal a sua indignação com os indignados, mas acima de tudo a proferir a sua imensa indignação pelo facto… está sentado?… que em Portugal toda a gente está sempre à procura de culpados.

    Este gajos vivem numa bolha só deles. Estão completamente alheados do povo e da vivência do cidadão comum. Aquilo que que esse caduco ignorante do Ângelo Correia disse não deixa de ser a expressão máxima do pensamento político Português. Deviamos todos para de procurar culpados. Não interessa que este país nunca tenha visto culpados desde o 25 de Abril. Que até os poucos que o foram são hoje presidentes de câmara, Devemos é deixar os coitados em paz. Culpado é o povo por estar sempre a procurar culpados.

    Portanto dava realmente jeito essa autoridade para a sanidade que o Euro2Cent fala. Acalmava os indignados, os indignados pelos indignados, convidava o Ângelo Correia a voltar à casa de acolhimento, e ajudava-me a não explodir de raiva por estar a ver o meu país a ruir à minha frente.

  10. Pingback: Os populares | BLASFÉMIAS

  11. Os filisteus contra os descerebrados. Estamos quilhados. Que se usem monumentos classificados para ‘eventos’ adequados: concertos de música antiga ou erudita, conferências (não disse congressos), exposições históricas, etc. Mas nunca para palhaçadas, jantaradas de broeiros, parolices de maquinetas, pornochachadas e fitas que ponham em risco as obras de arte. Haver alguém que aqui defenda piras a arder nos claustros do Convento de Cristo não me admira. Isto é um país de brutos.

  12. Euro2cent

    > despedidas de solteiros nos Jerónimos

    Já existe, chama-se casamento.

    Ainda fazem uns quantos por ano, parece. Não tarda muito o Beauté mete-lhes um processo para ir lá fazer o dele com um novo rapazito.

  13. Comparar o Versailles com o Panteao é ousado. Os franceses TÊM dificuldades financeiras de que não se fala! Mas porque não autorizam festas no PANTEON NATIONAL deles em Paris? Não ha problema em utilizar Queluz como eles Versailles para eventos mas nunca vera nem eles nem ninguém alugar um símbolo tao importante da sua nacionalidade para festas.
    Só se faz por cá porque a republica portuguesa insiste em destruir Portugal !

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