Sobre o Maior Crescimento Da Década, Do Século, Do Milénio, Etc.

Abril de 2015. Os sábios economistas do PS apresentavam ao país o seu plano macro-económico. Este plano foi revisto em Agosto do mesmo ano, tendo nessa actualização os sábios economistas do PS aumentado as previsões de crescimento do PIB para 2018 (de 2,6% para 2,8%) e para 2019 (de 2,3% para 2,4%). Este plano serviu de base para toda a campanha eleitoral de António Costa e do PS.

O mesmo modelo altamente sofisticado do modelo macro-económico que previa que se criassem 466 empregos em 2019 como resultado das políticas de promoção do papel da lusofonia (ver pág. 24), previa num eventual governo PaF que o crescimento do PIB em 2016, 2017, 2018 e 2019 tivesse o valor de 1,7%. Em Excel, esta fórmula altamente sofisticada que é independente de qualquer conjuntura ou medida tem o nome de constante. Desde já, presto a minha homenagem a economistas tão ilustres capazes de realizar um modelo tão sofisticado: Mário Centeno (coordenador), Fernando Rocha Andrade, Sérgio Ávila, Manuel Caldeira Cabral, Vítor Escária, Elisa Ferreira, João Galamba, João Leão, João Nuno Mendes, Francisca Guedes de Oliveira, Paulo Trigo Pereira e José António Vieira da Silva.

É importante salientar que, a juntar a uma tendência da recuperação económica que já era claramente observada em 2015 (depois de um difícil período de ajustamento), o governo do PS e da Geringonça beneficiou ainda de uma conjuntura historicamente favorável, a saber:

  1. o crescimento generalizado das economias europeias, americanas e asiáticas (algo que por si só favorece as exportações e o investimento estrangeiro).
  2. taxas de juro extraordinariamente baixas, devido essencialmente ao programa de quantiative easing do Banco Central Europeu.
  3. crescimento do turismo, não só pelo aumento da quantidade e qualidade da oferta (para que muito contribuiram as companhias aéreas low cost), mas também pelo aumento da procura resultante do facto de outros destinos tradicionais se terem tornado muito pouco atractivos por motivos de segurança.
  4. queda do preço do barril de petróleo que reduz o défice da balança comercial e liberta recursos financeiros para serem aplicados em outras actividades económicas.

Assim, dada esta conjuntura extremamente favorável, seria de esperar que as previsões de crescimento do fabuloso plano macro-económico fosse não só cumprido, mas até excedido. Analisemos então, a credibilidade e o desempenho dos ilustres sábios economistas do PS, muitos deles que anunciam alto e bom som, o “maior crescimento da década/do século/do milénio“.

Da análise do gráfico (sendo que nos valores reais de crescimento para 2017 e 2018 são utilizados os valores que constam da proposta de orçamento de estado para 2018), constatamos os seguinte:

  • Em 2016, não só o crescimento do PIB ficou bem aquém das expectativas (1,4% real vs. 2,4% previsto no plano macro-económico do PS), como ficou abaixo do crescimento registado em 2015 (1,6%) pelo governo PSD-CDS e até do crescimento previsto pelo próprio PS para um governo PSD-CDS caso esta coligação estivesse à frente do governo em 2016 (1,7%).
  • Dos +0,7% em 2016 e + 1,4% em 2017 de crescimento do PIB prometidos em relação ao cenário base, registam-se -0,3% em 2016 e apenas +0,9% em 2017. No conjunto, dos +2,1% previstos nestes dois anos, registaram-se na realidade uns estonteantes +0,6% de crescimento face ao cenário base (esse mesmo que tem por base aquela fórmula sofisticada da constante).
  • Em nenhum dos anos considerados, se irá atingir o crescimento do PIB previsto no plano macro-económico. O valor mais próximo será atingido em 2017, que ainda assim, fica 0,5% abaixo do valor previsto em termos absolutos e cerca de 20% abaixo em termos relativos. De salientar ainda, que o Sr. Dr. Centeno na proposta de orçamento de estado para 2017 (efectuado na longínqua data de Outubro de 2016) previa um crescimento do PIB para 2017 de apenas 1,8% – de facto, o Sr. Dr. Centeno merece ser considerado o Ronaldo das Finanças.

Quando os caros leitores voltarem a ouvir sobre o maior crescimento da década/dp século/do milénionão deixem de aplaudir efusivamente o Sr. Dr. Mário Centeno e os sábios economistas do PS que foram capazes de realizar tal proeza.

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5 thoughts on “Sobre o Maior Crescimento Da Década, Do Século, Do Milénio, Etc.

  1. Quando o século tem 16 anos de existência é fácil encontrar uma míriade de factos aparentemente com 100 anos. Na realidade tudo depende de onde fica mais conveniente colocar o zero. Por exemplo os mortos por incêndios são os maiores NUM SÉCULO, não só NO SÉCULO.

  2. Mario Figueiredo

    Nem realmente interessa qual o crescimento em períodos favoráveis. As fragilidades do nosso país, essas estão todas lá e continuam o seu percurso de décadas de constante agravamento. Nada se fez no domínio das reformas para que Portugal possa começar a revelar dados de crescimento económico que lhe pertençam realmente e que não sejam antes o reflexo dos bons ventos que sopram noutros lugares.

    Continua-se em Portugal a governar à vista. E com o constante agravamento da nossa dependência externa e das nossas fragilidades, vamos repetir 2011 assim que a economia europeia deixar de nos estar favorável. A dívida cresce a olhos vistos. De tal forma que sabemos todos muito bem como os mercados reagirão ao nosso país quando a época for de contenção.

    Desejo que isto aconteça? De certa forma sim. Considero que mais uma ou outra grave crise económica com graves consequências para o país serão necessárias para quebrar com os maus hábitos deste estilo de (des)governação de toda uma nação. A que mais envergonha a Europa comunitária, a seguir à Grécia.

  3. O turismo tem ajudado, mas cuidado pois a tendencia podera ser para estabilizar o crescimento. A Monarch faliu e estava a apostar muito no mercado portugues; A Ryanair reduziu o numero de voos para Portugal; a tendencia nos proximos tempos e para um aumento do preco dos bilhetes nas companhias de baixo custo; enquanto nao houver acordo comercial com a UE que garanta ao Reino Unido acesso ao mercado unico e algum grau de livre circulacao a libra continuara a caminha para a paridade com o euro, o que significa menos turistas britanicos; o PP em Espanha quer uma abordagem mais agressiva em termos de marketing ou facilitacao de vistos para turistas com poder de compra extra comunitarios; os precos em Lisboa este Verao ja nao eram tao competitivos (um quarto de hostel para 9 pessoas quase a 35 euros, na Europa de Leste ha mais barato); e enquanto a Esquerda estiver no poder ha o risco de novas regulamentacoes e impostos que castrem o sector.

    Portugal continua ainda longe de ser uma marca bem estabelecida no mercado, ao contrario da vizinha Espanha. Continua a faltar marketing, os ingleses dizem-me que Portugal nao sabe vender e se tem mais turistas foi por um golpe de sorte: as operadoras desistiram temporariamente do Egipto, Turquia e Tunisia. E nao sabemos quanto tempo durara o nosso estado de graca…

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