Completamente sozinhas

O que mais me impressionou estes dias com a divulgação do desenrolar dos vários incêndios do fim-de-semana (e ao recordar os de Junho) não foi nem a área ardida nem aliás o número de mortos.

Ambos por si só impressionam, é certo (maior área ardida de sempre e «desde que há registos, nada se compara ao que se passou em Pedrógão Grande»), mas duvido muito que seja sério tirar grandes ilações da área ardida, p.ex. Há variações muito grandes de ano para ano e é até provável que muitas vezes deixar arder uma área – sem bens nem pessoas a proteger (“fires that are sparked in remote wilderness, where they aren’t hurting anyone, should be allowed to burn“) – dum determinado incêndio seja o melhor combate possível, pelo que parece que a área ardida pode depender muito mais de factores incontroláveis do que de factores controláveis.

O que me choca e salta à vista é que entre o enorme número de mortos haja tão poucos bombeiros (um apenas, salvo erro, este ano) e tantos mortos na estrada. Não estou, evidentemente, a colocar em causa o trabalho dos bombeiros ou a insinuar qualquer tipo de problemas com a sua competência ou dedicação. Nem duvido que sempre que presentes os bombeiros estão na primeira linha de fogo apenas com uma mangueira entre si e o fogo.

Mas é uma evidência: consultadas as notícias (não sei se há estatísticas consolidadas) salta à vista que – e isto é expectável – tipicamente as mortes ocorrem muito mais do lado de quem combate e está envolvido directamente com os incêndios do que do lado dos civis. Ora este ano a situação inverte-se de forma brutal: Em mais de 100 mortos só um é bombeiro.

Este facto é central na análise que se tem de fazer da tragédia dos incêndios deste ano. E ensaiando alguns cenários possíveis para qu neste ano tenha havido tantos mortos na esmagadora maioria civis – e tantos na estrada – há um que me parece mais evidente ainda que possa estar errado. E deixa-me transtornado e assustado.

É que não me parece que tão grande discrepância face a incêndios em anos passados possa ser culpa da meteorologia, dos eucaliptos ou de factores aleatórios. A impressão que tiro desta enorme diferença face a anos passados é que este ano (aquel)as populações foram abandonadas à sua sorte –  apanhadas pelo fogo, a tentar combater o fogo ou a fugir do fogo. Aquelas mais de cem pessoas morreram porque não tiveram nenhum apoio e estavam completamente sozinhas.

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23 thoughts on “Completamente sozinhas

  1. lucklucky

    Consequências do complexo Político-Jornalista de nível adolescente de esquerda.
    A prioridade total incluindo mental é quem vive em Lisboa e vota Esquerda.

    Veja lá se existiam algumas informações na rádio, tv sobre a tragédia que se estava a passar. Nada.
    Há recursos para vários canais da RDP e RTP para angariar votos para o sistema não há para informações sobre fogos.

  2. JP-A

    Quando a gente vê uma aldeia em pedrogão onde o habitante diz que uma semana depois a água ainda sai toda suja das torneira e não há distribuição nenhuma nem presença do Estado, está tudo dito sobre este sistema gerido numa sala de controlo.

  3. Tiro ao Alvo

    Para meditar, veja-se o que escreveu o jornalista Paulo Moura no facebook, a propósito dos recentes incêndios:
    “Passei a noite nas estradas entre Nelas, Viseu e Seia. Pude testemunhar o seguinte: não havia bombeiros em aldeias totalmente envoltas em chamas. Não havia rede de telemóvel num raio de centenas de quilómetros. Ninguém conseguia contactar com ninguém, incluindo a polícia e os bombeiros. A polícia dava informações erradas às pessoas, que as poderiam levar à morte”.

  4. JP-A

    Tiro ao Alvo,

    Testemunho da jornalista Andreia Novo (RTP) sobre o incêndio em Pedrogão Grande:

    “Sinto necessidade de vos contar o que eu e o Rui Castro vimos, sentimos. Saímos às 2h de Gaia, chegamos às 4h a Pedrogão. Os acessos estavam todos cortados. Percorremos centenas de kms e não havia sinal de bombeiros. As pessoas estavam todas na rua. Todas. Só depois das 5h é que conseguimos andar por estradas que ainda não estavam interditas, mas com fogo por todos os lados. Conseguimos passar. Às 6h começamos a encontrar os primeiros carros incendiados. Uns atrás dos outros. Desfeitos. 6h30, já com luz do dia, descobrimos umas aldeias no meio do fumo que cega de tão denso. Começam a surgir os corpos. Não consigo descrever bem, a partir daqui, o que aconteceu. Uns atrás dos outros. Famílias inteiras no chão, carbonizadas, e não dentro dos carros como alguns jornalistas têm avançado. Casas completamente destruídas pelas chamas. “São imensos menina, mas não podemos apanhá-los, não temos autorização” disse-me um bombeiro quando lhe perguntei pelos corpos. Falei com moradores de duas aldeias com cerca de 80/100 habitantes que já não diziam coisa, com coisa. Só falavam nas pessoas desaparecidas. “Isto é o inferno na terra, meu amor” disse-me uma idosa em lágrimas. Certo é que os bombeiros nunca lá foram até agora. Muitos dos que morreram são locais, fugiam de carro quando se despistaram, explodiram, ou simplesmente sufocaram. Nunca vi nada assim. E assim, só nós RTP captamos isto.”

    Não tinha falhado nada, diziam eles.

  5. Mario Figueiredo

    Michael, é difícil falar deste assunto com uma imagem tão espectacular e perigosamente bela junto do titulo. É também um engodo para incendiários.

    Sugeria humildemente que a substituísse.

  6. Euro2cent

    O desprezo pelos provincianos (vide Boliqueime) é pecha desta gentinha urbana progressista e iluminada

    Já vem desde os tempos dos ladrões e assassinos que massacraram a Vendeia francesa.

    Era boa ideia deixar de lhe dar cobertura porque é “o progresso”.

  7. Mario Figueiredo

    Caro Aónio Lourenço,

    Realmente entendeu bem que aquecimento global não é referido porque vai contra a linha ideológica de quem quer que seja que se decida a discutir tragédias destas pela realidade dos seus factos. E isso incluirá necessariamente defensores do Aquecimento Global que no entanto não se deixam levar por histórias da carochinha para explicar os incêndios e as vitimas deste ano.

    O gráfico que V. Exa. mostra até é engraçado, porque mostra pelo menos outros 7 anos em que tivemos temperaturas médias iguais ou superiores às deste ano, se V. Exa. achar digno referir uma diferença de 0.5 graus na temperatura média como sendo uma diferença negligente. Atente à escala amigo! Não apenas às curvas ascendentes. Se bem que perdoarei sempre um homem que atente as curvas.

    Mas mais importante. quando V. Exa. produzir prova de que o Aquecimento Global provocou ou contribuiu de alguma forma para que em 2017 se tenha verificado o desastre em vidas humanas que se verificou, então este blog seguramente fechará portas de imediato e sem anúncio. Para seu grande prazer.

    Mas até lá permita-me que lhe diga que não gosto de pessoas que atiram areia para os olhos de quem anda à procura dos responsáveis pelo maior caso de homicídio por negligência na história deste país. Quando 107 dos SEUS CIDADÃOS morreram às mãos de um estado irresponsável e negligente. Considero esse tipo de pessoas cúmplices no crime. Portanto, vá à bardamerda com o seu aquecimento global.

  8. AÓNIO LOURENÇO.

    Oh homem, aqui discute-se o que aconteceu , a forma como aconteceu, lamentar as perdas, lamber feridas e voltar a caminhar.

    Va dizer a um agricutor que perdeu tudo o que tinha que a culpa é dos gráficos martelados, mas vá lá, não fique em casa.

  9. André Miguel

    Já podemos começar a discutir a redução de impostos para o interior? Ou continuamos a pagar o mesmo que um lisboeta e não temos nem metade dos seus recursos? É que por mim quem foi abandonado tem todo o direito de praticar desobediência civil, nem mais um cêntimo em impostos devia pagar! Nada, zero!

  10. Aónio Lourenço

    @MARIO FIGUEIREDO
    Ser “defensor” do aquecimento global é como ser defensor do hidrogénio ou do heliocentrismo. O aquecimento global não é uma teoria, é um facto. Parece-me que tem capacidades científicas básicas as suficientes para saber destrinçar uma hipótese (teoria) de uma evidência (facto). O que é uma teoria, já devidamente alicerçada com milhares de trabalhados académicos, é que esse facto (o aquecimento global) se deve às emissões antropogénicas (a teoria).

    E sim, as variações médias são baixas, mas pequenas variações médias, têm normalmente impactos pontuais assinaláveis, como maiores períodos de seca prolongada, que foi um dos fatores principais neste último incêndio de outubro. Na Califórnia, com uma corporação de bombeiros altamente qualificada e profissional, morreram 50 pessoas nestas últimas semanas devido a fogos.

    E não é por evocar que são nossos concidadãos, que demonstra que tem mais compaixão por eles, do que eu. As tragédias não se evitam com lágrimas e lamentos; mas com ação, planeamento, estratégia, conhecimento e ciência, tudo aquilo que os boys do PS à frente da proteção civil não têm.

    Uma das medidas sugeridas pela comissão técnica independente:

    “Substituição progressiva, mas com implementação imediata, do atual sistema de nomeações das estruturas da Proteção Civil por sistema de concursos, com base na formação, nas competências, na experiência e no mérito, de acordo com os perfis definidos para as funções e submetendo-se às regras de seleção de dirigentes superiores previstas na administração pública.”

    @FILIPE COSTA
    Continue assim com o choradinho, que para o ano há mais para “martelar”!

  11. Não sei quem paga ao Aónio. O aquecimento global é metido a ferros porquê? Se pode favorecer condições para propagação de fogos? Pode, e teríamos o mesmo número de incêndios, mais graves. Mas não foi isso, houve 500 incêndios num dia, mais graves pela seca e temperaturas altas, mas não iniciados naturalmente.
    Depois temos a resposta aos incêndios, e as suas sucessivas falhas, que conduziram à morte de mais de cem pessoas. O aquecimento global não nomeou chefias incompetentes, nem desmontou o aparelho de combate aos incêndios. Não foi o aquecimento global que manteve em terra os C130 do exército, preparados para combate a incêndios e com pilotos formados para tal.
    Tudo o que levou a esta tragédia foram acções humanas irresponsáveis, incompetentes, talvez criminosas.
    Quanto aos seus gráficos, vá mais atrás, até mostrar o corte feito pela Geringonça nas verbas relativas aos incêndios. Só para se perceber o efeito do aquecimento global nessa decisão política.
    Aquilo que o Aónio chama idoneidade eu chamo mistificação. Você não é idóneo.

  12. Aónio Lourenço

    Incrível a capacidade de certas pessoas que perante o pensamento livre, este por certo só pode ter sido comprado. Pela n-ésima vez, eu não me desculpo na natureza para desculpar a incompetência. Apenas assinalo o gritante facciosismo político da direita ao fazer das alterações climáticas matéria tabu.

  13. Mario Figueiredo

    Aónio, ao contrário do que pensa, em Portugal não existe uma linha ideológica de direita que “faz das alterações climáticas matéria tabu”. Não projecte a política doméstica Norte-Americana cá no burgo, se faz favor. De malucos, já basta nós próprios.

    No entanto, Não se percebe ou entende como é que o Aóncio acusa este artigo de não fazer qualquer referência ao dito tema, quando nada do que aconteceu tem a ver com o Aquecimento Global — algo que você reconhece em pleno!

    Portanto, ou é um desses maluquinhos que vê Aquecimento Global até na menstruação feminina (história verdadeira!) ou anda a gozar com a malta fazendo acusações sem sentido. Já o desafiei para fazer tal demonstração da relação entre aquecimento global e os fogos de 2017, mas ainda estou à espera.

  14. Aónio Lourenço

    De facto, após uma pesquisa rude, descobri que de facto o Observador até tem uma rubrica sobre o tema, pelo qual está de parabéns.
    http://observador.pt/seccao/ciencia/ambiente-ciencia/clima/alteracoes-climaticas-clima/

    Permita-me o reparo

    Não se percebe ou entende como é que o Aónio acusa este artigo de não fazer qualquer referência ao dito tema, quando nada muito pouco do que aconteceu tem a ver com o Aquecimento Global — algo que você reconhece em pleno!

  15. Aónio, o aquecimento global, que não ponho em causa, só acontece em Portugal? Eu não sou Creacionista, mas não me atire com ciência para cima na tentativa de justificar o sucedido, aqui, neste país. Gosta de ciência? Faça um gráfico com áreas ardidas e vítimas mortais a nível europeu. Mostre o rácio de áreas ardidas por área total e de vítimas por área queimada, e depois vá dar banho ao cão. Portugal vai sempre ser uma anomalia, mas em 2017 é um exagero de anomalia. A sua ciência não vê isso?

  16. Aónio Lourenço

    Se tivesse lido o artigo que lhe enviei, escrito por um investigador da matéria, teria lido que a Península Ibérica está numa zona particularmente sensível por estar muito a sul e por estar sujeita a períodos de seca prolongados. Tal justifica mais de cem mortos? Não! Jamais! Mas a sua aversão à Ciência Geofísica e como o clima tem afetado a Vida das pessoas e a Economia, diz muito sobre o que certa direita pensa sobre as alterações climáticas.

  17. E a sua maneira de interpretar factos científicos diz muito sobre a sua noção de ciência. Infelizmente para si a ciência descreve a natureza como ela é e não como se acha que devia ser. Se você me disser que há uma relação causal entre o aquecimento global e a severidade dos incêndios, admito. Se quiser até admito que haja uma relação causal entre o aquecimento global e o número de ignições espontâneas – mas QUINHENTAS ingições espontâneas NUMA NOITE?
    E já agora, porque assume que sou de direita? Tem provas, ou é a mesma ciência que usa para dizer asneiras? Não sendo eu cientista, só consigo descrever a sua insistência em encontrar a razão errada como uma cortina de fumo para desviar as atenções da razão certa – FOGO POSTO.

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