“Na América, está em curso um vigoroso renascimento conservador-liberal”

Carta da América. Por João Carlos Espada.

Na América, está em curso um vigoroso renascimento conservador-liberal. Conseguirá a vaga conservadora em gestação na Europa acompanhar a linguagem liberal e anti-estatista da sua congénere americana?

Nas últimas duas semanas, fiz uma pitoresca viagem americana, com início na jovial Universidade de Anchorage, no Alasca, e término na vetusta Universidade de Harvard, em Cambridge, MA. Por um lado, nada de novo: a cada passo, encontrei a vibrante sociedade civil e empresarial que sempre distinguiu a América. Por outro lado, algo de muito novo: emerge dessa sociedade civil uma profunda reacção conservadora-liberal contra a engenharia social politicamente correcta.

Esta reacção apresenta traços que também se vislumbram na Europa: reafirmação do patriotismo, oposição à imigração descontrolada, reafirmação das diferenças entre os sexos, recusa do abaixamento de padrões culturais e morais. Por outro lado, estes traços, que poderiam ser designados como conservadores, surgem profundamente associados à reafirmação das tradições liberais americanas: redução da área de intervenção do estado, liberdade de expressão e de religião, prioridade às instituições espontâneas da sociedade civil, forte crítica às organizações burocráticas e ao despotismo das suas regulamentações inovadoras.

No final da viagem americana, dei comigo a sorrir com os meus botões. Apesar de tudo o que se diz sobre o fim do sonho americano, creio bem que ele está vivo e de boa saúde. Em nenhum lugar ouvi críticas à globalização ou ao comércio livre — apenas ao “despotismo burocrático”. Edmund Burke e Alexis de Tocqueville teriam reconhecido nesta “nova” América o mesmo espírito que conheceram no tempo deles: o indomável espírito de independência dos “pequenos pelotões”, ou das instituições intermédias espontâneas da sociedade civil — as famílias, as igrejas, as vizinhanças e outras instituições voluntárias não centralmente desenhadas.

Duas questões podem, no entanto, subsistir. A primeira diz respeito à América: conseguirá este renascimento conservador-liberal, que tem dado por todo o país esmagadoras vitórias eleitorais ao partido republicano, enquadrar o novo presidente — que achou oportuno concorrer e ser eleito pelos republicanos? A segunda diz respeito à Europa: conseguirá a vaga conservadora em gestação na Europa acompanhar a robusta linguagem liberal e anti-estatista da sua congénere americana?

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19 thoughts on ““Na América, está em curso um vigoroso renascimento conservador-liberal”

  1. Certamente anda desfazado da realidade entre círculos académicos e “intelectuais”.

    >Em nenhum lugar ouvi críticas à globalização ou ao comércio livre

    Como concilia isto com Trump ganhar a presidência com uma mensagem anti-globalização e de renegociação de diversos tratados de comércio livre tendo já dado cabo do TPP?

  2. André Miguel

    TPP não era comércio livre. Aquilo tinha mais páginas que uma lista telefónica. Para o comércio livre basta abolir os impostos aduaneiros. Simples.

  3. Francisco Miguel Colaço

    jcardososite

    Um tratado de comércio livre necessita de:

    1) ser tratado em absoluto segredo?
    2) ter mais de 1200 páginas?
    3) ser passado sem consulta dos cidadãos dos países?

    Se isso é liberdade, vou à URSS e já venho.

  4. Euro2cent

    > estava no site do governo americano como tratado de livre comércio

    E também tinha saído assim no NYTimes? Então pronto, era mesmo isso.

    OK, pessoal, podem circular, este senhor tem um argumento imbatível – estava escrito na publicidade.

    Tudo o que os publicitários escrevem é verdade. “It is known.”

  5. Opiniões de como as coisas deviam ser também eu tenho muitas. Para efeitos legais aquilo é um FTA, Até podia ter 10000 páginas e ser escrito na casa de banho em tábuas de pedra por esquimós.

  6. Já agora, sabe que o FTA entre apenas os EUA e o Chile tem umas 200 páginas não é? E que o NAFTA também tem umas boas centenas não é? Pois, o TPP era entre 12 países.

  7. No entanto estamos a fugir do assunto, o ponto original era que João Carlos Espada foi aos EUA e escreveu: “Em nenhum lugar ouvi críticas à globalização ou ao comércio livre”.

    Eu apenas gostava de saber como é que o autor concilia isto com faz 10 meses 62 milhões de americanos terem dado a vitória através do voto a um candidato com uma clara mensagem anti-globalização e de renegociação de diversos tratados de comércio livre. (bem e nem vou falar dos outros milhões de malucos da ala socialista do partido democrático)

    Dado o perfil de João Carlos Espada, posso concluir que teve esta experiência porque apenas andou inserido em círculos teóricos e académicos, onde tudo é muito bonito, estando pois desfasado da realidade do americano comum.

  8. Ou então estaria à espera que a senhora que lhe serviu o jantar emitisse uma opinião sobre o comércio livre e a globalização? Ou que fosse abordado na rua por alguém que quisesse discutir tratados de comércio livre? Quando foi à casa de banho o senhor no urinol ao lado meteu conversa sobre a globalização? João Carlos Espada andou apenas pelo seu habitat natural e entre os seus pares, daí ter saído de lá com uma confirmação do que já pensava.

  9. E todo o conceito de “conservador-liberal” é de rir mesmo, estas duas coisas são um selo teórico bonito não conseguem existir ao mesmo tempo na prática, são amigos sim mas nunca iguais – a coisa vai para um lado ou para o outro. E o que está a acontecer nos EUA hoje em dia não é um “renascimento conservador-liberal” mas sim um renascimento conservador à custa do liberais, no sentido em que muitos liberais clássicos estão a tornar-se muito mais conservadores.

  10. Comércio livre não é comércio sem regras.
    E a noção de comércio livre de Trump de ‘América first’ talvez só traduza que o comércio não deve ser ajuda externa.

    O senso comum sabe que comércio livre é interesse mútuo.

  11. “Duas questões podem, no entanto, subsistir. A primeira diz respeito à América: conseguirá este renascimento conservador-liberal, que tem dado por todo o país esmagadoras vitórias eleitorais ao partido republicano, enquadrar o novo presidente — que achou oportuno concorrer e ser eleito pelos republicanos? “

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