Falácias de um debate em movimento

Algures numa longíqua cidade perdida dos EUA, Charlottesville, o City Council decidiu remover uma estátua que imortaliza o polémico General Lee, personagem histórica com importante papel na Guerra da Secessão, lider das tropas de North Virginia e famoso defensor das causas da Confederação. A estátua terá sido erigida em 1924, havendo nos últimos anos grupos locais que, em linha com outros movimentos de erradicação de símbolos de suporte à Confederação, conseguiram em Fevereiro deste ano obter do City Council uma decisão de remoção da estátua. Os grupos que se opõem à remoção da estátua alegam que a cidade não tinha, segundo as leis estaduais, autoridade para retirar a estátua do parque.

Desde então, a localidade de Charlottesville e o Estado da Virgínia têm assistido a uma escalada do debate, em particular desde que um famoso líder “supremacista branco” local, Richard Spencer, assumiu protagonismo no debate. Facilmente se percebe, lendo esta reportagem do insuspeito NYT, que toda a contenda está altamente polaridada, entre o radicalismo da extrema-esquerda, que luta pela remoção de símbolos históricos, e o radicalismo da extrema-direita, que aproveita a questão para ganhar palco a reboque da defesa dos mesmos.

Como aliás referiu no mesmo NYT o colunista Erick-Woods Erickson:

As a conservative, I see both the social justice warrior alt-left and the white supremacist alt-right as two sides of the same coin. Both would punish others for wrongthink. Both see the other side not as opponents, but as evil that can justifiably be silenced. Both have risen in recent years as a response to the crumbling of Western civilization’s certainties.

Aquilo que era inicialmente uma questão política local foi, com a entrada de Spencer na arena, motivo de exploração mediática, com o objetivo de justificar a narrativa sempre conveniente, de que há um ressurgir do “White Power” na América pela mão de Donald Trump. Ao dar palco a um grupo marginal da sociedade americana, sem expressão, como forma de procurar promover, pelo medo, agendas políticas, alguns media americanos, em vez de informar, tornam-se veículos de propaganda, e em certa medida, cúmplices dos atos tresloucados que, é sabido, são altamente potenciados pela atenção mediática. Não é assim de estranhar que, infelizmente, mais uma vez, um louco, agarrado a um automóvel, tenha cavalgado na polarização do debate, tornando-se um assassino.

Há décadas que os EUA vivem a tensão da sua herança histórica, e não serei eu a dissertar por aqui neste contexto aquilo que são as complexidades das lutas pelos direitos civís na América, embora provavelmente as conheça bem melhor que a grande maioria dos proto-especialistas que um pouco por aí peroram teses sobre um país e uma realidade que seguramente desconhecem.

O meu ponto de hoje é de outra latitude.

Sempre que estes epifenómenos ocorrem, em vez de os avaliarmos naquilo que é a sua essência, com o necessário distanciamento que os EUA nos deveriam merecer, o que assistimos é a uma simplificação e uma condução do debate para um ponto, em geral, deslocado daquilo que a realidade nos apresenta. No proto-caso do momento, o que a imprensa nos vende é que estamos perante um ressurgimento relevante do “white power” e do nazismo, com o objetivo de sempre: não o de informar, mas autojustificar uma esquerda sem sustentação ideológica, a reboque do mediatismo que nos EUA se dá ao ataque a Trump.

Em boa verdade, há muito que não sabemos bem o que é que certa esquerda quer para a sociedade. A esquerda sempre soube legitimar-se muito mais por oposição a epifenómenos sobrevalorizados, na propagação de medos, que colam à direita, e na defesa de uma série de clichês vagos, do que propriamente pela afirmação de um ideário próprio. Algo agravado pelo facto de, há muito, as correntes de esquerda não terem uma visão clara, programática, para a economia, para a sociedade, ou para o homem, alimentando-se já, quase só, da apologia de um certo sentido estético e de suposto contra, que não obriga à afirmação de nada. A dislexia que existe em Portugal aliás, entre o discurso do PCP e do Bloco, e até do Partido Socialista, e a prática governativa da Geringonça, é disso um bom exemplo. Não é à toa que em democracias liberais mais informadas e com sociedades civis fortes, o socialismo está em acelerada desagregação. No discurso, a esquerda é contra a massificação do turismo, o G20, o G7, o aquecimento global, a precarização, a globalização, o capitalismo, ou o racismo, contra algo vagamente conveniente e o seu contrário, num contexto onde não há espaço para a coerência porque, em bom rigor, não há escrutínio nem se exige a estas forças políticas que nos digam, então, afinal, ao que vêm. Desta forma agressiva e por condicionamento comunicacional e cultural, grupos minoritários com pouca expressão eleitoral conseguem condicionar aquilo que são as políticas públicas aplicadas por forças partidárias catch all e sem grandes referenciais que não os meramente tecnocráticos.

De pouco adianta recordar que a maioria da direita e dos eleitores moderados é a favor da racional exploração das cidades, da preservação ambiental, da melhoria das condições de trabalho, de um comércio global que crie mais riqueza e melhores condições para os cidadãos (sendo essa a essência da troca e do comércio), ou da igualdade de todos independentemente da sua cor de pele, e que é no capitalismo e nas democracias liberais que se constroem soluções energéticas limpas, as cidades mais apelativas, os empregos mais valiosos e cobiçados, e persistem as mais evoluídas sociedades interraciais.

No caso de Charlottesville, de nada adianta afirmar algo que nem deveria ser necessário dizer – que a direita em Portugal não subscreve as lógicas de grupos “supremacistas”, nem apoia ideologias “nazis”. Este disclaimer, que deveria ser desnecessário e até ridículo, acaba por fazer sentido quando o líder do principal partido da oposição e mais votado nas últimas eleições é rotulado de “xenófobo” e, pouco falta, de “nazi” – tudo porque proferiu declarações bem mais brandas do que aquelas que ouvimos de bocas consideradas salvíficas pela esquerda, como Obama ou Clinton, a propósito da imigração.

Epifenómenos como Charlottesville, quando capturados pela imprensa de causas ao serviço da esquerda, rapidamente perdem a sua raíz e contexto, para se tornarem em armas de arremesso ao serviço da auto-justificação ideológica. Assim, já pouco importa se em Charlottesville a comunidade, nos seus órgãos próprios, estava a discutir um tema localmente fracturante, com raízes históricas profundas no debate americano, mas que há vários anos seguia aquilo que é normal num estado de direito democrático, até à sua mediatização anti-Trump.

Quem conheça os EUA sabe que o que se passou em Charlottesville é, infelizmente, business as usual – no sentido em que a luta pelos direitos civis na America tem séculos e já fez, infelizmente, milhares de mortos. Nada do que ocorreu é particularmente novo, ou tem uma escala que justifique uma pandemia de medo. Toda esta contenda de Charlottesville tem a minha crítica: desde logo (e respeitando a cronologia), porque assistimos ao reabrir de uma ferida mais uma vez levada a cabo por grupos radicais de estudantes universitários que insistem em querer esconder a história; e, igualmente, por isso permitir que grupos radicais, racistas, encontrem nessas feridas reabertas terreno fértil para recauchutar causas que não deberiam ter espaço nas nossas sociedades de hoje. Mas, por favor, nada disto tem importância suficiente para justificar que se rasguem as vestes neste nosso cantinho à beira mar plantado. O seu aparecimento nas parangonas dos jornais, porém, serve bem uma causa: a de permitir que a esquerda se defina por oposição, colando à direita coisas que nem a direita, por cá, defende ou acredita; e a de nos desviar de coisas bem mais relevantes e importantes que, curiosamente, permanecem impunes e sem a indignação que a sua gravidade merecia.

Cabe à direita portuguesa, sobretudo a mais liberal e cosmopolita, mas também às correntes moderadas ao centro e à esquerda, que não bebem em complexos de extrema-esquerda, não se deixar aprisionar pelas falácias de um debate que em nada pretende ser esclarecedor, mas meramente autojustificativo de ideologias, elas próprias totalitárias e inimigas da liberdade.

Anúncios

16 thoughts on “Falácias de um debate em movimento

  1. Holonist

    Curioso, no ataque de ontem ainda durante horas se recusou a falar de terrorismo nos media e hoje nao se coloca “terrorismo islamico” em lado algum porque”nao se sabe nem se generaliza”.
    Entretanto aqui ja se fez o julgamento do puto que estava rodeado de uma turba e que ANTES de atingir a multidao foi atingido com bastoes ( os videos nao mentem) e ja se sabe que foi propositado premeditado e ate ja saiu a sentenca sem sair sequer acusacao oficial ( o rapaz esta em liberdade e sem fianca vejam la). Se calhar e melhor avisar a policia para o ir levar…

    Sabem, sao por artigos destes fofinhos que acusam tudo e todos mas depois passam a mao no lombo da esquerda a legitimizar que estamos onde estamos. Tenha vergonha na cara!

  2. Gaius Octavius

    O capitalista Mitt Romney já apareceu a dizer o que eu, comunista inveterado, aqui disse há dias: não há equivalência moral entre o nazi-fascismo e a esquerda antifascista. Os nazis pretendem aniquilar homens, mulheres e crianças de raças “inferiores”. Nós comunistas apenas queremos livrar o mundo de opressão através do extermínio de homens, mulheres e crianças burguesas.

    Fico contente em ver que capitalistas como Romney conseguem perceber a diferença abissal entre a barbárie nazi e a justiça comunista. Eu que até aqui sempre defendi que Romney e de toda a sua família deviam ser torturados até
    à morte, enquanto capitalistas opressores, e ter os seus bens confiscados, já mudei de ideias: quando a Revolução chegar eu prometo interceder junto dos meus camaradas americanos para que Romney seja assassinado da forma mais humana possível.

  3. AB

    Porque se procura baralhar tudo? Nos EUA há Democratas e Republicanos, que são o centrão de lá. Depois há a alt-right e a alt-left, e a alt-left estará ao nível dum PS, a alt-right nem tem paralelo em Portugal.
    E depois há os supremacistas e o Antifa – totalitarismo puro.

  4. Narciso Miranda

    E por cá segue-se o mesmo caminho. Recentemente alguns jornais (Público) insistem no tema recorrentemente, forçando o tema. Há obviamente racismo em Portugal, mas tem a expressão que nos querem fazer acreditar? Existe racismo institucional? “Há uma justiça para portugueses e uma justiça para estrangeiros, uma justiça para brancos e uma justiça para negros” disse ao jornal o ex director da PJ e procurador. Ele terá noção das implicações destas afirmações e outras como afirmar que são necessárias mais provas para brancos que para negros???

  5. lucklucky

    “lendo esta reportagem do insuspeito NYC”

    -provável erro para NYT

    Basta ler isto para perceber que o autor não percebe nada.

  6. Caro Lucklucky,
    Num texto longo, tudo o que tens a comentar é um erro de splelling. Alguém que se dá ao trabalho de fazer um comentário assim só para depois me insultar, seguramente tem uma vida infeliz sem nada para fazer.
    Sejas bem-vindo neste ATl para adultos. Não discriminamos ninguém, em especial os que mais sofrem.
    RAF

  7. Guna,
    Estamos a falar dos EUA e mistura-se com Barcelona, a que propósito? Qual a relação entre uma coisa e outra?
    Misturar tudo com tudo não é debater.
    RAF

  8. lucklucky

    Eu não pretendia comentar um erro de spelling mas criticar o chamar insuspeito ao NYT um jornal da esquerda e extrema esquerda americana.
    O que está em causa em Charlottesville é a 1ºEmenda Constituicional e se e a quem o Estado- neste caso um Governo Estadual- permite fazer violencia.

  9. Haja paciência, Lucklucky. É classificado de insuspeito, precisamente nesse sentido, o de o NYT estar a afirmar algo que não pode ser classificado de discurso de direita. Mas parece que por aí a capacidade de interpretar foi de férias.

  10. Holonist

    Continuem a negar a historia e a ou dizer que os antifas sao melhores que os nazis ou na melhor das hipoteses iguais. Continuem a fingir que a antifa e algo novo e continuem a ignorar o porque e como os nazis subiram ao poder e com quem se andavam a matar nas ruas. Como eu digo, a esquerda e fofinha, tenham mas e vergonha foda-se.

  11. lucklucky

    “o NYT estar a afirmar algo que não pode ser classificado de discurso de direita.”

    Nunca há de entender.

    O NYT lançar poeira para os olhos desviando a atenção das duas questões que importam:

    – 1º Emenda a ser destruída por “hate speech”

    – Estado conivente com a violencia de Esquerda não respeitando as próprias leis.

  12. tanta insistencia em trazer os pequenos, twites do palhaço da C.Branca como assuntos de interesse nacional,e estes arrufos naturais entre gente que pensa diferente e aplica a violencia com facilidade só tem mais destaque porque os nossos tudologos estão na sily season e os doutoramentos dos trolś no facebook continuam a ritmo acelerado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s