Voando sobre um ninho de cucos

No filme, “Voando sobre um Ninho de Cucos”, Milos Forman questiona a forma como uma sociedade monolítica se impõe aos cidadãos, sob os falsos pretextos de democracia e liberdade, que supostamente só são visíveis desde que não sejam questionados. O enredo, esse, desenrola-se num manicómio, onde vários pacientes, resignados, internados voluntariamente, procuram um ambiente protegido e confortável onde se possam sentir seguros, aceitando em troca submeter-se a tratamentos violentos e a comportamentos acríticos e mecânicos, que são impostos como “normais“.

No hospital psiquiátrico de Forman não há espaço para a consciência, vivendo a sociedade em cativeiro.

Em muitos aspetos, o que se assiste em Portugal não está muito afastado das metáforas do filme de Forman. Quem esteja atento ao enredo comunicacional e político, com um minimo de espírito crítico, tem de concluir que Portugal vive hoje aprisionado por uma ausência de consciência, onde (sendo simpáticos) a vontade legítima de atingir a normalidade nos leva a ignorar a realidade e a aceitar narrativas ficcionais. Nesta sociedade delirante os que a questionam são rotulados de loucos, ou de qualquer outro chavão menorizante.

Num país a arder, entregue a si próprio, onde a fronteira entre a salvação e o infortúnio depende dos caprichos da natureza e da direção do vento, políticos comprometidos com toda a nossa história recente desmultiplicam-se em encenações, entrando e saindo do palco em várias cenas, ao estilo chora-a-ministra-chora-o-secretário-beija-aqui-beija-acolá-defende-SIRESP-critica-SIRESP-condena-a-árvore-iliba-a-árvore-alega-downburst-reforma-a-floresta-venha-o-inverno. Nesta encenação, parar é morrer. Quanto mais dramática se desenha a tragédia, mais exagerada se torna a encenação: que o diga D. Dinis, de cognome, O Agricultor, insigne rei da 1.ª dinastia, o homem que mandou plantar o pinhal de Leiria, a quem o nosso ministro Capoulas se comparou, na grandiosidade que reserva para a obra florestal do seu desgoverno. Que o ridículo não tenha dado lugar à chacota, e o homem permaneça de sachola na mão, irresponsável pela plantação nacional, diz muito do estado de adormecimento psiquiátrico instalado.

64 mortos e dois meses depois, continuamos sem saber o que se passou. Continuando as populações entregues ao seu infortúnio.

É tal a desorientação que nem o roubo de Tancos, simbolo máximo do laxismo e do abandono, há muito foi esquecido pela memória coletiva, dada a imensidão de tragédias com que diariamente somos confrontados.

No dia em que os católicos celebram a Assunção de Nossa Senhora, caiu o céu sobre a Madeira, sob a forma de árvore, ceifando 13 vidas e ferindo 5 dezenas. Ouvimos nas notícias já sem estupefação, como se adivinhássemos, que há muito que o perigo vinha sendo anunciado pelos cidadãos. Azar dos azares, ainda não é desta que vamos ter culpados – que não árvores arguidas; queixaram-se afinal os residentes dos plátanos e não dos carvalhos. A brutalidade, essa, entrou nas nossas casas, nas palavras do Presidente da Câmara do Funchal, que já nos foi avisando: não esperem responsabilidades públicas. As árvores “referenciadas” – ou seja, que o cidadão incauto havia reportado – eram plátanos, e não carvalhos, pelo que não venham agora exigir-lhe o que quer que seja. Para a próxima, quando um cidadão ameaçado avisar as autoridades daquilo que é a sua missão – garantir a integridade do espaço público – antes, é bom que desenvolva conhecimentos profundos de botânica, e cumpra com rigor a sua delação arborícola. Que é para isso que os cidadãos pagam impostos os poderes públicos recebem impostos.

Prossegue o delírio, mais uma notícia, mais um devaneio. Na ânsia de anunciar boas novas, a enfermeira Ratched o deputado Galamba, com ar triunfante, deu nota ao país que estamos a crescer como nunca: 2,8% face ao período homólogo. Pouco importa que, na União Europeia, no 2º trimestre de 2017, para os países para os quais existem dados, com excepção da Finlândia Portugal foi o país que menos cresceu em cadeia. E que, mesmo em termos de crescimento homólogo, Portugal tenha apenas o 13.º crescimento na UE, num cenário em que as exportações continuam a diminuir e as importações a aumentar. O bom-senso diria que estamos a desacelerar, havendo risco de estagnação. E que o fruto dos esforços feitos nos últimos anos começam a diluir-se na acomodação intempestiva da distribuição dos rendimentos. Não! Pelas contas, a coisa aguenta mais uns meses. Mesmo que isto estagne, aguenta até ao próximo Orçamento. Pelo que importa manter o optimismo, e continuar a fingir, mesmo que os sinais e o respeito pelos esforços dos portugueses nos exigissem moderação, e até sentido de alerta.

Nesta caminhada, os que teimem em alinhar com a normalidade, devem ser aniquilados. Digam o que disserem, pouco importa a substância do que se diz. Há que criar rótulos, de dedo em riste, que impeçam o debate e não permitam que o povo, saindo da normalidade, perceba que a peça em cena é a do Rei que vai nu.

Sim, o Rei vai nu. O que falta acontecer para que quem nos governa perceba que desde há muito, quando desfilam, não vemos a sua vaidade, mas a sua nudez inestética, por mais que os seus comparsas lhe elogiem os trajes?

 

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4 thoughts on “Voando sobre um ninho de cucos

  1. Vá lá meninos, esclareçam o povo inculto que não vos entende, saiam da vossa zona de conforto e expliquem isso dos “incompetentes” aos eleitores. Só assim podem esperar ter maioria absoluta nas próximas legislativas. Porque as autárquicas já eram!
    Não é sentados encima das PPPs (parcerias em que o Estado dá aos privados lucro mínimo garantido) que vão ganhar as próximas eleições.
    E não se esqueçam, o monhé não é o sócras. Não é rapaz para se intimidar com Manuelas M Guedes ou Mários Crespos que apareçam por aí a morder-lhe nas canelas…

  2. Discordo. Não é aos governantes que falta tomar consciência da situação. Os goverantes têm consciência do que fazem e só fazem o que fazem porque sabem que os votantes são parvos.
    O problema de Portugal só se resolver mudando o povo portguês, de forma a que o mesmo não aceite (des)governantes deste calibre.

  3. Ó Sr. Rolo, explique lá àgente como é que se muda um povo que vive num país.
    É que não há campos de concentração que cheguem para albergar todos os cidadãos que não lhe interessam…

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