Aos verdadeiros empresários

A minha crónica no Jornal Económico.

Aos verdadeiros empresários

Há uns anos fui jantar numa nova pizzaria no bairro onde vivo em Lisboa. Era uma pizzaria peculiar porque gerida por Nepaleses. Mas as pizzas eram boas, o ambiente simpático, com luzes ténues e agradáveis no interior, e uma esplanada que dava para a avenida, onde se jantava excelentemente no Verão. Os preços eram acessíveis e os donos prestáveis. Falavam mal o português e reparei que nos serviam com uma certa timidez e embaraço. Deram-me a sensação de que não queriam dar nas vistas, como se receassem que alguém reparasse no que estavam a fazer e perdessem o que tinham: aquele estabelecimento. Escrevo na forma verbal do passado, mas o restaurante continua a existir e recomenda-se.

Tornei-me cliente e vou lá de vez em quando. Outro dia, vi um dos donos à porta de outro restaurante que ia abrir no bairro. Ainda estava em obras e ele olhava para aquilo tudo com o mesmo ar inquieto de sempre. Parei e cumprimentei-o; foi a custo que me confirmou que aquele também era dele. E puxando a conversa lá arranquei a informação de que já tinham, em Lisboa, ele e os outros sócios, dez restaurantes. Disse-o a medo, olhando-me de lado devido talvez à minha cara de espanto, mas devo ter-me mostrado orgulhoso pelo seu feito, pois sorriu logo de seguida.

Como advogado tenho dado assistência jurídica a vários empresários assim: que trabalham com gosto, arriscam, têm medo. A maior parte das pessoas não percebe, mas o medo, aquele frio na barriga, é inevitável quando criamos um negócio nosso. A maioria não o percebe porque julga que ter uma empresa, criar um negócio, ser chefe, é mandar e andar por aí a dar-se ares de importante. Esta crónica reúne experiências de vários dias diferentes e foi num outro que tive uma conversa com um amigo que trabalha numa grande multinacional e que se quer despedir para montar um negócio. Rapidamente me apercebi que ele não tinha a mínima noção do risco inerente, não tinha a mínima ideia do que era dar a própria casa como garantia aos bancos para que conseguisse o empréstimo que precisava. Ele trabalha horas infindas, mas não sabe o que é arriscar.

Esta falta de noção da realidade, até entre quem trabalha no sector privado, deve-se a uma ideia preconcebida de que ser empresário é ganhar dinheiro fácil e ter pessoas a trabalhar por nós. Esta percepção advém de um preconceito socialista, cuja simplificação justifica o intervencionismo estatal e a redução das liberdades individuais, e de um sistema partidário que prefere empresários com fortes ligações ao poder político, como foi o caso de Ricardo Salgado, da PT e da EDP, a empresas fortes e independentes, mesmo que pequenas. Mas quem sabe, sabe que um bom empresário, acima de tudo, quer ser livre.

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12 thoughts on “Aos verdadeiros empresários

  1. Não admira que o nepalês tenha medo. Os pequenos e médios empresários têm sido carne para canhão de todos os governos.
    Os grandes, esses estão defendidos, pelos advogados, pelo dinheiro, pela dimensão, pelo apetite corrupto dos políticos.

  2. Manuel Assis Teixeira

    Apenas uma pergunta ao André Abrantes Amaral: estes humildes nepaleses ( e é bem verdade qye são) pagam os mesmos impostos que os cidadãos nacionais ou têm as condições ” especiais” dos chineses! É que há qualquer coisa de estranho nesta recente invasão de cidadãos nepaleses e mesmo do Bangladesh países poucos conhecidos pelo seu potencial económico, ou pelo potencial económico dos seus naturais, mas que chegam com possobilidades de abrir negócios que os cidadãos nacionais não têm! Será natural?

  3. André Miguel

    Manuel, que os cidadãos nacionais não têm, ou não querem? Olhe que se calhar há 30 ou 40 anos no Brasil, Venezuela ou Africa do Sul diziam isso mesmo dos Portugueses que por lá abriam os seus negócios.

  4. Manuel Assis Teixeira

    Eu só estou a fazer uma pergunta que me intriga!
    Não estou a fazer qualquer comentário negativo ou depreciativo a estes cidadãos! Até porque onde moro sou cliente assíduo

  5. André Miguel

    Caro Manuel, não disse que o seu comentário era depreciativo, eu estava apenas a tentar fazer uma analogia com os nossos emigrantes, que também eles fizeram pela vida. Não que a sua questão, não seja pertinente, que o é.

  6. Expatriado

    Na África do Sul, que conheço bem, os comerciantes portugueses não tiveram quaisquer condições especiais para se estabelecerem. Tanto quanto sei, no Brasil também não tiveram. Não sei na Venezuela, mas penso que também tiveram de arriscar do seu próprio bolso.

  7. André Miguel

    Expatriado e já agora que condições expeciais é que existem em Portugal nos dias de hoje? Pergunto apenas, pois como também sou expatriado quem sabe seja interessante regressar com algumas condições especiais.

  8. Expatriado

    Eu só disse que os portugueses, naqueles países, não beneficiavam de quaisquer condições “especiais” para abrir os seus negócios (green groceries ou padarias)…

  9. André Miguel

    Tudo bem, mas perdoe a minha ignorância: quais são as “condições especiais” que existem em Portugal?

  10. tina

    “Tudo bem, mas perdoe a minha ignorância: quais são as “condições especiais” que existem em Portugal?”

    A esquerda é que dá sempre a entender isso, que os pequenos e médios empresários são ajudados pelo governo a estabelecer o negócio, grande treta!..

  11. Uma das condições especiais é que trabalham à volta de 18 em cada 24 horas(365 dias no ano)) e vivem com frugalidade, como os nossos emigrantes,na década de 70, faziam em França.

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