My ass

“If you don’t read newspapers you are uninformed, if you read them, you are misinformed” – Samuel Clemens aka Mark Twain

Desde o início desta história do “assalto” ao paiol de Tancos que a explicação mais plausível sempre me pareceu um problema de inventário. Não me lixem, não conheço pessoalmente o Cmdt do RE1 (embora tenha boas indicações dele por terceiros) mas salvo raras excepções tenho a melhor das ideias acerca do Oficiais de Engenharia e de uma coisa que nenhum dos que conheci pode ser acusado é de falta de rigor. São tão Engenheiros como qualquer um saído do IST ou da FEUP. Aliás são o mais antigo curso de engenharia em Portugal.

 

As Unidades do Exército têm vários Depósitos; de bares onde estão as bebidas e outros produtos destinados aos bares e messes, de fardamento, disto e daquilo. E têm paióis. No limite do pessoal, nenhum Cmdt de um Regimento, mas nenhum mesmo, deixa de ter a noção das prioridades da Guarda. Entre armas e explosivos ou fiambre e cerveja não têm dúvidas. Assim desde que a história aparece, convenientemente logo a seguir ao desastre de Pedrógão, que tresanda. As torres de vigia estavam vazias mas é os tomates. O problema foi isto ter escalado e na Central de Informação não terem percebido a gravidade da versão (pudera, naqueles lados a Defesa é um detalhe do papel do Estado e pouco importante) que puseram a circular. Quem se lixaria no fim seriam uns Oficiais e uma ou outra alforreca com umas estrelas nos ombros e Pedrógão e a inacreditável incompetência do Governo, do Estado e das instituições operacionais geridas por enfermeiros e professores primários passaria à História. Pois, só que lá fora, isto de material de guerra desaparecido é levado a sério.

 

A ver, os tais 44 “lança granadas” são umas merdas que pesam 2,5Kg cada um (em cada pelotão há um certo número de soldados que leva às costas três LGFs – neste caso parece ser M72 LAW que é a mesma merda – Google it, embora não me lembre de quantas munições leva um cunhete, 1495 munições é ridículo; granadas de gás lacrimogénio e ofensivas? E granadas defensivas nem uma? É que quem quiser fazer estragos a sério usa granadas defensivas (bem sei que é contra intuitivo, Google it). Mais uns cordões e umas merdices e está o filme feito.

Ora bem, para haver um problema de inventário que é a única explicação plausível há duas hipóteses, uma envolvendo corrupção outra negligência.

 

  1. Periodicamente há material que tem que ser destruído por ultrapassar o prazo de validade e há, ou havia, vários métodos de o fazer. Basta o tipo encarregue de contar o material a abater fazê-lo sem rigor nenhum (em vez de contar , digamos 364 LGFs contou 320 meio a olho, em vez de 52 cunhetes de munições contou 51, etc. ). Passado uns tempos há uma inspecção e o inventário está todo gatado. Vocês sabem qual é a percentagem que as grandese profissionalíssimas cadeias de supermercados usam para desaparecimentos antes de os produtos chegarem às prateleiras: 7%. E não é só por roubos, é também e essencialmente por erros de contagem.
  2. Outra hipótese é o material ter sido encomendado (imaginemos 1500 LGF), pago e parte nunca ter sido entregue e alguém se abotoa com a diferença que, honestamente, são trocos. Claro que vai dar asneira mais cedo ou mais tarde, mas muita gente metida nestas coisas não prima pela inteligência (ver o caso recente na FA e os mantimentos).

 

Agora, ninguém, mas mesmo ninguém me convence que houve assalto algum ao paiol de Tancos. Mas é que não mesmo. Eh pá! Qualquer paiol está cheio de granadas defensivas. Alguém que quer fazer estragos ou ganhar guita as deixa lá ficar e leva mei a dúzia de ofensivas e de gás lacrimogéneo? Olhem, quem inventou esta história bem pode ir gozar com o raio que o parta. Pedrógão não vai ser esquecido e teve o lado bom de permitir identificar as alforrecas ao serviço do poder.

Nem era preciso PJ, bastaria a PJM agarrar em todos os inventários e ir andando para trás e facilmente chegaria ao buraco. Mas pronto, quem poderia explicar está constitucionalmente impedido de falar (e ainda sabe o que é a honra), quem pode falar está a salvar a pele, a própria e a de outros porque isto escalou. Os imberbes da Central de Informações são uns meninos cheios de maquiavelismo livresco mas sem noção nenhuma do Mundo.

 

Na imagem um M72 LAW, 2,5kg, 640€ cada um. Segundo os espanhóis são 44 coisas daquelas que faltam.

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3 thoughts on “My ass

  1. Exclusivo edição impressa

    Furto de Tancos esconde falhas no registo do material de guerra

    O furto de armas e munições em Tancos poderá ter sido aproveitado para esconder a falta de outro material de guerra, cujas entradas e saídas deveriam ter sido registadas.

    A questão está sob investigação no âmbito dos inquéritos que decorrem, soube o JN junto de fontes ligadas ao processo.

  2. Se havia granadas defensivas no mesmo paiol, isto realmente explica porque é que não se coloca risco nenhum para a segurança nacional: o material foi inventariado a olho.

    Furto conveniente… mas já agora, como é que se identificou tão prontamente quem roublu? Terá sido o mesmo que identificou a árvore e o raio que a partiu em Pedrógão? [Talvez tenha sido o Professor Karamba]

  3. Claro que foi para disfarçar os desvios continuos, eu não me acredito, mas não acredito mesmo, que alguém rebente uma rede, entre e vá descarregando para um camião, isso é surreal.

    Agora o inventário está correcto, faz-se um código de conduta e case closed.

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