Trumpgate

 No passado dia 8, o New York Times noticiou que Donald Trump, Jr. o filho do Presidente dos EUA, se tinha reunido com uma advogada russa – Natalia Veselnitskaya – com ligações ao regime de Vladimir Putin a 9 de Junho de 2016, poucos dias antes do ataque informático ao Partido Democrático ter sido tornado público, e que a reunião tinha contado ainda com a participação de Paul Manafort, o então director de campanha de Trump com um pouco abonatório historial de serviço a políticos próximos do Kremlin na Ucrânia, e Jared Kushner, genro de Trump e alguém que viria meses mais tarde a pedir à embaixada russa que lhe fornecesse um sistema de comunicações que o permitisse comunicar com o Kremlin sem estar sujeito à normal fiscalização de comunicações diplomáticas por parte do aparelho de Estado americano.

Trump, Jr. respondeu à notícia do New York Times dizendo que a reunião lhe fora pedida por um seu conhecido, mas que o nome da pessoa com quem ele se iria reunir não lhe foi fornecido – o homem aparentemente não achou por bem perguntar, ou se perguntou, não achou estranho que não lhe fosse dito – e que se tratara de “uma pequena reunião introdutória” em que se discutiu “principalmente” um “programa de adopções de crianças russas por famílias americanas” que o governo russo “terminou”, e que não houve qualquer contacto posterior.

O que Trump, Jr. não disse foi que a questão das adopções é o pretexto sob o qual Veselnitskaya faz uma campanha contra o chamado Magnitsky Act: depois de Sergei Magnitsky, um advogado que denunciara actos de corrupção do regime russo, ter morrido na prisão, os EUA colocaram mais de quarenta cidadãos russos – aparentemente ligados à morte de Magnitsky – numa de lista de indivíduos sujeitos à apreensão dos seus bens no país e sem vistos para se deslocarem aos EUA; em resposta, Putin decidiu proibir a adopção de crianças russas por parte de cidadãos americanos; desde então, Veseltnitskaya, casada com um ex-governante russo, advogada de um banqueiro russo envolvido num escândalo de lavagem de dinheiro de oligarcas putinistas através de um banco no Chipre, e posteriormente envolvida num filme que procurava descredibilizar William Browder, um empresário americano que se tornara um feroz crítico do regime de Putin, tem usado o problema das adopções como uma forma de argumentar pelo fim do Magnitsky Act, e assim pelo levantamento das restrições impostas aos cidadãos russos. Repare-se, no entanto, que a senhora não intercede junto do homem que efectivamente impede essas adopções – Vladimir Putin -, antes exerce influência sobre quem poderá ajudar uns vigaristas russos a recuperarem o seu dinheiro e envolve-se em esforços para denegrir quem alerta para o seu carácter duvidoso.

Seja como for, no dia seguinte, o mesmo New York Times noticiou que três conselheiros da Casa Branca que haviam sido informados do que se passara na reunião de Trump, Jr., Manafort e Kushner com Veselnitskaya confirmavam que o filho do Presidente se reunira com a advogada russa depois de ela lhe ter prometido “informação prejudicial” para Hillary Clinton – recorde-se que a reunião e o pedido para ela ter lugar ocorreram poucos dias antes do anúncio público do ataque russo ao sistema informático, mas depois de este ter sido realizado.

Em resposta, Trump, Jr. afirmou que “a mulher afirmou que tinha informação de que indivíduos ligados à Rússia estavam a financiar o Democratic National Committee e a apoiar a senhora Clinton”, mas que “não foi dado” qualquer “detalhe” ou “informação” que o confirmasse, e que a conversa logo passou para a questão das adopções do Magnitsky Act. “As pretensões de informação potencialmente útil”, disse Trump, Jr., “não passaram de um pretexto” usado por Veselnitskaya para o atrair para uma reunião (que, acrescento eu, o compromete a ele).

Ou seja, Donald Trump, Jr., julgando estar a defender-se, não só disse ter mentido na resposta inicial à notícia do New York Times, como confirmou que só teve a reunião porque lhe fora prometida, por uma advogada ligada ao Kremlin, informação comprometedora acerca de Hillary Clinton, e que efectivamente procurou colaborar com uma agente de uma potência estrangeira que pretendia fragilizar processo eleitoral americano, no sentido de influenciar o resultado prejudicando a candidata que se opunha ao seu pai, e que só não o fez porque afinal essa mesma agente – malandra – não tinha a informação que lhe prometera dar. Para piorar as coisas, num conjunto de emails que o próprio Trump, Jr. hoje divulgou, fica claro que Trump, Jr. só se reuniu com a advogada russa depois do seu intermediário lhe ter dito que tinha “informação que incriminaria Clinton”, e que a partilha dessa informação “fazia parte do apoio da Rússia e do seu governo ao senhor Trump”. “Se isso é o que diz”, terá respondido Trump, Jr., “eu adoro”.

Embora a gravidade da coisa salte à vista de qualquer um, Trump, os seus aguadeiros e os seus apoiantes (como o Ricardo, cada vez mais apaixonado pelo “macho alpha” que “domina qualquer interação”) não hesitarão em dizer que não há aqui problema nenhum, o que só porá a nu a sua estupidez, a sua hipocrisia, ou a sua sobre-humana combinação destas duas “qualidades”.

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10 thoughts on “Trumpgate

  1. c3lia

    Muito mais grave do q a forma como se descobre a merd@ q políticos fazem/fizeram, é a merd@ propriamente dita. Se a Clinton não tivesse nada para esconder, não havia nada que os russos supostamente teriam encontrado.
    Como dizem membros da propria CNN, tudo isto é um nothing-burguer!! Toca a comprar um “tin foil hat” Bruno!
    PS: tb acredita na Hillary, e na “culpa” dos macedónios?! Lol

  2. Este pessoal, com problemas instransponíveis em Portugal, anda muito peocupados com os Estados Unidos. O Trump é um saco de porrada e não há insignificante que não esteja na fila para lhe bater. Olhem para a Trampa que está na vida poruguesa e deixem-se de se meter na solução dos problemas americanos. Com disse Lopes Graça, é preciso acordar.

  3. Pingback: O Urso e o “urso” – O Insurgente

  4. The Westphalian Post

    Portanto este post resume-se a alegações sem provas, teorias da conspiração e insultos…
    Este blogue em tempos teve nível mas andam por aqui certas rotten apples

  5. teste

    a malta já acha normal que estados concorrentes e até, neste caso, rivais participem activamente nas eleições dos seus países e tudo. que maravilha.
    bruno, os meus pesames

  6. Carlos Carneiro

    Está história já chateia. As eleições foram livres, sem fraudes e as pessoas votaram em quem quiseram. O Putin esteve nas urnas americanas de arma na mão a dizer às pessoas em quem votar? Já chega de intoxicar as pessoas com não assuntos.

  7. Luís

    Nao vejo mal algum em que o filho de um candidato se reúna com quem diz ter informações importantes sobre a oponente. Se não se reunisse, para além de pouco hábil, poderia não estar a ajudar a campanha do paI e quiçá a prejudicar o país (caso as informações fossem verdadeiras, graves para os EUA e Hillary fosse eleita sem que o povo que a elegeria soubesse delas. O Bruno alucinou e os insultos a quem pensa de forma diferente não são dignos deste blogue.

  8. Pingback: Trumpgate #37 – A visão de um Progressista – O Insurgente

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