O Urso e o “urso”

 Há uns dias, o nosso Ricardo Campelo Magalhães, o autoproclamado “Insurgente que mais atenção presta à política americana”, viu um vídeo de uns apoiantes de Bernie Sanders, um conhecido socialista que achou que o local ideal para passar a lua-de-mel era a União Soviética, a elogiarem o “histórico e importante” dia em Trump e Putin se reuniram e anunciaram um cessar-fogo na Síria (a juntar aos muitos outros que já foram anunciados e que a Rússia e o regime sírio aproveitam para preparar ataques à oposição síria mas que, curiosamente, deixam o ISIS a salvo, quando não o ajudam), e ficou encantado. Compreendo o impulso. Idealmente, uma aproximação entre os EUA e a Rússia seria uma bênção para ambos os países, e também para o resto do mundo. Mas levar a sério essa possibilidade é cometer o mesmo erro que os desastrados Barack Obama e Hillary Clinton cometeram em 2008, ou (em menor grau e mais compreensivelmente, já que Putin estava há pouco tempo no poder e talvez não fosse ainda não tão clara a natureza do seu regime)George W. Bush após o 11 de Setembro: não compreender que uma reaproximação entre a Rússia e os EUA não é possível nem desejável, porque os interesses do regime de Putin não são conciliáveis com os interesses de um país democrático e aberto ao resto do mundo.

O interesse dos EUA (e diga-se de passagem, o nosso) é (ou pelo menos costumava e deveria ser) um mundo o mais pacífico possível, o mais aberto possível ao comércio livre, e também o mais democrático possível, e da combinação de todos estes factores, o mais próspero possível. O interesse de Putin e da rede mafiosa que gira à sua volta reside em enriquecer e manter o seu poder político intacto, até porque sem ele não poderão encher as contas bancárias. Para isso, precisam – por exemplo – de um Médio Oriente instável, para que o preço do petróleo seja o mais alto possível para que os seus rendimentos, muito dependentes do sector energético, não sejam muito afectados, e daí a promoção da perpetuação da guerra civil na Síria. Precisam, também, de promover uma política externa agressiva para com estados seus vizinhos como a Ucrânia, a Estónia, a Lituânia, a Letónia ou a Moldávia, apelando ao “fervor” nacionalista do povo russo, que assim se distrai da decadência económica e militar do país e se une em torno do líder político que enriquece enquanto grande parte da população passa fome ou se embebeda até à morte.

Acima de tudo, a propaganda russa (basta ver a RT) precisa de passar a ideia de que a democracia dos EUA ou dos países europeus é tão disfuncional e corrupta como o disfuncional e corrupto autoritarismo que Putin comanda. Daí a inegável interferência na campanha eleitoral americana: em primeira instância, Putin pretendia descredibilizar a candidata que se esperava que fosse ganhar, Hillary Clinton (que, convenhamos, não requeria um grande esforço para ser descredibilizada, dado o passado pouco abonatório da máquina política da família), e em segundo lugar, promover um candidato com um longo historial de negócios duvidosos com indivíduos ligados à máfia russa, que colocou na estrutura da sua campanha gente com um passado de ligações ao Kremlin (Paul Manafort, Michael Flynn, e Carter Page), e que veio publicamente pedir à Rússia que interceptasse e divulgasse os emails de Clinton. Precisamente por todos estes elementos tornarem no mínimo plausível (mesmo que não seja verdadeira) a ideia de que Trump estava conscientemente em “conluio” com a Rússia (e ninguém, excepto os potenciais intervenientes, sabe se estava ou não), Putin preferia promover a candidatura de Trump e descredibilizar a de Clinton: na pior das hipóteses manchava ainda mais a já frágil reputação da candidata Democrata, e na melhor das hipóteses, via ser eleito Presidente dos EUA um candidato que lhe dava pela confiança de que a sua mera eleição descredibilizaria gravemente o processo eleitoral americano junto de uma parte significativa da população, e de que um eventual impeachment motivado pela forma como se deixou enredar na teia do “Kremlingate” ou pelo seu duvidoso passado financeiro minaria a confiança dos seus apoiantes (que duvidariam sempre da legitimidade desse impeachment) nesse mesmo processo; enquanto isso, todas estas atribulações permitem-lhe, na Rússia, dizer “olhem como eles não se governam”, que é o seu principal objectivo.

Por isso, provavelmente, mandou os seus assalariados Manafort e Flynn insinuarem-se junto da campanha de Trump, que ingenuamente os aceitou e logo se deixou comprometer; por isso terá usado o seu aparelho diplomático nos EUA para encetar conversações com Jared Kushner e ou levá-lo a pedir acesso a um sistema de comunicações na embaixada russa que lhe permitisse comunicar com o Kremlin sem estar sujeito à normal fiscalização de comunicações diplomáticas por parte do aparelho de Estado americano, ou dizer isso mesmo sendo falso numa chamada telefónica do embaixador que saberiam estar a ser escutado, com o simples propósito de o comprometer; por isso terá usado a advogada com ligações ao seu aparelho político Natalia Veselnitskaya para atrair o pouco inteligente Donald Trump, Jr. a uma reunião comprometedora, sabendo que o pobre rapaz não teria o juízo necessário para avisar imediatamente o FBI em vez de se deixar manipular por velhas tácticas da espionagem russa.

Sabendo tudo isto, por muito compreensível que seja o desejo de Trump de melhorar as relações com a Rússia e assim resolver uma série de problemas em que os EUA estão envolvidos, é difícil perceber como o Presidente dos EUA não se apercebe de que os esforços nesse sentido, por muito sinceros que possam ser, são fúteis e contraproducentes. E perante isto, só restam duas hipóteses: ou Trump está conscientemente – seja por que razão for – a colaborar activamente com o Kremlin para “tornar a Rússia grande de novo” e fortalecer o Urso russo, ou – perdoe-se o plebeísmo – está a fazer figura de “urso”. Estando familiarizado com as declarações públicas e a acção do senhor, inclino-me para a segunda, mas nunca se sabe.

Anúncios

7 thoughts on “O Urso e o “urso”

  1. o bruno já tem demasiado investimento emocional e ego em que o trump ia perder as eleições, meses e meses a gozar e depois o homem ganha? “terei feito figura de parvo estes meses todos? não claro que não!” custa menos ir vivendo numa realidade alternativa em vez de encarar a realidade, vão ser mais 7 anos e 6 meses assim bruno?

  2. Os Oligarques precisam de lavagem de dinheiro e aí acharam um belo negocio en comprarem apartamentos na torre de o Senhor Trump. E agora o filho Trump Jr foice encontrar com uma advogada Russa, que ele percebeu tere informação sobe a Sr Hilária, mas quando foi apanhado, disse que tiveram a falar em os Americanos poderem adaptar criancas, Sim Os Estados Unidos Estão a Ficar Órfãos.Oligarque na forma Americana. O melhor La Coisa Nostra…

  3. The Westphalian Post

    O desespero e o fanatismo resultam nisto: nada mais que insultos incoerentes e muita, mas mesmo muita, dor de cotovelo.

    Propaganda 1: ” anunciaram um cessar-fogo na Síria (a juntar aos muitos outros que já foram anunciados e que a Rússia e o regime sírio aproveitam para preparar ataques à oposição síria mas que, curiosamente, deixam o ISIS a salvo, quando não o ajudam),”

    No mínimo os cessar-fogo são violados por ambas as partes: não foi o regime Sírio que fez explodir autocarros cheios de crianças numa troca de populações isoladas previamente negociada entre as partes em conflito, foram os maravilhosos rebeldes Sírios, quais combatentes pela liberdade.
    Lembram-se do alegado ataque químico? O que os nossos jornalistas mainstream se esqueceram de dizer foi que essa frente de guerra (Hama) apenas estava activa porque os rebeldes baseados em Idlib (AlQaeda) aproveitaram a trégua que havia permitido ao regime deslocar meios de combate para as frentes com o Estado Islamico, para tentarem estabelecer uma ligação entre Idlib e Hama.

    De momento, o regime Sírio combate o ISIS em três frentes: na província de Alepo, a leste de Palmira e nos desertos a leste de Homs.

    Propaganda 2: “não compreender que uma reaproximação entre a Rússia e os EUA não é possível nem desejável, porque os interesses do regime de Putin não são conciliáveis com os interesses de um país democrático e aberto ao resto do mundo.”

    O Ocidente já coopera com a Rússia em várias matérias. É graças à Rússia que a NATO consegue reabastacer as tropas no Afeganistão sem ser chantageada pelo Paquistão, a Rússia avisou os EUA para o perigo dos bombistas de Boston, a Rússia tem feito significativamente mais para destruir o ISIS do que o ocidente que não só vê as armas e o dinheiro com os quais abastece os ‘freedom-fighters’ Sírios, serem surripiadas para o ISIS mas bombardeia o regime Sírio quando este combate o ISIS em várias frentes.

    A Rússia recebe mais elogios ao nivel da liberdade economica que muitos países democraticos ocidentais e penso que democracias como o Brasil ou India ficariam muito surpreendidos por saberem que não é possivel cooperar com a Rússia de Putin. Muito pelo contrário, enquanto o Ocidente ataca interesses Russos por toda a Europa de leste, mais ninguem no resto do mundo se quis envolver na questão Ucraniana e afins. Claro que são os Russos que estão isolados, não nós…

    Propaganda 3: “precisam de um Médio Oriente instável, para que o preço do petróleo seja o mais alto possível para que os seus rendimentos, muito dependentes do sector energético, não sejam muito afectados, e daí a promoção da perpetuação da guerra civil na Síria.”

    Curiosamente, não foi a Rússia que promoveu mudanças de regime na região ou que saudou a Primavera Árabe que tanta instabilidade trouxe. Fomos nós… mas claramente culpem os Russos quando tentam preservar um dos poucos parceiros regionais com que contam…

    Propaganda 4: http://www.businessinsider.com/evidence-russia-meddled-in-us-election-2017-6

    O artigo indicado não só se limita a fazer alegações sem qualquer prova factual como ignora que no mesmo testemunho de Comey, o próprio admitiu que não fazia ideia de qualquer conspiração entre Trump e a Rússia, para além do que lia na imprensa.
    Nada foi apresentado até agora e ninguém foi sequer legalmente indiciado de qualquer ilegalidade.
    Por outro lado, Comey cometeu um crime e as associadas de Obama Susan Rice e Loretta Lynch estão sob investigação, por divulgarem facciosamente, informação privilegiada sobre comunicações governamentais.

    Propaganda 5: “promover um candidato com um longo historial de negócios duvidosos com indivíduos ligados à máfia russa, que colocou na estrutura da sua campanha gente com um passado de ligações ao Kremlin (Paul Manafort, Michael Flynn, e Carter Page), e que veio publicamente pedir à Rússia que interceptasse e divulgasse os emails de Clinton.”

    E os acessores dos Clinton (como Podesta) com o mesmo tipo de “negócios duvidosos” com a Russia? Esses também contam como prova de conluio?… Pois, se calhar já não portanto xiu, não se fala disso.

    Trump fez uma piada na qual ironizava que às tantas, até era boa ideia que a Rússia revelasse os podres da corrupção do partido democrata. Isto para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não é um pedido para que a Rússia interfira nas eleições Americanas. Mas claro que para absurdos pueris, não há contra-argumento que valha.

    Propaganda 6: o governo Russo não pode fazer lobby nas instituições Americanas, mas as “máfias” da Europa de leste e do Médio Oriente já podem…
    Aliás, o pedestal da Utopia maravilhosa que é a América até subverter governos estrangeiros pode, mas claro que não a Rússia. A Rússia é o império do mal…

    Isto não é um blog liberal? É que não sei se repararam que a Rússia tem menos dívida pública e menos intervencionismo militar que os países ocidentais… details, details…

  4. Holonist

    Epa, volta para o buraco, mete a viola no saco e ja agora leva a outra contigo. O teu colega ainda demonstrou cordialidade, tu apenas demonstras a falta de cerebro e a fdputice.

  5. Koimbra

    Adoro ver a versão “insurgente” do que se passa na política americana. O Ricardo lança o foguete e vai logo o Bruno apanhar as canas. Só falta pegar no famoso vídeo WWE e trocar a cara do trump pela do Ricardo e a da CNN pela Bruno! É como a Maria João Marques escreve: toureado!

  6. estava aqui a ver, o insurgente tem aqui uma caixa do twitter com os autores – fui ao twitter do bruno e contei as suas últimas 30 publicações, 20 eram sobre o trump, isto é muito triste.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s