A tragédia e a responsabilidade política da geringonça

Morrer entre brutos é triste, a crónica de Alberto Gonçalves no Observador.

(…)  Numa proeza sem grandes precedentes na cronologia do servilismo ocidental, um diário de rever…, perdão, referência, mobilizou todo o corpo de colunistas para atribuir Pedrógão Grande à desdita, à conspiração dos elementos e – segurem-se – ao “fogo que voa”. É um mero, mesmo que particularmente asqueroso, exemplo. Descontadas as excepções, o tom das “notícias” não tem fugido à produção de prosa “poética” e sentimento. Em contrapartida, foge a oito pés na hora de escrutinar o poder. Editoriais espanhóis decretam o fim da carreira do primeiro-ministro, mas ignoram que o repórter português médio permite que o excelentíssimo espécime coloque as perguntas que quer em lugar de responder às que não quer. Mal habituados, jornalistas a sério não concebem que o jornalismo a brincar colabore com estadistas de trazer por casa em sinistras encenações de compaixão. Aliás, o jornalismo a brincar também não concebe o seu oposto: um colunista do “El Mundo”, crítico das nossas desgraças, anda a ser investigado pelos colegas de cá, abismados com o desplante.

Em nações menos exóticas, haveria quem expusesse o talento do dr. Costa, de certos amigos do dr. Costa e de outras personalidades admiráveis no “investimento” de milhões em comunicações que não comunicam e em helicópteros que não descolam. E quem fosse directa ou indirectamente responsabilizado pelas famílias encurraladas e carbonizadas em plena estrada, que se apelida “da morte” para efeito “dramático”. E quem denunciasse as mentiras cometidas por figuras ditas de relevo a partir do ponto em que a quantidade de cadáveres era demasiada para continuar a adiar a divulgação. E quem, acima dos estropícios que entopem a Administração Interna, explicasse em língua de gente a recusa dos bombeiros galegos. E quem lembrasse que é tão fácil quanto inútil ganhar campeonatos de futebol, festivais de cantigas e incumbências na ONU: difícil é ganhar vergonha na cara.

Nações menos infantis não descansariam até varrer os demagogos que celebram glórias imaginárias e fintam as desgraças autênticas. Portugal, não. Portugal respeita os mortos, leia-se espera que os vivos não perturbem a “estabilidade”. Portugal observa prioridades, leia-se deixa arrefecer o assunto. Portugal não cede à baixa política, leia-se permite a impunidade geral. Portugal está unido, leia-se criou-se um ambiente hostil a questões desagradáveis. Portugal, repete-se, é uma nação muito forte, leia-se um recreio de oportunistas, desnorteados ao primeiro assomo da realidade. (…)

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