Reles é não fazer perguntas e não apontar responsabilidades só porque o governo é socialista

Enquanto os indícios de negligência se amontoam – na reação ao fogo do fim de semana (as autoridades mandaram pessoas para a estrada onde acabaram por quase morrer, bombeiros não foram enviados a tempo,…) e na prevenção (nem sei por onde começar; é ler por exemplo isto e isto; ou questionar onde se escolheu gastar dinheiro, nos últimos anos, tanto na administração central como nas autarquias) – e que perguntas curiosas estão sem resposta – porque houve informação tardia? porque não há no IPMA registo de trovoada seca naquela zona? -, simultaneamente avançam os esforços de branqueamento político antecipado do governo e do PS na responsabilidade política da catástrofe.

A narrativa parece ser ‘é obsceno para a memória das vítimas estar-se a fazer política com as mortes’. Ora vão dar uma volta ao inferno, para não dizer pior. Os governantes e políticos eleitos e jornalistas não perderam ninguém no fogo, pelo que mantêm as capacidades – e a obrigação – de não se fingirem paralisados com tanta dor. Já vários apontaram as diferenças com a tragédia também pelo fogo da torre de apartamentos de Londres. Não passou pela cabeça de ninguém em Inglaterra pedir para não colocarem os conservadores (centrais e da autarquia daquela zona de Kensington) no hot spot de quem tem respostas a dar para não desonrar a memória das vítimas. Na Alemanha, depois do atentado de Natal, imediatamente Angela Merkel foi criticada pela sua política de refugiados. Ingleses e alemães são uns papalvos que não sabem viver em democracia. Por cá temos todos de ficar bem caladinhos, com as luminárias putrefactas do regime a verterem moralismos sobre quem quer responsabilidades apuradas. Entendamo-nos: o que esta gente ruim pretende é agora impor o silêncio sobre responsabilidades socialistas, instituir a ridícula responsabilidade única da natureza e, mais tarde, fazer uma comissão de inquérito de fantochada, como a CGD, para branquear oficialmente a sua área política. E isto, sim, é que é gargalhar sobre as mortes ocorridas.

Lamento, não participo nisto. Morrerram 60 pessoas. Temos um governo em funções, quase a meio do mandato. O ministro da agricultura atual foi também o ministro da agricultura de sócrates, pelo que sacudir responsabilidades é inútil. E como esta questão de prevenção de incêndios não é conjuntural de uma legislatura, vale a pena lembrar que, nos últimos 22 anos, o PS governou 16 deles.

Lamento, mas o maior responsável pela tremenda negligência que matou este fim de semana 60 pessoas é tão ostensivamente evidente como um elefante no meio de uma sala. Os pormenores do que correu mal poderão – se tivermos muita sorte desta vez – virem a ser escalpelizados, e o Ministério Público verá se algum crime ocorreu. Mas a responsabilidade política, meus caros, neste caso não pode ser posta debaixo do tapete em nome de um hipócrita respeito pelas vítimas e um real branqueamento do PS. É criminoso branquear isso só porque se trata do partido amiguinho. Os familiares dos que morreram, e os mortos, merecem exatamente o contrário: intransigência em não deixar fugir quem permanentemente olhou para o lado. Ah, e quanto mais se esforçam por calar exigências de responsabilidades, mais ideia dão de que muito têm a temer.

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7 thoughts on “Reles é não fazer perguntas e não apontar responsabilidades só porque o governo é socialista

  1. Vamos então assistir a um festival de coisas reles. Nada novo, o costume, sacudir a água do capote. O PS tem uma longa tradição nisso.
    Por agora, nas redes sociais já começou o branqueamento da ocorrência – já se disseram barbaridades do género “as vítimas é que tiveram culpa de estar ali”. E espero pior.

  2. Jan

    Que a esquerda lava mais branco já sabíamos, agora ficamos a saber que também lava manchas de sangue …

  3. JP-A

    Dervich,

    Diga lá ao seu amigo Manuel Cardoso que rabiscou o texto que a PGR já abriu um inquérito-crime. Dava um enorme jeito ninguém falar, não é? Já sobre os factos, nada.

  4. Gabriel Orfao Goncalves

    h t t p : / /
    expresso.sapo.pt/sociedade/2017-06-18-Estaremos-condenados-a-ver-as-tragedias-repetirem-se-

    de que destaco

    «…este fim-de-semana boa parte da rede de comunicações de emergência falhou no momento mais crítico porque o SIRESP (parceria público-privada que gere a Rede Nacional de Emergência e Segurança) depende em parte de antenas e estas (tal como as dos telemóveis) podem arder e arderam de facto.»

  5. Gabriel Orfao Goncalves

    h t t p s : / /
    sol.sapo.pt/artigo/568580/governo-alertado-para-ameaca-de-inc-ndios-de-risco-elevado-desde-maio

    A Catarina e a Mortágua faleceram ou estão desaparecidas?

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