A revolução Macron

“Notre Histoire a fait de nous des enfants de l’État, et non du droit, comme aux États-Unis, ou du commerce maritime, comme en Anglaterre. C’est à la fois un bel héritage et un héritage dangereux.”
Emmanuel Macron, Révolution, p. 48.

Sem que seja surpresa Macron cilindrou o partidos tradicionais franceses. Primeiro, nas presidenciais e agora nas legislativas. 359 dos deputados (em 557) é obra; e significativo.

Mas não tenhamos ilusões que a França não mudou. O seu novo presidente é mais estruturado, mais hábil, mais ousado (e prudente) que os dois anteriores; é mais liberal, no sentido de querer abrir a França à mundialização (como eles dizem), do que qualquer dos anteriores presidentes, mas a França, na sua essência, não mudou.

Macron vai através do Estado forçar a França a entrar no século XXI. Não é a primeira vez que um chefe de Estado francês moderniza a França desta forma. Não será a última. O que assistiremos nos próximos anos será a uma série de reformas do funcionamento do Estado, das leis do Estado, para que dentro da esfera do Estado, franceses e estrangeiros possam negociar o mais livremente possível em prol desse mesmo Estado.

Este o liberalismo francês, republicano e centralista, porque a modernização da França, nomeadamente a descentralização do ensino, será traçada a régua a esquadro a partir de Paris, não é aquele a que associamos quando falamos de Reagan e Thatcher. Aliás, e porque a política vive muito de símbolos, a caminhada de Macron, depois de eleito, o homem só ladeando a pirâmide do Louvre enquanto se prepara para discursar ao povo, é a imagem do homem de Estado que se quer forte, imperioso (o Le Monde qualificou o primeiro mês do mandato de Macron como ‘impérieuse’), em contraponto com a hiper-presidência de Sarkozy e a presidência normal de Hollande. Ser presidente da França não tem nada de normal: há formalismo, há dignidade, há que presidir a um Estado que sustenta um país e um povo. Com Macron, a banalização do cargo não terá lugar.

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One thought on “A revolução Macron

  1. “Este o liberalismo francês, republicano e centralista, porque a modernização da França, nomeadamente a descentralização do ensino, será traçada a régua a esquadro a partir de Paris, não é aquele a que associamos quando falamos de Reagan e Thatcher.”

    Não é o de Reagan (que até usava o discurso dos “direitos dos Estados”), seguramente; mas será assim tão diferente do de Thatcher, que tenho a ideia que também foi relativamente centralizadora (privilegiando o governo central face aos locais – veja-se o caso da dissolução do governo local de Londres)? Tenho a ideia de há uns anos atrás (se calhar há mais de 20), o João Carlos Espada ter escrito qualquer coisa sobre isso (dizendo que mudanças radicais favorecem sempre a centralização mesmo quando o objetivo não é esse, e dando como exemplo a Thatcher, cuja “revolução”, ainda que feita para reduzir o peso do estado, teria levado à centralização atingir níveis sem precedentes).

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