Sobre a tomada do Popular pelo Santander

Brevíssimos pontos de reflexão:

  1. Mais uma vez, fica patente a orientação do BCE (que, através do mecanismo único de supervisão, “ditou e orquestrou” a operação) em promover a concentração bancária e fazê-lo através de players conhecidos e de grande dimensão europeia.
  2. A concentração bancária que resulta desta operação é notável, sobretudo em Espanha onde o Santander fica com 25% da quota de mercado do crédito a PME. No global, o Santander passa a ser o maior banco ibérico com 21 milhões de clientes.
  3. A falta de transparência desta quase resolução é evidente, sendo altamente questionável a expropriação preemptiva (e sem possibilidade de ofertas concorrentes*) de que são alvos os accionistas e obrigacionistas júniores do Popular.
  4. Apesar de tudo, e contrariamente ao que sucedeu em Portugal ao longo dos anos, esta (quase) resolução do Popular não envolve nem dinheiro nem garantia pública do Estado espanhol. É o ponto a destacar. A Espanha é a Espanha.
  5. Ou seja, este modelo tem como vantagens a possibilidade de se evitar o recurso a fundos públicos e defende os depositantes. Como desvantagens, tem a cedência aos interesses dos grandes operadores e o fomento de bancos “(really) too big to fail”.

 

Actualização 22h30 (*) : Segundo leio no FT, parece que o BCE deu 24 horas a um conjunto de 30 potenciais interessados (não identificadas na dita peça) para apresentarem propostas pelo Popular. A proposta do Santander, que acabou por prevalecer, foi entregue às 6h00 e o acordo de compra do Popular terá sido assinado uma hora depois às 7h00. Porém, é de questionar: quantos bancos, entre esses alegados 30 “convidados” do BCE, estariam em condições de fazer uma proposta vinculativa em 24 horas?

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6 thoughts on “Sobre a tomada do Popular pelo Santander

  1. Luís Lavoura

    promover a concentração bancária e fazê-lo através de players conhecidos e de grande dimensão europeia

    A mim parece-me que esta é de facto a política correta, se queremos ter bancos europeus que equilibrem, dentro de si mesmos, a transferências de recursos financeiros de umas partes para outras partes da Zona Euro.
    Ou seja, em vez de termos o modelo em que bancos alemães emprestam dinheiro a bancos portugueses, passaremos a ter um modelo em que grandes bancos trans-europeus transferem dinheiro, dentro do mesmo banco, de aforadores germânicos para portugueses carentes de empréstimos.
    E este novo modelo é bom, porque no total menos empréstimos serão concedidos e menos dívida existirá.

  2. Anticapitalista

    Mais nada, ó senhor Lavoura, e viva a democracia em liberdade.
    Pobre Zépovinho que não te deixam abrir os olhos!…
    Miseráveis, de espírito, estes vendilhões do templo, estes pafistas pafiosos lusos!…

  3. Luís Lavoura

    a expropriação preemptiva de que são alvos os accionistas e obrigacionistas júniores do Popular

    Bem, se está firmemente estabelecido que o Popular faliria, então esses acionistas e obrigacionistas perderam exatamente tanto como teriam perdido caso nada tivesse sido feito.

    Ou seja, o Popular, se estava falido, então jamais pagaria as suas obrigações, e o seu valor acionista era zero. Portanto, não houve expropriação nenhuma; oa acionistas e obrigacionistas nada receberiam de qualquer forma.

  4. Luís Lavoura

    contrariamente ao que sucedeu em Portugal ao longo dos anos, esta (quase) resolução do Popular não envolve nem dinheiro nem garantia pública do Estado espanhol. É o ponto a destacar. A Espanha é a Espanha.

    O ponto crucial é que em Espanha existe o Banco Santander, o qual tem grande capacidade de pedir aos seus acionistas mais dinheiro para com esse dinheiro “limpar” o Banco Popular. Em Portugal não há nenhum banco com essa capacidade. É por isso que em Portugal teve que ser o contribuinte a limpar a merda, em Espanha não. Em Espanha o Banco Popular é entregue ao Santander e os acionistas do Santander encarregam-se de dar ao banco mais capital para que este possa limpar a merda provinda do Popular.

  5. jo

    “Ou seja, este modelo tem como vantagens a possibilidade de se evitar o recurso a fundos públicos e defende os depositantes.”

    A frase devia entrar na lista da treta das tretas antes da frase: “se não comes vem aí o homem do saco”.

    Quantas vezes ouvimos isto? E quantas vezes foi verdade?

  6. AB

    Em Portugal estão a querer limpar a merda do Montepio com os dinheiros da SCML. Realmente Espanha é Espanha. E Portugal é Portugal.
    Independentemente do possível arranjinho entre o BCE e o Santander, desde quando as soluções à portuguesa são boas? Por cá vão arrastando os processos e acumulando os prejuízos. E o Estado vai ao bolso de todos para pagar indemnizações, garantias, comissões de venda, grupos de trabalho, e sei lá o que mais. E depois reverte-se.
    Os espanhóis devem ter observado as nossas “resoluções” e tirado notas de como não se faz.

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