É a cantar que nos entendemos

Portugal: doze pontos, a crónica de Alberto Gonçalves no Observador.

Durante décadas, os portugueses desprezaram o Festival da Eurovisão sob dois pretextos: a) os arranjinhos “regionais” influenciavam a votação da coisa, pelo que era impossível ganhar; b) a coisa não passava de um desfile de futilidades primitivas, pelo que seria vergonhoso ganhar. De repente, uma vitória do representante português anulou ambos os constrangimentos – nas cabeças dos que festejaram tamanho avanço civilizacional. No mundo real, claro que a Eurovisão está para a música como o restaurante do Barbas está para a literatura ou o clã Mortágua para a economia. Mas bastou o reconhecimento desta nação valente para que, entre nós, aquilo adquirisse o prestígio de Bayreuth ou, vá lá, do Piquenicão, reviravolta que nada diz acerca do valor do festival e diz bastante acerca dos valores dos portugueses. (…)

Durante décadas, os portugueses desprezaram o Festival da Eurovisão sob dois pretextos: a) os arranjinhos “regionais” influenciavam a votação da coisa, pelo que era impossível ganhar; b) a coisa não passava de um desfile de futilidades primitivas, pelo que seria vergonhoso ganhar. De repente, uma vitória do representante português anulou ambos os constrangimentos – nas cabeças dos que festejaram tamanho avanço civilizacional. No mundo real, claro que a Eurovisão está para a música como o restaurante do Barbas está para a literatura ou o clã Mortágua para a economia. Mas bastou o reconhecimento desta nação valente para que, entre nós, aquilo adquirisse o prestígio de Bayreuth ou, vá lá, do Piquenicão, reviravolta que nada diz acerca do valor do festival e diz bastante acerca dos valores dos portugueses. (…)

 

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6 thoughts on “É a cantar que nos entendemos

  1. O pessoal, que não tem pauta própria, toca conforme a música que está a dar. Num país pobre de afirmação, a muitos níveis, qualquer pequeno êxito, cria um clima de exaltação. Depois, quando acordam da excitação, volta tudo à mesma sonolência. É o nosso país, é o nosso fado, é o que somos. Como tudo se mede por escalas, alguns estão no topo outros na base. É a vidinha portuga.

  2. Quando salvador afirmou que não se tinham apercebido que tinham ganho e queo sistema de vvotação para ser compreendido carecia de uma especialização matemática carectizou na pperfeição os jovens portugueses que integram a ggeração mais bem preparada de sempre, quiçá das novas oportunidades 44.dito isto continuo a pensar que estamos mal enterrados!

  3. AB

    Quem desdenha quer comprar. É um ditado que se aplica bem nesta situação.
    Mas há coisas boas nesta vitória, desde logo o facto de sabermos, ao fim de tanto tempo, que podemos vencer – lamento, Dulce Pontes, Carlos do Carmo, Fernando Tordo (e etc.), mas não era complô, vocês não prestam.
    E depois esta vitória é mais uma prova do falhanço das políticas austeritárias de Passos Coelho, e fruto do virar de página do governo PS.
    Diria que estou contente pelos músicos portugueses, mas na realidade quero que vão morrer longe, porque cada vez que compro uma pen estão-me a roubar um imposto.

  4. mariofig

    É difícil dissociar Carlos Gonçalves dos textos de Carlos Gonçalves. O homem emprestou por completo a sua personalidade ao que escreve e isso faz dele um poeta da prosa. Ele é sem dúvida “A Voz” de um Portugal escondido que há muito se deseja soltar, mas por falta de referências, se mantém silencioso.

    Não gosto de de elevar a figura à sua obra. Sempre mantive um definitivo sentimento de nojo pelo culto da personalidade. Acredito que uma das grandes características da humanidade é a sua capacidade criativa. Portanto de gerar algo que o transcende. A obra é sempre maior do que o homem. Portanto, falar assim de forma elevada de Carlos Gonçalves num texto do próprio, incomoda-me. Mas existe tanta sede de mais homens e mulheres como ele neste país, que não se consegue evitar o erro de elevar a figura face à sua obra.

    Carlos Gonçalves não ganharia nunca o festival da canção, caso ele fosse falado em vez de cantado (de certo nem sequer concorreria), porque ninguém o entenderia. Entendem os Salvadores Sobral; pueris festivaleiros de composição e melodia fáceis e consensuais. Já a canção de Carlos Gonçalves está a outro nível; o dos nichos musicais de onde muitas vezes surgem os grandes nomes da música que inspiram outros e quer perduram no tempo e na memória colectiva.

    Não será portanto o Homem que quer despertar consciências, que se atira contra o consenso e que oferece novas formas de pensar, o poeta, o filósofo, o trabalhador. Não será esse Homem que dentro de dias será agraciado com mais uma condecoração em forma de pastel de nata de sua excelência o Presidente da República. Não. Será honrado o Homem que calhou ter nascido com a correcta organização de músculos vocais e a Mulher que lhe emprestou uma letra que todos os bons alunos do 9º Ano de Escolaridade já um dia escreveram ao seu amado ou amada.

  5. mariofig

    Alberto. As minhas desculpas. Escrevi o acima sob o efeito de uma valente dose de psicadélicos.

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