O milagre

A minha crónica no ‘i’.

O milagre

De acordo com o INE, a economia portuguesa cresceu 2,8% no 1.o trimestre deste ano. Foi o melhor trimestre desde 2010. Enquanto a esquerda rejubila, a direita vacila. Afinal, António Costa conseguiu. Mas conseguiu o quê? Reduzir a dívida pública? Não: esta continua a aumentar, o que significa que o país está mais pobre. Aplicar o programa de governo que apresentou às eleições de 2015? Não: tirando a distribuição de benesses pelo seu eleitorado tradicional, o PS limita-se a seguir a receita do anterior governo: impostos altos enquanto espera pelas exportações.

Conseguiu António Costa reformar o Estado, o mantra que todos, da esquerda à direita, nos disseram ser indispensável e que de repente esqueceram? Não: este governo não apresentou nenhuma reforma, limitando-se a um exercício de gestão pública. Imaginemos um barco cheio de buracos que, num período de acalmia em pleno mar alto, não faz reparações, convencendo-se de que está tudo bem porque o vento corre de feição.

Bem sei que é aborrecido ser desmancha-prazeres, mas eu gosto de viver de cabeça levantada. Podemos convencer-nos de que, num passe de magia, tudo se resolveu. E sem que se tenha feito nada. É verdade que o Papa foi a Fátima no dia em que o Benfica venceu o tetra e Portugal ganhou a Eurovisão, mas a nossa inteligência, o nosso discernimento ainda consegue impor limites.

A liberdade de consciência, que está em não nos deixarmos levar pela propaganda, é o que nos dá força para servir o país quando os optimistas o abandonarem.

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5 thoughts on “O milagre

  1. Manuel Assis Teixeira

    Já não há hipotese! O governo tem montada uma operaçao de promoção e propaganda de tal maneira forte que é já impossível contestar e dizer a verdade sobre os números! Corre-se o risco de se ser apelidado de traidor. Parabens ao Dr Costa! Conseguiu mais do que governar bem o que está totalmente por provar, montar uma imensa operaçao de propaganda. Até os seus ministros devem estar surprendidos e a pensar: Mas nós nada fizemos como é que isto pode estar a acontecer? O mais surpreendido é o ministro da economia que para alem de dizer umas banalidades nada fez! Claro que a conjuntura ajudou e muito. O Turismo, o crescimento da Europa que muito ajudam as exportaçoes e a continuaçao da politica do BCE. E até o sr presidente lá fora ajuda, avançando com numeros de crescimento estratosfericos para a actual realidade! Onde os foi buscar. Não o diz nem sabemos! O que sabemos é que Marcelo está totalmente ao lado do governo e não para de elogiar! Já perdeu a independencia e equidestancia que devia ter! O que acontecerá se as coisas mudarem ou não forem bem assim? O que é que vai dizer ao país? Não sei! Vivemos tempos politicamente muito estranhos!

  2. mariofig

    O problema que se coloca é o seguinte: Como contrariar politicamente o discurso do governo? Por outras palavras, como apresentar a realidade do país de uma forma que não seja automática e facilmente desprezada como um apelo ao pessimismo?

    Pergunto portanto, onde está o governo sombra do PSD ou PSD/CDS?

    É certo que Passos Coelho enfrenta uma crise interna criada pelos históricos abutres daquele partido. E isso dificulta sempre — e de que maneira — a acção de oposição ao governo. Pode-se mesmo agradecer à ala socialista do PSD uma grande fatia do sucesso propagandista do PS, a começar pelo próprio presidente da república, o reconhecido prof. marcelo (que vai com letra pequenina, por que não poderia ser de outra forma). Mas ainda assim, chegados que estamos a meados de 2017, não se poderá negar que parte da crítica de inacção que é apontada a Passos Coelho não deixa de ter o seu fundo de razão.

    A mim, o que se torna já evidente é que Passos Coelho não é ainda a grande esperança de liberalização do Partido Social Democrata. Tem as (algumas) ideias no lugar, tem o pensamento virado para a coisa. Mas não é um líder arrojado, com iniciativa, de acção, interventivo. É um papa-açorda molenguão.

  3. Mariofig,

    «A mim, o que se torna já evidente é que Passos Coelho não é ainda a grande esperança de liberalização do Partido Social Democrata. Tem as (algumas) ideias no lugar, tem o pensamento virado para a coisa. Mas não é um líder arrojado, com iniciativa, de acção, interventivo. É um papa-açorda molenguão.»

    Permitindo-me que de si discorde, lembra-se de um senhor que se chamava Platão, um tipo que usava túnicas e que escrevia com uns alfas e uns ómegas?
    Ele falou qualquer coisa de uma caverna, não falou?

    Tenha em atenção que o valor de um homem se conhece mais por quem o odeia e combate do que por quem o diz suportar.

  4. mariofig

    @Francisco, reconheço a analogia e dou-lhe o crédito decido. Mas tal como disse no meu post, a oposição interna a Passos Coelho é uma questão ideológica. Uma que aliás sempre dividiu o partido desde (e durante mesmo) Sá Carneiro.

    Mas não basta olhar-mos para os inimigos de Passos Coelho para sabermos o valor dele. Diz-me quem são os teus inimigos e eu dir-te-ei quem és não responde à pergunta. O valor dele, como actor político, tem também de passar pela sua capacidade para a agressividade e combatividade. Não esquecer que é a ele que compete o esforço de reforma do partido. A sua oposição está sentada no conforto do status-quo.

    E essa falta de capacidade para acção política vê-se também no combate como líder da oposição. O Passos Coelho tem o sex appeal político de uma lesma. Quando fala dá sono. Quando não diz nada, não se dá pela falta.

    Passamos aliás mais tempo a falar de figuras como Costa, Marcelo, Centeno (porra até mesmo dos opositores a Passos Coelho!), do que de Passos Coelho. Quem ele é e o que representa. Tal é a sua capacidade para se tornar invisível. Se você não vê nisto sinais nenhuns de alarme, então lamento informá-lo que a ala liberal do PSD está mesmo pelas ruas da amargura.

  5. Luís Lavoura

    conseguiu o quê? Reduzir a dívida pública? Não: esta continua a aumentar

    Também continuava a aumentar no tempo do governo anterior, e nessa altura, como agora, embandeirava-se em arco com a descida do défice, sem se olhar ao crescimento da dívida.

    Aplicar o programa de governo que apresentou às eleições de 2015? Não

    Passos Coelho não fez nada do programa de governo com que se apresentou às eleições, e ninguém neste blogue se queixou por isso.

    o que nos dá força para servir o país quando os optimistas o abandonarem

    O autor deste post serve o país? Ou tenciona vir a servi-lo? Muito me espanta…

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