Inconsciente ou irresponsável?

A notícia chegou pela manhã como pão quente: o Estado português conseguiu “colocar” 1500 milhões de euros em títulos de dívida pública a 6 e 12 meses a “juros ainda mais negativos” do que os dos empréstimos semelhantes que contraíra recentemente. Incapaz de se controlar, como de costume, o “Prof. Marcelo” correu à procura das equipas de reportagens das televisões, rádios e jornais, e manifestou a sua enorme alegria com a boa-nova. Segundo o Presidente, sempre convencido de que todo e qualquer acontecimento gira em torno da sua magnífica pessoa, este resultado “confirma a viragem de que eu falei (…) na economia portuguesa”, e mostra que “os mercados” estarão “a sentir” a “solidez financeira” e “o crescimento” que actualmente beneficia o país. “Era impensável”, diz Marcelo, que “há um ano, há dois, há três, há quatro, que nós pudéssemos ir recolher dinheiro a seis meses, a um ano, a juros tão negativos”. Ter sido possível fazê-lo, explica o Presidente, “quer dizer que as pessoas ainda pagam para ter dívida pública portuguesa”. E conclui: “isso é bom”.

Ao contrário do que Marcelo diz, não é. Seria, claro, se fosse um sinal de que o país e a sua dívida surgem, aos olhos de quem a compra – ou seja, de quem nos empresta dinheiro – como um bem duradouramente estável e apetecível. Ora, apesar do que as aparências ilusoriamente levarão a crer, nada disso acontece. Pois ao mesmo tempo que os juros dos títulos de dívida pública portuguesa com juros a curto prazo atingem esses valores negativos, os empréstimos que Portugal contrai a longo prazo (a 10 anos, por exemplo) continuam a ter juros acima dos 3%, mais elevados que a maioria dos outros países da zona euro

Como já há muito tempo se percebe, esta disparidade e este aparente paradoxo só têm uma explicação, que não augura nada de bom acerca do que o futuro reserva a todos aqueles que tiveram o azar de nascer – e a imprudência de continuar a viver – em Portugal: num país como o nosso, em que a dívida pública cresce sem cessar e que só através de truques de contabilidade e incumprimento das suas obrigações para com os mais variados credores (escolas, hospitais, prestadores de serviços, etc.) consegue que o valor do défice orçamental seja inferior àquele que “Bruxelas” exige, seria de esperar tudo menos que se conseguisse pedir dinheiro emprestado a taxas de juro negativas. Olhando para o papel do Banco Central Europeu e a sua “política de compra de activos”, vê-se melhor o que se passa: para salvar da bancarrota países com problemas orçamentais como Portugal (ou a Itália, ou a França, ou a Grécia), o BCE adquire títulos de dívida pública (e injecta dinheiro para economia), aumentando de forma artificial a procura desses produtos, tornando-os de forma igualmente artificial menos onerosos para quem tem de pagar os juros pelos empréstimos que eles representam.

Ou seja: o BCE está deliberadamente a criar uma bolha no mercado dos títulos de dívida pública. É essa bolha que explica os juros inacreditavelmente baixos que Portugal paga pelos empréstimos com maturidades mais curtas, e os juros bem mais elevados dos empréstimos com maturidades mais longas: ao mesmo tempo que a existência da bolha faz com que países que de outra forma ficariam sem acesso a esses mercados (como Portugal) neles permaneçam, e a custos irrisórios ou inexistentes, a consciência de que a bolha existe e a expectativa de que mais tarde ou mais cedo ela terá de rebentar fazem com que só com juros relativamente elevados alguém esteja disposto a correr o risco de nos emprestar dinheiro que só teríamos de pagar daqui a 7 ou a 10 anos, altura em que, talvez sem a ajuda do BCE, poderemos não estar em condições de o fazer.

Marcelo, claro, não diz nada disto, como nunca diz o que quer que seja que tenha um mínimo de complexidade, substância, importância ou gravidade. A única questão, à qual não sei responder, é se não o diz por ser um irresponsável que, para agradar a todos os que não gostam de “divisões partidárias” e afagar os inquietos corações de quem está farto de “más notícias”, apaga do seu discurso e da realidade todo e qualquer facto preocupante para os quais deveria alertar o país e os seus cidadãos, ou se não o diz por ser um completo inconsciente, alguém sem a mínima noção da realidade do país, dos problemas que o afectam, e dos perigos que o espreitam, enquanto os seus pobres habitantes sorriem e dão graças aos deuses da sua predilecção pelo Governo que os faz sentir que as dificuldades passaram e pelo Presidente que lhes assegura que “somos os melhores”.

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20 thoughts on “Inconsciente ou irresponsável?

  1. Os dois. Acrescendo indigente e repleto de má fé. Um Português decente que tenha ouvido essas execráveis declarações de Marcelo sente nojo na sua nacionalidade. Pacheco Pereira está enganado, as loca infecta não são as redes sociais, são os jornais ejornalistas que aceitam reproduzir alarvidades como aquelas declarações ainda para mais vindas do presidente da república.

  2. Ter o salário garantido pelo Estado tem este inefável condão de colorir o mundo, dar confiança de que tudo acabará bem, que nada é tão mau assim.

    Junte-se-lhe o apostolado dos afectos e temos o futuro garantido.,,

  3. mariofig

    Palavras sábias: Ter sempre cuidado com o caminho que seguimos. Se não nos desviamos corremos o risco de chegar ao nosso destino.

    Enquanto propositada e deliberadamente a política económica da UE nos continuar a conduzir neste caminho, estarão sempre em conflito por um lado a necessidade de efectuar reformas e por outro lado o estimulo que tal política é para o laxismo governativo.

    A política do BCE sempre se desejou ter sido temporária e há muito terminada. Aos juros baixos e até mesmo negativos, estaria subjacente a execução imediata de reformas estruturais nos países em dificuldades financeiras. Mas como bem se vê de há uns anos para cá, o que está a acontecer é exactamente o oposto. Está a premiar o laxismo governativo, não conduziu a reforma nenhuma excepto no caso espanhol, e enredou-se a si mesma num ciclo vicioso em que a falta de reformas mantém a crise de dívida pública que por sua vez reforça a necessidade de manter os juros baixos.

    O que Marcelo disse aqui é mais grave para os cidadãos da UE (incluindo os portugueses) do que será se consideramos apenas os próprios Portugueses. Qualquer cidadão Europeu deveria ficar aterrorizado por um representante máximo de uma república Europeia em dificuldades financeiras venha a público dizer que os juros baixos do BCE mostram a confiança em Portugal. Quando na realidade o que eles mostram é que Portugal ainda não se reformou de acordo com o exigido pela UE.

    E deverá também qualquer cidadão da Europa ficar aterrorizado com o facto de que destas declaração do Presidente de uma República Europeia, ninguém na UE se pronunciará firmemente de uma forma dura e acusatória contra Portugal.

  4. Manuel Assis Teixeira

    Em relaçao ao Prof Marcelo Rebelo de Sousa Exmo Presidente da República Portuguesa apenas consigo escrever e pensar:
    QUE GRANDE DESILUSÃO

  5. De um tópico anterior do Bruno Alves:

    > «Marcelo Rebelo de Sousa descrito no “Livro de Curso” dos finalistas do Liceu Pedro Nunes, no ano lectivo 1965/66.»:

    E eis-nos enfim chegados,
    A esta promessa eminente,
    Faz “gaffes”, faz disparates
    E anda sempre contente…

    [https://waa.ai/z4Rn]

  6. Ricciardi

    A função do banco central é essa. Não cria bolha alguma. Evita uma crise, como evidentemente evitou. E devia ter ido mais longe, ao estilo americano. Se o tivesse feito a Europa teria saído da crise bem mais cedo.
    .
    De notar que as compras do bce no mercado secundário têm vindo a reduzir substancialmente e, espante-mo-nos, as yields a 10 anos tem também vindo a baixar. No espaço de um mês as taxas a 10 anos baixaram de 4,2% para 3,1%.
    .
    As taxas a longo prazo não baixam mais, para os níveis italianos, ou mesmo espanhóis, enquanto as agências de rating não tirarem a notação de lixo ao país. Quando o fizerem várias instituições e fundos voltarão a comprar papel soberano.
    .
    Marcelo tem sido um excelente presidente, promotor da confiança devida. E tem razão no que disse no artigo. Aliás, não tem razão, é apenas uma evidência.
    .
    Rb

  7. Ricciardi

    O efeito bce nas taxas de juro foi forte durante o período do anterior governo. Nessa altura iniciaram as compras (2012) em crescendo sem haver uma definição concreta do termo do programa de compra de activos. Isso sim, sossegou os investidores, forçando as taxas a baixar. Nesse período de forte recessão económica e fraca no anos imediatamente a seguir, desvios nos objectivos do défice profundos e desvios graves no endividamento, dizia, nessa altura o bce foi fundamental para não deixar as taxas dispararem.
    .
    Nos dias de hoje nada disso acontece. A economia está pujante. Os objectivos do défice mais do cumpridos o que levará a cumprir os objectivos de redução da dívida e, mais do que tudo, os investidores percebem que o governo está atento e activo na resolução do sistema bancário.
    .
    A seu tempo, eu espero ainda este ano, as agências de rating melhorarão a notação é, com ela melhor, taxas mais baixas virão.
    .
    Falta resolver um problema de fundo do país. O sistema de pensões. E não será com este governo que se passará para um sistema de capitalização individual, infelizmente.
    .
    Mas também não será com os pafianos.
    .
    O psd quer resolver o sistema de pensões cortando nas pensões. O ps quer resolver lançando impostos. Ambos errados.
    .
    Rb

  8. DUPLA TEATRAL
    Eles temem-se tanto mutuamente, que em público para evitar melindres, se apresentam mascarados de uma colaboração de excelência, mas deixam transparecer em cada traque a concorrência feroz em que se debatem.
    Presidente carro vassoura arrebanhando tudo á sua passagem acabará eleito o supremo dos mendigos. Com tantas esquinas e cantos que frequenta ainda lhe sobra tempo para distribuir refeições aos colegas de infortúnio mais necessitados.
    O nosso primeiro escalado á margem da tabela de serviço consegue gerar em tão pouco tempo amostras de um rancho que de tão recheado até pode resultar em indigestões incontroláveis. Deve ter andado a rasgar almofadas na arrecadação, enquanto se atira à página codificada da austeridade.
    Convém que reparemos no histórico crescimento da economia que antecedeu o plano B da bancarrota do Zé de Matosinhos.

  9. mariofig

    Ricciardi. Espero que se mantenha pelo Insurgente durante o próximo ano ou dois. Depois falamos. Não fuja.

  10. O Ricciardi é bipolar. Em alguns blogues comporta-se como um nefelibata. Noutros como um filisteu. Assiste a sucessivas bancarrotas com um saco de pipocas na mão. Desconhece-se se actua a soldo da central de spin dos partidos social-comunistas que se apoderaram do estado.

  11. mariofig

    Carlos Gonçalves, um valente abraço! GRANDE texto, seguido da imagem com mais graça que vi nos últimos tempos. Ainda me estou a rir!

    … com o que, convenhamos, deveria ser para chorar.

  12. Ricciardi

    Mario Fig,

    https://blog.bankinter.com/economia/-/noticia/2016/8/24/previsiones-pib-espana

    Ao contrário do que diz lá atrás, Espanha tem crescido com um forte contributo da procura interna. Mais, se Espanha tivesse feito as taís reformas que vexa diz ter feito, o resultado no défice deveria ser melhor, ou não? É que Espanha tem um défice bastante superior ao português. Talvez por isso também cresce mais, embora tenha mais espaço para produzir défices do que portugal já que tem menor endividamento. Por outro lado Espanha, ao contrário de Portugal, centrou a intervenção externa no setor mais vulnerável e promotor de confiança e investimento: a banca. Portugal fez o oposto. Marimbou-se para a banca com os resultados que vemos.
    .
    Portugal cresceu bastante, reduziu o défice, num quadro saudável de não o ter feito recorrendo a endividamento externo.
    .
    Crescer sem agravar as contas externas é o paraíso na terra que não me lembro de ter sido alcançado nos últimos, say, 20 anos.
    .
    Cá estaremos para viver o futuro. Por enquanto a inversão da confiança, o aumento incrível nas exportações (nunca visto há dois meses consecutivos) e no turismo, a redução substancial no malparado, são indicadores positivos.
    .
    Rb

  13. O caminho da desgraça está traçado. julgo que neste momento já ninguém tem dúvidas que antónio costa é um aldrabão.

  14. Ricciardi,

    Quer dizer, graças à “geringonça”, apesar das condições condições externas mais favoráveis, o pais perdeu quase 2 anos na recuperação do crescimento do Pib (que só agora chegou aos niveis que já se verificavam no primeiro semestre de 2015 … mas há quem sustente que é meramente conjuntural), na redução do custo do refinanciamento a médio e longo prazo (que duplicou em vez de continuar a descer como no resto da zona euro), nas reformas estruturais (incluindo a do sistema de pensões, que Passos Coelho queria discutir e fazer e o PS não), etc, etc, e o Ricciardi ainda acha que é o “paraiso na terra” e está contentissimo ?!!…

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