Para as pessoas que pensam que a Igreja era a melhor amiga do capitalismo até chegar o mauzão encarnado do Francisco

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Como anda por aí gente muito desmemoriada – e, pelo que leio nas tedes sociais, afogados em fel e azedume de cada vez que lhes referem o Papa Francisco – venho aqui fazer serviço público lembrando algumas coisas dos antecessores de Francisco. Porque há quem, de tantas proclamações de amor a Bento XVI, pareça os socráticos queixando-se da agressividade do processo de ajustamento e fazendo por esquecer a situação herdada pela coligação que a resolveu.

João Paulo II. O senhor que mais parecia papa de uma religião mariana, em vez de uma religião cristã. Que se fartou de escrever contra o capitalismo selvagem. Ah, e que lá por ter trabalhado para desmantelar o comunismo soviético na Europa não hesitou em ser um grande fator de reabilitação de Fidel Castro, que recebeu um muito cordial João Paulo II em Cuba (espero não provocar desmaios em ninguém). E muito bem, que não cabe à Igreja boicotar regimes políticos; há católicos em Cuba e de um Papa espera-se que procure dar conforto espiritual aos crentes, que os guie, não que dê lições de ciência política ou de economia.

E Bento XVI? Bem, não disse tanto mal do capitalismo (um bocadinho menos) porque dizia pouco de quase tudo (preferia estar no meio dos seus livros). Atenção, eu gosto de Bento XVI. Aprecia de discussões intelectuais, tem sentido estético apurado, partilha comigo o gosto por sapatos Prada, e claramente esforçava-se por desfazer a sua imagem de rottweiler de João Paulo II. Gosto de Bento XVI sobretudo porque teve a coragem e a dignidade de reconhecer que era escancaradamente desadequado para a função para que foi eleito. Odiava a evangelização – que é, desde Jesus e São Paulo, uma vocação inalianável da tal Igreja universal – e era com evidente sacrifício e timidez que viajava e contactava com as multidões. Foi incapaz – não com cumplicidade ou maldade, mas com negligência – de lidar com os escandândalos dos padres abusadores sexuais. Reconhecidamente não conseguiu parar as máfias do Vaticano. A Igreja estava a tornar-se um ambiente onde a bufaria era um modo de vida,  bem como as vinganças e os ressentimentos pessoais. Acima de tudo, queria tornar a Igreja um grupinho pequeno e manejável, sem caridade ou misericórdia, de gente muito intelectualizada e cumpridora de intermináveis regras que a diferenciasse da populaça entregue aos instintos. Em vez de opção preferencial pelos pobres, havia a obsessão com a moral sexual.

Lamento, mas quem quiser fazer parte de uma coisa destas deve fundar um grupo de gnósticos. A Igreja nunca foi isto e nunca será. Quanto aos ateus e agnósticos adoradores de Bento XVI e que se sentem agredidos por Francisco, acho-os mesmo ridículos. Parecem a Câncio e derivados a botar julgamento em realidades que não compreendem.

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6 thoughts on “Para as pessoas que pensam que a Igreja era a melhor amiga do capitalismo até chegar o mauzão encarnado do Francisco

  1. Lamentável e asquerosa cobardia de titulares de órgãos de soberania que mandando retirar crucifixos das escolas se apressam a ir beijar a mão ao Papa. O que eles querem não são os santos votos do chefe da igreja, mas os votos eleitorais dos seus devotos.

  2. mariofig

    Correcção, em Portugal não se mandaram tirar crucifixos das salas de aula. Não houve debate público, não houve consulta ou auscultação. Não houve decreto-lei. O que houve, foi pior. Uma liberdade que não é cumprida…

    Com a decisão do Tribunal de Estrasburgo que seria ilegal a obrigatoriedade de ter crucifixos nas salas de aula, logo a esquerda fez o spin necessário para transformar essa decisão em “é proibido ter crucifixos em salas de aula”. E foi tudo a reboque de uma interpretação digna de um aluno da 3ª classe.

    Apesar de a lei permitir que sejam as escolas/agrupamentos a decidir se colocam ou não o dito símbolo religioso, estará já em Portugal socialmente enraizado que é proibido. E que se cuide a escola/agrupamento que cumprindo com a lei decida decidir. No que é sem dúvida uma das melhores demonstrações do sentido e da letra do fascismo anti-identitário próprio das esquerdas onde a Ideologia governa acima da Nação/Cultura/Tradição, essa escola será acusada de atentar contra a liberdade religiosa e envergonhada publicamente.

    E, diga-se, muito graças à placidez e abandono de uma Igreja Católica que há muito perdeu o seu espírito combativo e evangélico em troca de uma política baseada na Vivência. Ora, bardamerda.

  3. Há posts que me são incompreensíveis, este é um deles, não sei a envolvência e credo da cronista, mas basta ler os escritos de Bento XVI para perceber que a Igreja desejada por ele pouco diferia da de Francisco e foi por isso que sentindo pelo seu modo de ser que não conseguiria conduzir a Igreja pela senda desejada que deu lugar a outro, talvez já suspeitasse que seria mesmo Francisco e isto indicia quão próximos eles são nos seus desejos, apesar de carismas e tiques bem distintos.

  4. mariofig

    Não estranhe, @ceifaria. Esta é a mesma autora que na semana passada ao fazer um texto em que se tentou apropriar de Margaret Thatcher para a sua causa feminista, declarando a antiga líder como uma grande femininista, se “esqueceu” de referir que as feministas da época odiavam Thatcher e Thatcher odiava feministas.

    Ainda está lá no Observador, para sua leitura. Incluindo a usual verborreia de dados biográficos, que se apanham na Internet ao fim de duas horas de pesquisa, para a autora parecer mais credível e grande conhecedora do assunto. Assim andam muitos dos cronistas neste país…

  5. André Miguel

    Disparate. Ate um liberal está contra o capitalismo selvagem, fiquemos apenas pelo livre mercado. É um poucochinho diferente.

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