Um dia na vida de um funcionário público

O dia começou como sempre. Acordou cedo para garantir que às 8 os filhos estão à porta de casa para entrar no autocarro que os leva ao colégio Nossa Senhora da Conceição. Entregues os filhos, olhou para a previsão do tempo e concluiu: “Não vai dar para ir à praia hoje. Grande azar”. De qualquer forma, não pode desperdiçar o dia. Vai aproveitar para ir à consulta que anda há tanto tempo a adiar. Pega no número da ADSE e telefona para a clínica privada Nossa Senhora do Rosário a ver se ainda consegue marcar consulta para hoje. A telefonista diz que não há problema “Hoje estamos a ter imensas consultas”, diz a recepcionista, “os médicos aproveitaram a tolerância de ponto no público e podem dar mais consultas no privado. Já ontem com a greve foi assim. Estamos a despachar muitas consultas. Apareça às 11.”. “Fantástico”, pensou, “Assim ainda despacho isto antes do almoço e pode ser que à tarde o tempo fique melhor.
Antes de ir para a clínica, passa pelo café do costume, onde se surpreende ao ver o Zé Manco a servir à mesa. “Então não era hoje que ia ser operado?”, “Não”, responde o Zé, “a operação foi adiada. Diz que o médico teve folga para ir ver o papa. Agora só lá para Julho, se o médico não for de férias”. “Que chatice! Olhe, as melhoras!”. Acaba de beber o café e põe-se a caminho da clínica.

À porta da clínica privada Nossa Senhora do Rosário uma fotografia do Papa e uma enorme azáfama na recepção. Aparentemente, uma das recepcionistas faltou: meteu um dia de férias para tomar conta dos filhos, cuja escola pública fechou hoje devido à tolerância de ponto. “Inventam tudo para não trabalhar, é o que é”. Ao fim de 20 minutos, lá conseguiu dizer ao que vinha e foi logo reencaminhada para o médico.

A tarde continuou com mau tempo, pelo que aproveitou para ir às compras, ao mecânico e aos Correios. Chegou ao fim do dia e comentou com um amigo o quão útil aquela tolerância de ponto tinha sido. “Deu para meter muitas coisas em dia. Pena as finanças estarem fechadas. Podiam manter as finanças abertas nestes dias para podermos arranjar as nossas coisas.”. À noite em frente à TV, muda de canal freneticamente: “Só se fala no Papa, no Papa, no Papa… Nem parece que estamos num país laico. Uma vergonha!”.

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7 thoughts on “Um dia na vida de um funcionário público

  1. Vejo que o post foi classificado como “Diversos”. Ainda bem que há essa opção! Se fosse preciso escolher entre “Cómico” e “Trágico”, não sei o que seria o correcto.

  2. “Se fosse preciso escolher entre “Cómico” e “Trágico”, não sei o que seria o correcto.”

    ou inveja ; dor de cotovelo ; azia ; etc

  3. Dia na vida numa utopia libertária:
    Acordo de manhã, não existe internet para consultar as noticias porque o programa DARPA nunca foi financiado e a internet não foi desenvolvida. Como o meu pequeno almoço, mas espero não morrer envenenado, já que não existem regulamentos em relação à segurança alimentar.
    Saio de casa e entro no meu carro. Espero não ter um acidente visto que não existem regulamentos em relação à segurança rodoviária, portanto o meu carro não tem airbags nem cintos de segurança. Vou conduzindo devagarinho numa estrada de terra batida para não estragar a suspensão, não existem estradas de alcatrão.
    Finalmente chego ao meu emprego, o meu turno é de 9 horas com uma pausa de 15 minutos para almoçar uma refeição que…mais uma vez espero não estar contaminada.
    Após de mais um longo dia de trabalho chego ao parque de estacionamento e descubro que o meu carro foi roubado. Telefono para a polícia privada & lda, “informamos o cliente que irá ser cobrado 19.95€ por esta chamada”. Informam-me que para iniciar uma investigação precisam de 1000€ adiantados, eu digo que só recebo 800€ por mês, porque afinal de contas não existem leis laborais. Educadamente recuso.
    Vou a pé para casa, eis que aparece um bandido que me espeta uma faca e rouba-me os sapatos. Um policia próximo de mim não pode fazer nada, porque eu sou cliente de outra empresa. Morro de hemorragia interna. A empresa para a qual trabalho recebe de herança tudo o que tenho, porque era isso que estava estipulado no meu contracto.
    É assim a vida num paraíso libertário.

  4. André Miguel

    Kdot50, isso é um bom exemplo para um blog anarquista, acho que aqui a malta é mais para o liberal. É um poucochinho diferente.

  5. Carlos Guimarães Pinto

    Curiosamente, essas coisas que faltam no dia do kdot50 custam 10% do PIB. Fica a questão: para onde vão os outros 40% que o estado consome?

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