Le Pen, nacionalismo e “globalismo”

Celebrando a derrota de Le Pen… com interrogações europeístas. Por João Carlos Espada.

A primeira grande globalização da era moderna foi iniciada por um Estado-nação — e receio ter de recordar que era já nessa altura bastante antigo e se chamava Portugal. Em seguida, inúmeros estados-nação da Europa seguiram o caminho da globalização — incluindo a Espanha, a Holanda, a Inglaterra e a França, para citar apenas alguns. Depois da derrota da ilusão pós-nacional de Napoleão e depois do Congresso de Viena, em 1815, a Europa e o mundo experimentaram um período sem precedentes de comércio livre baseado em estados descentralizados — que só foi ultrapassado depois da queda do império soviético, em 1989.

Por outras palavras, não vejo qualquer razão empiricamente testável para dizer que o sentimento nacional se opõe necessariamente ao comércio livre e à globalização. Mas há razões para temer essa infeliz dicotomia entre “nacionalismo versus globalismo”: se as pessoas que sentem um legítimo orgulho nacional continuarem a ser confrontadas com essa dicotomia enganadora, podem acabar por escolher o protecionismo — pensando que estão a optar pelo sentimento nacional.

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5 thoughts on “Le Pen, nacionalismo e “globalismo”

  1. Anticapitalista

    Nacionalismo, globalismo, liberalismo, democacia-liberal, social-democracia, democracia-cristã, neo-liberalismo, socialismo em liberdade…
    Só que já ninguém fala/esvreve/refere o capitalismo!….
    Porque será?
    Será que já acabou????

  2. mariofig

    Li a crónica de João Carlos Espada no Domingo quando saiu. Não respondi no Observador por incapacidade do meu browser lidar com o sistema de registo. Apesar de ser contrário à obrigação de ter de se usar um de dois serviços de social media, decidi quebrar a minhas próprias regras e registar-me para responder. Até pelo respeito que tenho por este comentador político.

    Mas o meu Firefox 53.0 a correr em Arch Linux não conseguia aceder ao sistema de registo.

  3. mariofig

    Apesar de João Carlos Espada ter produzido um excelente artigo que saúdo por muitas outras razões, na sua tentativa de trazer alguma sanidade ao debate acaba por cometer o mesmo erro de confundir Globalismo com Globalização. A verdade é que não existe qualquer contradição entre nacionalistas e pró-globalização, a não ser talvez no grupo de Nacionalistas que consideram o Proteccionismo Económico, uma área onde por exemplo não me revia no projecto de Le Pen. Para muitos nacionalistas (nos quais me insiro) a Globalização económica é no entanto aceitável e mesmo desejável e faz parte do seu reportório liberal.

    O Globalismo no entanto é um outro animal. Inclui sem dúvida a globalização mas vai mais além. Inclui a formação de instituições supra-nacionais que se sobrepõem aos governos nacionais e impõem uma agenda económica, política e social que é contrária aos princípios nacionalistas e de forte tendência anti-liberal.

  4. mariofig

    E este é o grande confronto entre o Nacionalismo e o Globalismo. Não a globalização, que é um detalhe menor em todo o debate.

    Quando realmente nos deixarmos de repetir a narrativa dos media que sobrevive da confusão e se organiza à volta da manipulação de factos e até do vocabulário para prosseguir com a sua agenda, será finalmente possível deixar-mos de debates entre surdos.

  5. MarioFig : “O Globalismo … [] inclui a formação de instituições supra-nacionais que se sobrepõem aos governos nacionais e impõem uma agenda económica, política e social que é contrária aos princípios nacionalistas e de forte tendência anti-liberal.”

    As instituições supra-nacionais não são forçosamente contrarias à existência das nações ou sequer anti-liberais.
    Podem até ser uma grantia adicional de sobrevivência e protecção de algumas nações que, sem elas, num mudo cada vez mais globalizado, correm um risco de enfraquecimento e fragmentação.
    Podem até ser um instrumento de alargamento e unificação de um grande mercado mais livre e concorrencial.
    Tudo depende da qualidade dessas instituições e, sobretudo, das politicas que através delas são levadas a cabo.
    Uma má politica de um governo nacional pode ser anti-liberal e levar ao enfraquecimento e à perda de autonomia (nomeadamente financeira) do pais.
    Muitas das “nações” actuais já foram formadas através de processos de unificação englobando diversas realidades “nacionais” (Franca, RU, Alemanha, Italia, Espanha, EUA, India, China, Bélgica, Suiça, Brasil, Argentina, Canadá, Africa do Sul, Nigéria, etc, etc … Portugal é mais a excepção que confirma a regra !…).

    Não sei bem que tipo de “nacionalista” o MarioFig é (parece-me que é sobretudo contra a UE e o Euro, pelo menos nas suas formas actuais) mas sei que a maior parte daqueles que se consideram ou são considerados “nacionalistas” são anti-liberais em todos os planos, proteccionistas no comércio internacional e estatalistas na politica interna.
    Ou seja, são “anti-globalistas” basicamente porque são contra a globalização e contra a liberdade !

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