O novo senhor da França

Algumas notas sobre as eleições francesas (as presidenciais e as legislativas de Junho):

Estas eleições presidenciais francesas ditaram o fim dos partidos criados por Charles de Gaulle e François Mitterrand.

Tal qual aqueles dois ex-presidentes, Emmanuel Macron pretende governar a França com uma nova maioria política. Vencidas as presidenciais, Macron precisa agora de ganhar as legislativas. Para tal, o novo partido do novo presidente, que há meses que está no terreno a escolher candidatos a deputados, começou a aceitar o apoio dos últimos ilustres que restam das forças partidárias que compunham a antiga maioria. Manuel Valls já se mostrou disponível e Macron já respondeu que será bem vindo, caso abandone o PS.

Macron quer dominar. Assim, quem se quiser juntar a ele tem de deixar o passado.

A estratégia é mais fácil com o PS porque o partido socialista acabou. Dividido entre os centristas, como Valls, e os mais radicais, como Hamon e Montebourg, o PS francês auto-liquidou-se. Restam apenas os despojos que, ou vão para o campo de Macron, ou restarão num pequeno partido, sem rumo e sem sentido.

Quanto aos Republicanos, à dita direita gaullista, a questão é mais complicada. É que há duas direitas dentro desta família política: uma, que podemos apelidar de social-liberal – é liberal nos costumes e não tão liberal na economia – e outra conservadora-liberal – é conservadora nos costumes, mais que a FN, e liberal na economia, mais que Macron. A primeira votou maioriatariamente Juppé e a segunda Fillon. Houve uma facção que votou Sarkozy, mas essa fê-lo, não pelo seu projecto político, que não existia, mas pela pessoa, Sarkozy, que entretanto deixou a política activa.

Emmnauel Macron vai querer dividir esta direita até às legislativas. Para isso, está a tentar convencer os juppeístas para que se juntem a ele, transferindo-se para o seu movimento, ou simplesmente aceitando o seu projecto. Esta facção social-liberal dos Republicanos é mais próxima de Macron e, por isso, sente menos dificuldade em aderir ao novo projecto político que esta noite ganhou o Eliseu. Para esta direita é muito importante que ser parte integrante no sucesso de Macron sob pena de a FN conquistar o poder em 2022.

Já a facção conservadora-liberal, que se revê menos em Macron, é mais resistente. Socorrendo-se dela, e tentando colar os cacos, François Baroin aposta tudo nas legislativas. Este ex-ministro da economia de Sarkozy pretende ser primeiro-ministro, não porque Macron o deseja, mas porque, os eleitores o impuseram ao novo presidente. Até Junho vamos assistir à luta pela sobrevivência da maioria que de Gaulle criou com a V República.

Irá conseguir? Quem olhe para o que se passou no último ano não arrisca previsões, embora possa ter um pressentimento. Vamos ver.

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7 thoughts on “O novo senhor da França

  1. mariofig

    “Irá conseguir? Quem olhe para o que se passou no último ano não arrisca previsões, embora possa ter um pressentimento. Vamos ver.”

    Aguardo com grande expectativa a grande cobertura mediática dentro de 4 meses dos “100 dias da Presidência de Macron”.

    Seria divertido senão por um pequeno detalhe: Não se fazem coberturas mediáticas dos falhanços dos politicamente correctos. E os nossos colaboradores do Insurgente, que foram apanhados a fazer comentários jocosos à cobertura dos 100 dias de Trump nos seus tweets, também vão ter lapsos de memória. Pois é!…

  2. Euro2cent

    > não arrisca previsões, embora possa ter um pressentimento

    Meh, é só ver o que dizem no Economist, é do mesmo dono.

    Mas pronto, já está feito, agora é só acabar de eleger outro povo, como dizia o Brecht.

    O camarada Houellebecq já se pisgou, ou ainda anda por lá aos croissants? (olha, um double-entendre sem querer …)

  3. Era importante que o Macron conseguisse constituir uma força politica de poder e que os republicanos se conseguissem reagrupar para ser a alternativa. Assim o centro politico françês virava mais à direita.

  4. Pingback: Édouard Philippe – o novo PM francês – O Insurgente

  5. Pingback: Lido noutro lado 9 | Exílio de Andarilho

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