Desta vez podemos fazer o perfil sociológico dos eleitores?

Ouvi há pouco na RTP3 um jornalista francês dizer qualquer coisa como ‘em França, para estas eleições, diz-me quanto ganhas e onde vives e digo-te como votas’. Quem ganhava mais de 3000€, votava Macron, quem ganhava menos de 1500€, votava Le Pen, quem tinha o secundário ou menos escolhia também Le Pen e por aí adiante. O Observador tem aqui mais umas pistas para os eleitotes de cada candidato.

Estão, claro, todos errados em insistirem nisto. Como se sabe, desde a vitória de Trump e do Brexit, é um grande pecado dizer quem vota nos isolacionismos, nos protecionismos e nos candidatos de tendências autoritárias. Quem referia que grupos eleitorais votavam nestes vencedores era uma pessoa ressabiada, que não percebia os grandes movimentos da história, na verdade que não aceitava os resultados das eleições (quase como ir buscar tanques para participar em golpes contra os resultados eleitorais). Claro que não se podia dizer que os eleitores de Trump eram maioritariamente rurais, nunca tinham saído dos States, menos escolarizados e que o único grupo de mulheres que votou em Trump foram as mulheres brancas sem frequência universitária. Afirmar que os broncos votaram num claríssimo bronco laranja (e a sua prestação presidencial inicial não deixa dúvidas sobre a sua magnitude de bronco) era não ter percebido NADA (como se fosse difícil perceber por que ganhou Trump). De igual modo, é crime de lesa qualquer coisa referir quem votou Leave no ano passado no UK. Nada de dizer que foram os eleitores mais velhos a imporem uma decisão que vai sobretudo afetar os mais novos, que não queriam sair. Ou os blue collar. Não pode ser. Temos todos de fingir que são os que frequentam em abundância a Metropolitan Opera e o Carnegie Hall e o moderníssimo Royal National Theatre que votaram Trump e Leave.

Espero que agora, como foi uma mulher, se possa dizer que os simplórios (e não faltarão epítetos) é que votaram na gaja extremista. Pelo menos para isso as eleições francesas devem ter servido: já voltámos a poder fazer análise sociológica eleitoral.

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9 thoughts on “Desta vez podemos fazer o perfil sociológico dos eleitores?

  1. Quem Será

    Quem me dera ter uma máquina do tempo para viajar cinco anos. Mas eu estou a arquivar tudo agora, para me rir à grande quando chegar a hora. Vai ser excelente, sugiro que façam o mesmo!

  2. A.R

    A França e chauvinista: sempre foi.
    É uma questão de tempo: o politburo de Bruxelas, pelo seu desprezo das nações, da cultura e dos povos europeus e pela perseguição de alguns (Polónia, Hungria, Eslovénia que sabem o que foi o terror dos politburos vermelhos) vai cair. Há-de cair de forma contundente e total.

  3. mariofig

    “Pelo menos para isso as eleições francesas devem ter servido: já voltámos a poder fazer análise sociológica eleitoral”

    E de que maneira! Olhe, eu fiquei particularmente chocado com as manifestações violentas nas ruas de Paris da extrema direita contra a vitória de Macron. Viu nas noticias? Reparou naquele gente? Vê-se mesmo fascismo e a ditadura da Frente Nacional e dos seus apoiantes. Perfil psicológico: xenófobos, anti-democratas, fascistas, islamofobos.

    Pobres franceses que não poderão contar com a forma pacifica como os americanos receberam a vitória de Trump. Aquilo sim é que foi saber receber uma derrota de forma democrática. Perfil psicológico: Democratas, modernistas, moderados, humanistas.

  4. mariofig

    As manifestações contra Macron em Nice, Paris e outras cidades francesas com caixotes queimados, montras partidas, violência e detenções que começaram já esta noite e que sem dúvida se vão prolongar por mais duas semanas!
    Perfil psicológico: idosos, desempregados, formação média, baixos salários, homens.

    Em contraste com a calma como que cidades como Nova York ou Washington, que se opunha a Trump recebeu a vitória deste!
    Perfil Psicológico: Jovens, empregados, formação superior, salários médios ou altos, muitas mulheres.

  5. A.R

    “E de que maneira! Olhe, eu fiquei particularmente chocado com as manifestações violentas nas ruas de Paris da extrema direita contra a vitória de Macron. Viu nas noticias? ”

    Muito bem. A esquerda faz o desacato e a direita ficam com as culpas.

  6. mariofig

    Sátira, perdão. Não ironia. Um dia, juro, hei-de deixar de fazer esta confusão, que confesso me deixar embaraçado.

  7. mariofig

    É que as feministas vivem um constante dilema entre ter que defender a mulher por ser mulher ao mesmo tempo que vivem numa sociedade em que a mulher não é nem vitima nem inocente. Portanto, a única forma que arranjaram para esta 3ª vaga de feminismo sobreviver, foi a de criar uma distinção entre mulheres com vagina e mulheres com cona.

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