Socialismos

Crimes e castigos: introdução às regras do bom debate público, a crónica de  Alberto Gonçalves no Observador.

(…)  Ontem, o jornal “i” publicou uma entrevista comigo e “chamou” para a capa a frase: “Não consigo discordar da política migratória da sra. Le Pen”. Na entrevista propriamente dita, lembrei que a vitória da senhora constituiria uma calamidade para a Europa e sobretudo para Portugal. Não lembrei, porque não era preciso, a aversão da senhora ao euro e à Nato, o proteccionismo económico, o nacionalismo aberrante, a demagogia exacerbada e a transformação, nada inédita, da política numa guerra entre “nós” e “eles”, em que “eles” são todos os que, mal por mal, ainda acreditam numa ou duas virtudes da democracia.

Escrevo isto não para me desculpar, mas para notar que, nem de propósito, calhei de concordar com a sra. Le Pen no único ponto que a extrema-esquerda, a indígena e a forasteira, não partilha: o receio face aos avanços do islão. Em matéria de discriminação, diga-se, a extrema-esquerda prefere exercê-la contra Israel e os judeus, que obviamente são a grande ameaça ao modo de vida ocidental. No resto, conforme José Manuel Fernandes já aqui recordou, as propostas da candidata às “presidenciais” francesas não se distinguem das propostas do sr. Mélenchon, o candidato entretanto derrotado (e apoiado, por exemplo, pelo BE e pelo Podemos). Ou das propostas habituais do Bloco e do PCP.

As semelhanças são tantas que os esforços para negá-las são engraçados ou inexistentes. Uma sondagem feita pelo França Insubmissa (o nome nem disfarça) do sr. Mélenchon aos seus eleitores, acerca da segunda volta, incluía três possibilidades: votos brancos e nulos; abstenção; Macron. Não incluía a sra. Le Pen, a escolha plausível da maioria. Por cá, alminhas várias de BE e PCP exibiram, trémulos, a convicção de que seria irrelevante optar por Macron ou pela sra. Le Pen.

Não seria. Macron, decerto uma figura menor, é uma promessa – débil – de “normalidade”. A sra. Le Pen é um perigo. Um perigo em quase tudo semelhante a BE e PCP, que por cá influenciam o poder sob a simpatia dos exactos “media” que andam aflitíssimos com a hipótese Frente Nacional. Como se consegue tal acrobacia? É fácil: basta à extrema-esquerda apelidar a sra. Le Pen de “fascista” e assim evitar que, por uma vez, a palavra seja aplicada com precisão: fascista é, também, a extrema-esquerda. Sobram, claro, as diferenças visões de ambos perante o islão “imoderado”. Mas o islão “imoderado” é o quê? Escusam de responder.

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5 thoughts on “Socialismos

  1. Manuel Assis Teixeira

    Eu só não percebo como é que o Alberto Gonçalves, que muito admiro aliás, cai na asneira / ingenuidade de dar uma entrevista ao Jornal I um dos campeões do branqueamento e manipulaçao da politica socialista! Depois de ter sido inacreditavelmente saneado pelo DN e ainda mais incrivelmente da Sabado, devia ter mais cuidado com a escolha dos jornais onde intervem! Porque interessa de facto conota-lo com a Le Pen! Como interessa tambem conotar o Jaime Nogueira Pinto e todo e qualquer bom comentador de direita! Faz parte da estrategia de manipulaçao e branqueamento da esquerdofilia!

  2. Henrique pires

    Alberto Gonçalves, um cronista discordante da manada, foi silenciado pelo xuxalista DN e pela hipocrisia dos seus diretores. Censura? Não, isso só havia antes do 25. Agora chamam-lhe “confundir os leitores”. Ahahahahah! Só da mesmo vontade de rir…

  3. Euro2cent

    > isso só havia antes do 25

    Em termos propagandisticos, os pobres censores do lápis azul pareciam crianças com espadas de cartão a combater tanques de guerra …

    Os nossos donos têm uma máquina publicitária muito apurada ao longo de três séculos – como dizia o camarada Bolsanamão num momento raro de candura, tanto vende presidentes como sabonetes.

    Até o pobre do Gonçalves não quer ser deplorável – parece que o chuto que levou não lhe abriu os olhos.

    Põe a Europa em coma demográfico, e depois vêm contar-nos que a “baleia azul” é que leva os jovens ingénuos ao suicídio.

    Bem dizem que os vampiros não se vêm ao espelho.

  4. mariofig

    “Até o pobre do Gonçalves não quer ser deplorável – parece que o chuto que levou não lhe abriu os olhos.”

    Já não ter ouvido “fascistas” ou “ditadura!” da boca dele, vá lá vá. Diz que os outros, a extrema-esquerda, é que o fazem. Para ele é só “um perigo”. Está-se bem a ver. Assim é menos grave, que é para não chatear muito os seus leitores habituais.

    Li aqui há uns tempos atrás qualquer coisa sobre Idiotas Úteis… nah! Devo estar a fazer confusão.

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