Submissão ou Venezuela

Se você não leu Submissão, de Michel Houellebecq, vem aí um spoiler: no livro, a França se islamiza basicamente porque os muçulmanos compram tudo e oferecem esposas adolescentes. O islã pode triunfar como identidade, mas ele vem mais para garantir e reforçar o hedonismo flácido dos personagens franceses.

No romance, o islã se apresenta como alternativa de esquerda ao Front National. Vem na categoria “tudo menos o Front National”. Curioso é que as diferenças entre a “extrema” esquerda de Mélenchon e a “extrema” direita de Le Pen as diferenças são mais superficiais e cosméticas do que substanciais. Lição: não subestimemos o poder da cosmética, do tribalismo ideológico.

Contudo, suponhamos que o véu se rasgasse e Le Pen e Mélenchon dessem as mãos numa firme aliança contra o maldito globalismo capitalista. Em duas décadas, talvez pudéssemos andar por Paris e pensar: “O que faltava a Caracas era a Champs Elysées!”.

Diante de uma perspectiva como essa — e juntos, Le Pen e Mélenchon têm 40% dos votos; será que nesses 40% estão os mais jovens? —, vale a pena perguntar: o hedonismo flácido bancado pelo islamismo imperialista de Submissão é uma alternativa tão terrível?

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13 thoughts on “Submissão ou Venezuela

  1. mariofig

    Se você coloca apenas esses dois extremos, eu diria que sim, porque apesar da narrativa de “fim da democracia” que teimam em partilhar e que não me parecem serem capazes de demonstrar no caso da FN — já no caso de Melechon temos realmente precedentes — o “islamismo imperialista de Submissão” não poderia nunca ser melhor que o uma ditadura à boa moda europeia. Concorda?

    Mas como eu disse, você coloca a questão nos dois extremos. O que me parece conveniente para o seu discurso. Aparentemente não lhe ocorreu a hipótese que o sistema político não permite a criação de ditaduras a partir de uma eleição presidencial. E que portanto, o seu cenário apocalíptico, que tão bem serve a agenda política globalista, deveria talvez ser substituído por um outro cenário em que um presidente anti-europeista é realmente eleito numa sociedade livre de escolher o seu futuro. Aquela coisa a que gostamos de chamar Democracia.

  2. mariofig

    Mas não ligue ao que eu digo. Eu sei que não foi para mim ou para os que pensam como eu, que você escreveu o seu texto. Ele é antes dirigido para aqueles cuja indecisão você procura conquistar através do medo e para aqueles que, concordando já consigo, você pretende reforçar convicções.

    Estranhamente e infelizmente para si, o que o seu texto não conseguiu fazer e que seria seguramente um objectivo mais nobre, foi o de convencer quem não concordando consigo não se deixa levar pela apologia do medo, da falta de conteúdo e do argumento fácil e demagogo. Aquelas pessoas que se sentem livres e que portanto gostam de pensar pela sua própria cabeça.

  3. mariofig

    Mas vá continuando a tentar. Eventualmente, um dia sei lá, perceberá que será quando se decidir a fazer um debate HONESTO, que finalmente terá todo o interesse e atenção de grande parte do eleitorado e dos apoiantes da FN que no entanto não se revêm no partido.

    Até esse dia chegar, lamento mas este e outros textos que temos lido aqui e um pouco por todos os merdia institucionalizados, estão ao mesmo nível do que se lê nas portas das casas de banho públicas.

  4. Ou submissão ao globalismo islãmico / outro qualquer ou nacionalismo hermetico?!! Preto ou branco ?!! Ou super concentração de poder ou concentração de poder?!! Não há mais nada ?!!

  5. Euro2cent

    > hedonismo flácido

    Os hedonistas não compram pastilhas?

    (A ciência tem solução para tudo, como os devotos dessa santa não se cansam de afirmar.)

  6. Este indivíduo continua a repetir a cartilha de que não há diferenças substanciais entre a extrema direita de Le Pen e a esquerda radical de Melenchon. O problema é que essa conversa visa escamotear as muito mais relevantes semelhanças entre a extrema direita e a direita clássica. O que mudou em França entre 2002 e 2017? O que mudou foi que após Chirac abandonar a vida política, a direita francesa, embora sem fazer acordos diretos, começou a normalizar a FN. Basta comparar o discurso sobre os imigrantes de Sarkozy com o de Le Pen e perceber que as diferenças não são assim tão grandes. Aliás, não é por acaso que a percentagem dos eleitores de Fillon que admitem votar em Le Pen é muito superior do que a percentagem de eleitores de Melenchon que admitem fazer o mesmo. Mas este facto desconfortável é sistematicamente omitido neste blog e nos comentadores como o Henrique Raposo, o José Manuel Fernandes ou o Paulo Rangel.

  7. Mas isso é o que se passa por toda a europa. Quantos políticos já ouvimos na Alemanha, Suécia, Bélgica, França ( se puserem aqui todos os vídeos das suas intervenções o insurgente fica bloqueado durante 2 dias ) etc a afirmarem que temos que nos preparar para que no futuro o islão seja a maioria e imponha as suas regras, para que no futuro as mulheres passem a andar de véu na cabeça ?…isso só não é mais evidente porque este tipo de declarações é branqueado pelos media tradicionais. Mas na net e no youtube estão lá, para quem não acredita. E não falo de políticos migrantes, mas de políticos cujas famílias vivem na europa à gerações.

  8. A França foi dos países que ofereceram menos resistência à ocupação nazi. Isso aconteceu há muito pouco tempo, 80 anos.
    O voto útil é bem conhecido naquelas paragens. Se fossem à segunda volta a Le Pen e um candidato do partido nazi fazia algum sentido a esquerda mandar as pessoas votar em Le Pen?
    Com Macron é semelhante. Um homem sem partido!
    O mais natural é que a França venha a ter um primeiro ministro designado por Le Pen que “reinará” com Macron em presidente… que grande salsada!

  9. CLAUDIO FILIPE : “a cartilha de que não há diferenças substanciais entre a extrema direita de Le Pen e a esquerda radical de Mélenchon”

    Não é cartilha …
    Os programas económicos são muito próximos : da ruptura com a UE e o Euro à legislação laboral passando pelas pensões e muitos outros aspectos.
    O que é substancialmente diferente refere-se em particular à imigração e à segurança interna e externa.

  10. CLAUDIO FILIPE : “as muito mais relevantes semelhanças entre a extrema direita e a direita clássica (…) a direita francesa, embora sem fazer acordos diretos, começou a normalizar a FN. Basta comparar o discurso sobre os imigrantes de Sarkozy com o de Le Pen e perceber que as diferenças não são assim tão grandes.”

    Efectivamente, é sobretudo em questões de imigração e segurança interna que a direita “clássica” está mais próxima da extrema direita dos que as esquerdas em geral, por maioria de razão da extrema esquerda.
    É sobretudo neste plano que se pode ainda falar de “direitas”, sendo uma mais moderada e outra mais extrema.
    Mas, também é verdade que, mesmo nestas matérias, a direita moderada está muito mais próxima do meio-termo pragmático da esquerda moderada, a dita “de governo”, do que da extrema direita. As diferenças entre a defesa pela direita moderada de uma politica de imigração mais exigente, certamente mais do que a das esquerdas, mas que não fecha as fronteiras aos estrangeiros, e as propostas radicais da extrema direita são muito grandes.
    Importa não perder de vista que, para além dos discursos, que em periodos de campanha eleitoral são mais excessivos, as politicas de imigração e segurança da direita e da esquerda “de governo” acabam por não ser na prática assim tão diferentes entre si e que as grandes diferenças se encontram sobretudo entre os moderados de direita e esquerda e os extremos, a extrema esquerda, que defende a abertura das fronteiras aos imigrantes, e a extrema direita, que as quer fechar.

  11. CLAUDIO FILIPE : “não é por acaso que a percentagem dos eleitores de Fillon que admitem votar em Le Pen é muito superior do que a percentagem de eleitores de Melenchon que admitem fazer o mesmo.”

    Portanto, 2/3 dos eleitores de Fillon dizem que não votam Le Pen na 2a volta !…
    Gostaria de ver que percentagem de eleitores das esquerdas, incluindo a moderada, seriam capazes de votar por Fillon num cenário de 2a volta deste contra Mélenchon !!… Antes da 1a volta cruzei-me com muitos que diziam que nunca votariam em Fillon numa 2a volta …
    Há naturalmente sempre uma percentagem de eleitores de direita ou de esquerda que por preconceito ideológico preferem votar por um candidato conotado com o lado do espectro politico em que se posicionam, mesmo que seja um extremista com quem não concordam, do que num candidato do outro lado.
    Nada disto permite tirar conclusões quanto ao grau de adesão desses eleitores a um candidato por quem votariam por, bem ou mal (eu penso que mal), o considerarem como o menor dos males !…

  12. A.R

    “A França foi dos países que ofereceram menos resistência à ocupação nazi” e os comunistas colaboraram com eles como irmãos ideológicos

  13. lucklucky

    Não se pode esperar outra coisa com o complexo jornalismo-politico marxista que temos.

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