Macron, um fenómeno político

Passei a dar particular atenção à actuação política de Emmanuel Macron, quando este foi escolhido para suceder a Arnaud Montebourg na pasta da economia. Foi nesse cargo que o jovem ministro apresentou uma lei de liberalização da actividade económica, a conhecida Lei Macron, que tanta celeuma deu entre a esquerda. A lei foi, aliás, para parte do PS, uma das muitas traições de François Hollande que os seus camaradas não perdoaram.

Quando há um ano Macron fundou o movimento En Marche!, era difícil ignorar que o homem queria ser presidente da França. Manuel Valls e Hollande ficaram estupefactos, mas aquele ministro, o único que tinha mostrado coragem em mudar alguma coisa no meio do marasmo francês, tornara-se altamente popular. Demasiado popular para ser afrontado.

Em Agosto de 2016, Macron abandona o governo e lança-se na corrida ao Eliseu. As sondagens colocavam-no em terceiro lugar atrás de Marine Le Pen e de quem viesse a ser o candidato dos Republicanos. A partir daí foi sempre a subir, não de forma abrupta, mas consistente resistindo a tudo e a todos.

Macron não é um homem providencial. Tal coisa não existe. Mas não deixa de ser estimulante e encorajador, como foi para mim, acompanhar ao longo de todos estes meses, a carreira fulgurante de um homem vendo nele um possível vencedor ou, na pior das hipóteses, alguém que iria marcar a eleição presidencial francesa. A minha intervenção ontem na TVI 24 foi o culminar de um processo de análise, que foi sendo desenvolvido nos artigos que escrevi sobre o tema ao longo destes meses. Só por isso tenho a dizer que valeu a pena assistir ontem à vitória de Emmanuel Macron. O rei ia nu e ele foi o único que o disse em voz alta.

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6 thoughts on “Macron, um fenómeno político

  1. Macron vai ser o próximo presidente francês graças ao falhanço pessoal do candidato da direita, François Fillon !!

    Ainda há poucos meses, o grande favorito para as presidenciais, com uma margem confortável, era o candidato da direita, fosse ele quem fosse.
    Embora existissem diferenças programáticas e de estilo entre eles, estas eram relativamente menores.
    Eram muito menos importantes do que aquelas que existiam, por exemplo, entre as diferentes correntes dentro do PS francês, as ditas “esquerdas inrreconciliáveis”, de um lado os “hollandistas/vallistas”, onde se situava o então Ministro da Economia, Emmanuel Macron, e do outro lado os “frondeurs”, mais à esquerda, onde se incluia o futuro candidato oficial do PS, Benoit Hammond.
    O candidato da direita mais forte a nivel nacional parecia ser então Alain Jupé.
    François Fillon, com uma linha menos centrista e mais liberal na economia, foi uma escolha de última hora das primárias.
    As sondagens e todos os observadores apontavam então para uma ampla vitória de François Fillon.
    Macron, que desde cedo revelou ter ambições presidenciais, estava então muito por baixo nas sondagens.
    O que mudou entretanto foram os problemas pessoais de François Fillon, que levaram à sua queda a pique nas sondagens.
    Ou seja, o que acabou por ser rejeitado por uma parte do eleitorado da direita e do centro foi a pessoa e não o programa do candidato.
    Macron ganhou então a sorte grande : não existindo outro candidato “moderado” à direita, a maior parte do eleitorado do centro e uma parte do eleitorado da direita passaram a preferir o candidato da “esquerda liberal” (que entretanto, com a vitória de Benoit Hammond nas primárias da esquerda deixou de ter concorrência junto do eleitorado tradicionalmente mais moderado à esquerda).
    Macron só passou à 2a volta porque Fillon caiu em desgraça e a linha mais centrista do PS não consegiu impôr um candidato mais “natural” (François Hollande ou Manuel Valls).
    No fundo, em termos programáticos, Macron não representa nada de novo no panorama politico francês !

  2. Pingback: Macron, um fenómeno político – O Insurgente | O LADO ESCURO DA LUA

  3. Caro FERNANDO S,

    Desde já os meus cumprimentos. Tem toda a razão na análise que faz da “ascensão” de Macron. Este beneficiou da queda de Fillon (que não soube sair de cena, como devia ter feito) e do extremismo do PS (que ao eleger Hammon, os colou à extrema-esquerda de Melanchon, com quem se previa aliás uma coligação). Ora, o eleitorado do centro direita e centro esquerda ficou sem candidato natural. Neste contexto, Macron aparece como um “salvador” que faz discursos vazios para o centro*esquerda e para o centro-direita. Incentiva o centro-esquerda com o plano social, onde “não quer mudar muito do que está instituído” e agrada ao centro-direita porque no plano económico é um pouco mais liberal que Hollande.

    No fundo temos o menos mau. Alguém que serve tendo em conta o resto dos candidato. Mas os problemas de fundo da sociedade vão manter-se. E, a acreditar que não seja este ano que Marine Le Pen ganhe as eleições, se nada se alterar, podemos esperar que mais cedo ou mais tarde um candidato populista ganhe as eleições. Basta ver que a extrema-esquerda e a extrema-direita juntas (Le Pen – Melanchon – Hamon) representam quase 50% do eleitorado.

    Bom resto de tarde e continuação de bom trabalho.

  4. lucklucky

    “O rei ia nu e ele foi o único que o disse em voz alta.”

    Macron é um Blair, é um Renzi. É a continuação do caminho para o desastre.

  5. Euro2cent

    Meh, que entusiasmo pelo produto extrudido dos Rotschild.

    Por alguma razão mandaram um torpedo “canard” ao Fillon a umas semanas dos votos, e o substituiram por esta peça.

    Não sei qual foi, nem me interessa muito. “Above my pay grade”, e ao que parece, também ninguém com estudos se interessa em explicar.

  6. Caro JHF,

    Muito obrigado pelo seu comentário, que apenas agora vi, e igualmente os meus melhores cumprimentos.
    Concordo naturalmente com o essencial da posição que muito bem expressa no seu comentário.

    Gostaria de acrescentar que, do meu ponto de vista, Macron é apenas “menos mau” do que os outros candidatos … estando eliminado François Fillon !…
    Se eu fosse eleitor francês teria votado em François Fillon na primeira volta e votaria Emmanuel Macron nesta segunda volta.
    François Fillon foi efectivamente apanhado pelos escândalos pessoais, tão mais insuportáveis para uma parte importante do eleitorado de centro e direita quanto era sabido que durante as primárias ele se tinha apresentado como o candidato sem nódoas pessoais demarcando-se assim de Nicolas Sarkozy.
    Mas, abstraindo destes aspectos, o programa eleitoral de François Fillon era o mais reformista e o mais apropriado para tentar tirar a França do relativo impasse em que se encontra actualmente.
    Efectivamente, os resultados confirmaram que, como diz, teria sido preferivel que Fillon se tivesse retirado e cedido o lugar a outra personalidade da direita (talvez Alain Juppé).

    Por outro lado, talvez eu seja apenas um pouco menos pessimista quanto à eventualidade de um candidato ou um partido extremista vir a ganhar eleições e, ainda mais, se for o caso numas presidenciais, conseguir ter uma maioria parlamentar para governar.
    É verdade que o conjunto dos extremos cresceu eleitoralmente e, incluindo Benoit Hammond, representa um pouco menos de metade dos votantes.
    E é ainda verdade que estes extremos têm muito em comum nos programas económicos e na rejeição do comércio livre, incluindo a UE e o Euro.
    Mas também é verdade que, felizmente, estes extremos, por razões históricas e por divergirem sobre a imigração e o combate ao terrorismo islâmico, dificilmente se poderiam entender e convergir numa alternativa politica de governação viável.
    Não me estou a esquecer que na Grécia um partido de extrema-esquerda conseguiu ganhar eleições e governar.
    Mas parece-me mais a excepção do que a regra e tem muito a vêr com o sistema eleitoral grego que dá um “prémio de maioria” ao partido mais votado.
    Uma possibilidade destes partidos dos extremos, à esquerda como à direita, poderem aproximar-se da esfera da governação é, como aconteceu em Portugal com o BE e o PCP através da “geringonça”, fazerem concessões programáticas importantes (nomeadamente sobre a UE e o Euro) e serem aliados minoritários de partidos ou coligações de cada um dos lados do “centro” politico.

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