A persistência do Estado-nação e do sentimento nacional

Eleições em França: A ilusão pós-nacional. Por João Carlos Espada.

(…) os dois partidos centrais da democracia francesa — os Republicanos, ao centro-direita, e os Socialistas, ao centro-esquerda — ficaram em ruínas. Nenhum dos seus candidatos estará na segunda volta. Em conjunto, não terão alcançado 30% dos votos. Isto merece uma análise ponderada, pois terá necessariamente consequências muito sérias para a democracia em França. E deve ser olhado em perspectiva comparada com o que sucedeu no Reino Unido e nos EUA.

No Reino Unido, uma ruptura política radical — a decisão de sair da UE — não afectou a solidez dos partidos tradicionais. O partido político que associou essa decisão a uma revolta popular contra “o sistema” — o Ukip de Nigel Farage — tem hoje 7% nas sondagens e não detém neste momento nenhum deputado no Parlamento britânico (o único que tinha acabou de se demitir).

(…) Os factos parecem por isso indicar uma séria dificuldade nas teorias dominantes sobre a obsolescência do Estado-nação e do sentimento nacional. De acordo com essas teorias, o Estado-nação estaria condenado a desaparecer, sobretudo devido à globalização e ao alegado atavismo do sentimento nacional. No entanto, as previsões dessas teorias parecem estar a ser refutadas pelos factos. Porquê?

Uma profunda razão filosófica, que não é possível discutir neste espaço, prende-se com o equívoco do Iluminismo continental. Ghia Nodia correctamente observa que houve vários Iluminismos, uns mais sóbrios do que outros. Mas, no continente europeu, foi sobretudo o Iluminismo francês (a que Karl Popper chamou de racionalismo dogmático) que perdurou. Esse racionalismo dogmático (por contraposição ao racionalismo crítico, de base céptica e experimental) acredita que sabe, sem saber que acredita. Aspira por isso a eliminar todas as tradições que não possam ser geometricamente demonstradas e a desenhar um mundo novo através da chamada engenharia social.

Para este racionalismo dogmático (a que F.A. Hayek também chamou “racionalismo construtivista”), o sentimento nacional é certamente uma das expressões primordiais (a par da religião) de tradições que não podem ser demonstradas geometricamente. Isto explica por que motivo o racionalismo dogmático gera uma profunda hostilidade contra o sentimento nacional, bem como contra o sentimento religioso. Em contrapartida, essa hostilidade racionalista em regra produz uma reacção crispada dos sentimentos nacional e religioso — gerando aquilo que Tocqueville designou por “estéril conflito entre revolução e contra-revolução”.

Em segundo lugar, existe um erro mais prosaico na hostilidade do racionalismo dogmático contra o sentimento nacional: o racionalismo dogmático ignora o papel crucial do sentimento nacional na viabilização da democracia liberal (ou constitucional). Sem sentimento de pertença a um todo superior às partes — em regra, o todo nacional — não é possível auto-governo em liberdade: as minorias tenderão a não aceitar as vitórias eleitorais das maiorias; as maiorias tenderão a perseguir as minorias.

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