S@m@s P@chec@ Pereir@

Uma tragédia portuguesa, a crónica de Alberto Gonçalves no Observador.

(…) A julgar pelas sondagens, os portugueses andam satisfeitíssimos com quase tudo. E, empurrados pela confiança do PR e a tranquilidade do PM, acreditam em tudo. Acreditam que a história do Montepio vai correr bem. Acreditam que o golpe do Novo Banco correrá melhor. Acreditam que há alternativa à “austeridade”. Acreditam que a satisfação das clientelas não lhes custará um cêntimo. Acreditam que o “recorde” do défice é para levar a sério. Acreditam que o recorde da dívida não é para levar a sério. Acreditam que Pedro Passos Coelho e o “estrangeiro” conspiram contra o nosso sucesso. Acreditam no nosso sucesso. Acreditam em consumados mentirosos. Acreditam que gregos são os do Benfica e o sr. Varoufakis.

Descontada a última convicção, os portugueses acreditam de facto na visão alucinada em que Pacheco Pereira, por conveniência, finge acreditar. É aqui, e apenas aqui, que se nota a diferença propiciada pela intimidade com os clássicos. Nas cabecinhas erradas, as referências certas inspiram um curioso apreço pela dissimulação. Ou seja, os ignorantes são enganados; os instruídos colaboram no engano. Pacheco Pereira tenta provar a falta de sabedoria na sociedade e prova abundantemente a falta, também perigosa, de vergonha na cara.

No meio disto, a eventual boa notícia é que o rumo que o país adoptou encurta diariamente a distância das massas a Atenas. À medida que nos aproximamos de nova bancarrota e de novo resgate (ou – Deus nos valha – de resgate nenhum), a familiaridade com os gregos arrisca-se a aumentar a olhos vistos. E quem diz os gregos diz, com um pedacinho mais de azar e um pedacinho menos de “Europa”, os venezuelanos. Para quê ler as tragédias clássicas se podemos protagonizar uma? (…)

Anúncios

11 thoughts on “S@m@s P@chec@ Pereir@

  1. Ana Catarina

    “Ou seja, os ignorantes são enganados; os instruídos colaboram no engano. Pacheco Pereira…”
    Copio só para dizer que não entendo o classificativo de “instruído” para o paxeco das peras

  2. Gaius Octavius

    Cícero disse que os homens são como os vinhos: a idade apura os bons e azeda os maus. O Pacheco Pereira já se tornou vinagre.

  3. É a velha teoria do “enquanto o pau vai e vem folgam as costas”. Nunca percebi esse ditado, embora tecnicamente durante a sessão de paulada o pau esteja apenas uma ínfima percentagem de tempo em contacto com as costas, elas não deixam de doer entre uma e outra.
    Os socialistas já nos alombaram 3 e vem aí outra, mas realmente o pessoal anda contente. Marreco mas contente.

  4. mariofig

    Tanta pretensão de ser detentor de um conhecimento superior, mas uma coisa que Pacheco Pereira não aprendeu com os clássicos foi dialéctica. PP debita as suas proposições de uma forma irracional e sem capacidade ou desejo de as defender. De PP ficamos apenas a saber que os autores clássicos são importantes, diz ele. Mas não sabemos porque é que ele acha que são, como sugere resolver o problema que diz existir no ensino e nas redes sociais, ou porque é que acha que o problema tem apenas 5 anos. PP é o clássico governador do classicismo; políticos com ares de douto e com pretensões a filósofos, que eram, frequentemente descritos com escárnio pelos grandes pensadores devido à sua falta de capacidade para qualquer tipo de pensamento racional.

  5. mario

    Caro AB, o que eu gargalhei com esse comentario… Brilhante. E a esquerda que temos… Enquanto as costas folgam, tenta-se convencer o mundo que tem o dever de sustentar as puras almas xuxas…..

  6. mariofig

    Infelizmente para Pacheco Pereira, não é necessário um intelectual para desmascarar um pseudo-intelectual. E eu, que não sou nem tenho pretensões a intelectual, proponho a PP a seguinte alternativa ao seu texto, que nada retira à sua “lógica” mas que melhor expõe a fragilidade da sua cabecinha:
    É muito triste ver como as nossas instituições de ensino, os media e as redes sociais não ensinam os nossos jovens a amar-se uns aos outros. O nosso país seria muito melhor se todos nós nos déssemos bem. O governo do PSD falhou muito nesta missão. E com os sinais que vêm da América, as coisas só podem piorar. Os jovens de hoje não são como nós éramos antigamente. Não vou explicar como nada disto faz sentido algum. Estou apenas a escrever isto, para que aceitem como verdadeiro, porque se me ponho com explicações acabo por mostrar todos os buracos na minha lógica de redacção ao nível da 4ª classe.

  7. SOBRE NÓS
    Que a condenável joelhada no nariz do árbitro nos faça avivar a memória das pedradas com que Costa espatifou o couro cabeludo de todos e cada um dos portugueses.
    De uma indignidade podre e rasca ao dar colo aos agressores que tinham acabado de lhe rasgar a pele.
    Alguém mais (haja quem diga quem) seria capaz de perdendo eleições se valer desse estratagema repulsivo para salvar as próprias ossadas?
    Com exemplos assim vindos de cima é de temer o pior no seio de uma sociedade que se demitiu da capacidade de estar presente e dizer não.
    Ou a perversão de deixar de preservar valores essenciais da condição de gente com voz e vontade.
    Mas porquê tanto medo instalado, tanta coragem adormecida, tanta coluna vergada?
    Para que não nos falte nada, ainda temos Jorge Sam a pairar por aí como uma praga carregado de moralidade postiça sendo genuinamente corresponsável pela bodega que ajudou a instalar.
    Como Guterres que gasta todas as palavras a condenar aquilo que já todos condenaram.
    Para coroar o ramalhete, carregado nos jardins do palácio sai-nos em cada esquina o animador de pista entornando “anestésicos” e larachas.
    Tanta cabeça amolgada de olhar turvo, orelhas moucas e nariz partido!

  8. AB,
    “Técnicamente”, quando o pau bate, as costas doem mais !… 😉
    Basta doerem menos para já nos darmos por satisfeitos.
    Mas o ponto é mesmo que muitos não perceberam bem porque é que lhes deram com o pau ou perceberam mas acharam que a pancada foi forte demais, e vivem agora na ilusão de que o pau se foi embora e não vai voltar !… 🙂

  9. Porque é que há mais portugueses mais satisfeitos ou menos descontentes com a situação actual ?
    O estado da opinião pública (o mais correcto é dizer “opiniões”, no plural) depende de inúmeros factores, uns mais objectivos e outros mais subjectivos, e não vou aqui sequer tentar ser exaustivo.
    Um deles é claramente a popularidade e a atitude do Presidente da Répública. Mas seria ainda preciso explicar esta popularidade e perceber a razão de ser desta atitude (sabendo-se que o PR foi eleito basicamente com os votos da direita).
    Mas um dos factores objectivos mais importantes talvez seja mesmo o facto da economia estar a crescer, o desemprego a baixar, os rendimentos médios a aumentarem, o consumo a aumentar, etc. Certo, pouco, mas está. Portanto, há efectivamente uma pequena melhoria para muita gente.
    É verdade que isto já vinha a acontecer desde … meados de 2013 !… e estava a acontecer ainda mais em 2015, quando se deu a mudança de governo. Mas era ainda relativamente, muito perto do periodo de recessão e austeridade, pelo que a percepção das pessoas era ainda confusa. É a época do “o pais está melhor mas as pessoas não”. Mesmo assim, os partidos do governo estavam então a subir nas sondagens e, muito embora não tenham chegado a uma maioria absoluta, até ganharam as eleições legislativas.
    A mudança de governo, nas circunstâncias politicas que se conhecem, não alterou o essencial da situação : a economia continuou a crescer e a condição geral das pessoas a melhorar (mesmo crescento menos depressa continuou a crescer …).
    Por um lado, os apoiantes do governo anterior tinham feito campanha a dizer que se houvesse uma mudança de governo e de politica havia um risco forte do pais voltar a entrar em crise.
    Por outro lado, o novo governo proclamou o fim da austeridade e tem vindo a dizer que se prova que é possivel não ter austeridade e ter a economia a crescer.
    Os apoiantes do governo anterior tinham e têm razão. Por um lado, o novo governo, ao contrário do que anunciara, não mudou muito do que era a politica anterior, isto é, não acabou com a austeridade e não “reverteu” todas as reformas estruturais feitas anteriormente. Se não fosse assim, o mais provável teria sido o pais ter entrado em crise muito rápidamente. Por outro lado, houve mesmo assim mudanças nalguns aspectos relativamente à politica anterior (na repartição da austeridade, nas reformas estruturais, etc) que estão a fragilizar progressivamente as bases das nossas finanças e da nossa economia pelo que aumentou o risco de um novo colapso futuro. Estamos agora na fase do “as pessoas estão melhor mas o pais está pior”.
    Mesmo assim, o novo governo e os seus arautos continuam a assegurar que a austeridade acabou ou diminuiu significativamente e que o crescimento económico não só continua como se irá reforçando.
    Como é possivel dar esta imagem desfocada e errada sobre a realidade ?… Com uma propaganda despudorada e inteligente, na medida em que utiliza algumas verdades pontuais e imediatas para dar uma ideia de conjunto e de futuro que é uma enorme mistificação.
    E como é que que este tipo de propaganda, numa sociedade aberta e democrática, consegue ter algum sucesso ?
    Por um lado porque beneficia de um estado de espirito de muitas pessoas que é o de uma certa saturação das más noticias e uma vontade em acreditar que depois da tormenta finalmente tudo se vai resolver pelo melhor. Há quem diga que esta é uma caracteristica muito forte na mentalidade individual e colectiva dos portugueses mas não vou avançar nesta direcção, certamente plena de complexidade e a um nivel muito profundo.
    Por outro lado, há uma oligarquia nacional, uma vasta coligação de interêsses e de ideologias transversal a diversos extratos da sociedade, dos empresários dos não transaccionáveis aos dependentes do Estado passando pelas elites urbanas médio-altas, que não deseja uma mudança e uma reforma do modelo económico que vigora em Portugal e que, tendo posições dominantes nos aparelhos que formam e condicionam a opinião pública (escolas, mass médias, etc), está interessada na sobrevivência e no prolongamento da actual configuração politica.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s