Bênção e maldição

(o meu artigo de hoje no Económico)

Votada à estranha impotência a que o apoio do seu partido ao “Governo da iniciativa do PS” sem que a ele pertença a vai condenado, Catarina Martins tem de aproveitar todas as oportunidades possíveis para fingir que existe. Foi o que fez na semana passada, à saída de uma reunião da mesa nacional do Bloco de Esquerda, em que disse ser “urgente preparar o país para o cenário da saída do euro ou mesmo do fim do euro”. A afirmação cumpriu o objectivo para que foi feita, já que não houve órgão de comunicação social que não a tenha reproduzido como se de um novo discurso de Péricles se tratasse. Já de que tenha sido de algo sensato tenho as maiores dúvidas.

Em parte, a moeda única não trouxe boas notícias para o nosso país. Como nota Luciano Amaral num livrinho que merece ser lido, para poder aderir ao euro, os governos portugueses adoptaram uma política de valorização cambial que “penalizou” as exportações. Uma vez no euro, essa “sobrevalorização” da moeda em relação à nossa capacidade produtiva cristalizou-se definitivamente, contribuindo significativamente para nossa estagnação económica (o excessivo peso do Estado conjugado com a perene falta de capital na economia portuguesa não tiveram um papel menos importante) desde 2000. Mas o principal efeito da nossa adesão ao euro foi ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Ao nos atribuir a mesma moeda de países como a Alemanha, deu também à nossa economia (e ao nosso Estado) quase “grega” a capacidade de nos endividarmos de países mais “confiáveis” do que até ia tínhamos sido: a presunção de que partilhando a moeda com esses países Portugal estava sujeito a regras orçamentais que disciplinariam as suas finanças públicas de uma forma que o país nunca (excepto em ditadura) havia conseguido enquanto mantivera independência cambial dava aos potenciais credores a confiança de que veriam o seu dinheiro de volta, sentindo-se assim seguros para emprestar dinheiro a Portugal sem cobrar juros tão altos como antigamente. Por paradoxal que possa parecer, foi também essa inegável vantagem que teve o problema de tornar mais fácil o desvario estatal que quase nos levou à bancarrota em 2011: com o escudo, “os mercados” teriam acordado para as asneiras que por aqui estavam a ser feitas muito mais cedo, e estas teriam sido bem menores.

Mas, embora tenha dado à crise um carácter que ela não teria caso o escudo ainda fosse a moeda do nosso país, a verdade é que o euro também ajudou a que ela não fosse mais grave. Se Portugal não estivesse na moeda única, não teria sido resgatado pelos seus parceiros europeus em 2011, nem beneficiaria hoje da política do BCE que nos vai permitindo fingir que não estamos à beira do abismo. Martins fala do euro como um obstáculo ao crescimento, mas ignora a catástrofe que uma saída do euro representaria para a sociedade portuguesa: ninguém nos emprestaria dinheiro a juros suportáveis, ninguém nos resgataria da consequente bancarrota, o desemprego explodiria, e a pobreza alastrar-se-ia.

Ou talvez não ignore. Talvez o caos e o descalabro seja precisamente o que Martins e os seus correligionários desejam. Talvez esperem que deles brote um tal descontentamento popular com os principais partidos que lhes abra o caminho do poder para promoverem a sua política revolucionária e anti-democrática (sob a capa do “aprofundamento” da democracia, desfigurando-a).

Quer o BE queira “preparar” a saída euro por oportunismo ou por inconsciência, o certo é que os portugueses fariam bem em ignorar o seu conselho. A criação da moeda única e, acima de tudo, a nossa entrada nela talvez tenham sido um erro. Mas uma vez cometido, esse erro não seria anulado por se acumular com outro ainda maior, com consequências ainda mais graves. E se porventura não tivermos alternativa – se Portugal for expulso da moeda única ou se esta, pura e simplesmente, se extinguir – não haveria preparação que nos salvasse da desgraça que imediatamente se abateria sobre o nosso pobre país.

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9 thoughts on “Bênção e maldição

  1. Em todo o mundo, desde os agricultores chineses, aos 80% de funcionários públicos em Cuba, passando pelo aumento imenso dos “welfare checks” dos democratas nos EUA, a esquerda precisa de pobre e remediados, q sejam dependentes do estado. Enqt lider do BE, a Catarina só ficaria contente com o agravar ainda mais da crise económica q já cá está há uma década.

  2. mariofig

    Pois claro. Seria uma catástrofe sair do Euro. Nunca mais recuperaríamos e estaríamos condenados para sempre. Não esquecer esta mensagem tão importante saída dos text books dos centralistas europeus, para assim, com o ameaça na língua e o medo na mente, seguirmos o caminho europeu. Ah! Sabe tão bem ser da EU! Que organização tão acolhedora e confortável.

  3. lucklucky

    “Uma vez no euro, essa “sobrevalorização” da moeda em relação à nossa capacidade produtiva cristalizou-se definitivamente, contribuindo significativamente para nossa estagnação económica”

    Patetice pegada. A moeda não tem nada que ver com estagnação económica.

    O Escudo do Estado Novo impediu o crescimento?

  4. mariofig

    Não é de estranhar que o liberalismo de direita coincida neste ponto com a extrema radical, independentemente do facto que as políticas a seguir pós-Euro não pudessem ser mais distintas. Percebemos muito bem o grave problema que o Euro se tornou para a nossa soberania pela forma insidiosa como se atravessa em toda a decisão política. Seria talvez aceitável se a moeda e o Banco Central mostrassem sinais de robustez e segurança. Seria (aí concordo com o Bruno) aceitável se tivéssemos uma cultura governamental em que se soubesse fazer bom aproveitamento da moeda única. Mas porque nada disso acontece, o Euro é um perigoso agente do centralismo europeu por um lado, e um grande catalisador do laxismo governativo português que tanto nos está no sangue. Defender o Euro é portanto puro e irresponsável suicídio. Diz bem Catarina Martins! E subscrevo com a minha assinatura de liberal de direita, que o bom mesmo é equacionar o método e as soluções para a saída ou queda do euro.

  5. lucklucky

    !?

    Para o Regime Socialista, descontando a especulação monetária do BCE o Euro é quase como ter a moeda pegada ao ouro.
    A Catarina Martins o que queria é uma impressora à Venezuela.

  6. ABC

    Não se pode ter sol na eira e água no nabal. Se o euro penalizou as exportações também é verdade que reduziu os custos de financiamento. E houve um dilúvio de fundos de coesão para amortecer o choque. O resto foi má gestão.
    Por mais voltas que os economistas dêem à questão, quando se gasta (e mal) mais do que se ganha o resultado é dívida.

  7. lucklucky

    Precisamente, o Euro é irrelevante, o regime socialista até esteve na quase bancarrota com o Escudo duas vezes.

  8. Dr Sigmund

    Ninguém nos resgataria? Ainda nao existia euro, e o FMI resgatou- nos duas vezes, além de também ter participado no último resgate.

  9. David

    LUCKYLUCKY pelo contrário, o Euro é relevante e é a única coisa que impõe alguma austeridade fiscal, para os países do Sul é quase como um padrão ouro. Se não fosse o euro já estavam as impressoras a trabalhar 24/7 e inflação nos dois dígitos. Recomendo que leiam o artigo “En defensa del Euro: un enfoque austriaco” de Jesús Huerta de Soto
    “Uma vez no euro, essa “sobrevalorização” da moeda em relação à nossa capacidade produtiva cristalizou-se definitivamente, contribuindo significativamente para nossa estagnação económica”
    Concordo consigo, dei uma risada quando li, isto é pura palermice.

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