Sobre a cegueira

Fechamos os olhos e perdemos. O meu artigo no ‘i’.

Gostamos de nos enganar

Numa entrevista a um jornal alemão, o presidente do Eurogrupo, o socialista Jeroen Dijsselbloem disse: “Tornamo-nos previsíveis quando nos comportamos de forma consequente e o pacto no seio da zona euro baseia-se na confiança.

Na crise do euro, os países do norte mostraram-se solidários para com os países em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade da maior importância. Porém, quem a exige também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu”.

Em Portugal foi a indignação geral porque, bem aproveitadas, as palavras de Dijsselbloem são um pretexto para o descredibilizar. Não demitir, pois a derrota do Partido do Trabalho a que pertence o afastará do futuro governo holandês e, por consequência, do Eurogrupo. Descredibilizar Dijsselbloem é, pois, ridicularizar qualquer outro que exija responsabilidade fiscal.

Portugal está no euro, mas sem assumir responsabilidades. É triste reconhecê-lo, mas é assim e a nossa classe política, desejosa para livremente comprar votos com o nosso dinheiro, não dá o exemplo. Sejamos sinceros por um momento: foi por mero egoísmo que o país falhou o desafio do euro. Quis viver melhor, mas sem o esforço que essa melhoria implicava. O falhanço foi nosso. Podemos bater à vontade em Dijsselbloem, que até estudou numa escola católica, mas o maior cego não deixa de ser aquele que não quer ver.

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11 thoughts on “Sobre a cegueira

  1. mariofig

    O comentário de Dijsselbloem não me enjoou, não me indignou. E é honesto, sincero e verdadeiro também pela forma como tão bem espelha as relações entre países na União Europeia. Só peca por ter sido tardia esta ideia de dizer o que nos vai na alma, em contraste com os sorrisos falsos e de circunstancia nas reuniões do Eurogrupo. Mas o comentário de Dijsselbloem é também mais uma das razões porque festejei antes de ontem com os meus amigos Ingleses o despoletar do artigo 50. Não lhe tiro uma vírgula à grande verdade que disse. Mas que me lembre não votei nele, e lá está juntamente com todos os restantes membros do Eurogrupo a exercer controle político sobre o meu país.

  2. MARIOFIG : “festejei antes de ontem com os meus amigos Ingleses o despoletar do artigo 50.”

    A UE e o Euro foram passos no sentido de um mercado mais alargado e fluido incluindo os paises membros e de uma maior liberdade de comércio a nivel mundial.
    É um processo em curso, inacabado, com avanços e recuos.
    A saida da Grã-Bretanha enfraquece a componente mais liberal no seio da UE.
    A adesão de Portugal à UE e a ao Euro deu a Portugal um acesso directo a este grande mercado e diminuiu (não anulou, como se viu e se vê, mas nada é perfeito) os riscos e os niveis de irresponsabilidade financeira.
    Globalmente, foi e tem sido positivo para Portugal : apesar de todos os precalços e impasses, os portugueses estão e vivem hoje melhor do que antes.
    A UE e o Euro devem continuar a ser melhorados e aprofundados.
    O famigerado comentário de Dijsselbloem resume metafóricamente a necessidade de se evitar um caminho que promoveria mais irresponsabilidade dos governos nacionais e acabaria assim por fragilizar ainda mais o projecto europeu. É mero bom senso, tanto mais bem vindo quando até é dito por um “socialista”.

    MARIOFIG : “não votei nele [Dijsselbloem], e lá está juntamente com todos os restantes membros do Eurogrupo a exercer controle político sobre o meu país.”

    A democracia ou é representativa ou não é operacional em “grandes sociedades”, por maioria de razão num conjunto como é a UE.
    A estrutura institucional da UE é complexa e com multiplos “balances” e “counter balances”, como deve ser.
    É certamente democrática : o voto dos cidadãos europeus exerce-se a vários niveis e nenhum pais está na UE contra a vontade do seu povo.
    O “Eurogrupo” é apenas uma das muitas instancias de avaliação e decisão no plano comunitário. O seu poder real é sempre limitado e escrutinado.
    Ainda bem que existe um “Eurogrupo” que controla certos aspectos da politica económica e financeira de um pais como Portugal, ainda mais quando governado por uma “geringonça” socialo-comunista.
    “O meu pais” também é europeu e eu votei e votarei para que continue a ser !!

  3. BPN 7000 milhões e a subir
    BPP 400 milhões
    BES 4900 milões e a subir
    Banif 2900 milhões
    CGD 2500 milhões ou mais
    Montepio – já estão a preparar a conta

    Já reparam no pequeno número de pessoas acusadas por corrupção ou más práticas e praticamente nenhuma condenação.

    Proponho que em vez de bancos se chamem tabernas e prostíbulos.

    Claro que se fizermos descer os salários e retirarmos todos os serviços públicos pode ser que o sistema se safe. Mas quem vai pagar não foi quem andou nas putas e vinho verde.

    Dijsselbloem é um homem económico: até poupou no tempo e dinheiro no mestrado que pôs no currículo. Um verdadeiro esteio moral.

  4. mariofig

    Fernando S., a seu optimismo em relação ao UE é admiravel…mente ingénuo. Chama de “recuos e avanços” um processo que tem sucessivamente retirado soberania aos seus estados membros e que está a aumentar as divisões no seio Europa com vários estados a equacionar a saída. Ora por razões económicas, ora financeiras, ora políticas, ora uma combinação destas. Não sei que avanços viu. Talvez pelo seu periscópio português ache um avanço poder imigrar para outros países na UE, ou ache que valeu a pena mandar queimar uma das maiores frotas pesqueiras do mundo para estarmos hoje a importar peixe, ou se calhar fica muito sensibilizado com a fábrica de lápis que exporta para a UE, mas esquece a destruição do nosso tecido industrial para satisfazer as quotas europeias. Talvez goste do dinheiro que vem de lá, sem se ter que o produzir cá.

  5. JO,

    Há pessoas acusadas de corrupção e até já houve condenações e prisões.
    Não sei se deveria haver mais porque não sou policia.

    Mas sei que a razão principal das perdas dos bancos tem a ver com politicas económicas erradas, em Portugal e noutros paises.
    As mesmas politicas expansionistas e despesistas que o JO e os seus amigos apoiaram e ainda defendem.
    Por exemplo, em Portugal, o forte crescimento do Estado e dos seus gastos favoreceu um desenvolvimento artificial de actividades não transacionáveis e viradas para o mercado interno, como é o sector bancário, em prejuizo de actividades transaccionáveis, mais viradas para a substituição de importações e para a exportação. Ou seja, houve um desequilibrio na economia que acabou por se tornar insustentável e rebentou em crises nacionais e internacionais.

    Quem paga os buracos e os ajustamentos são efectivamente os portugueses.
    Por isso é que era importante não parar e ainda menos reverter o processo de ajustamento, que é o que o governo actual tem vindo a fazer.
    A consequência é que os portugueses vão acabar por pagar ainda mais do que seria indispensável.

    “Gastar em copos e mulheres” (ou “em putas e vinho verde” ou noutras coisas, não interessa) é uma metáfora para dizer que houve paises que andaram a gastar colectivamente mais do que tinham e que agora não querem pagar o que ficaram a dever e vêm “exigir” solidariedade sem condições aos outros.
    Claro que nem todos beneficiaram ou beneficiaram igualmente e nem todos são agora chamados a pagar exactamente o que deveriam pagar.
    Esta é uma questão politica que diz respeito à repartição do fardo entre as diferentes categorias de portugueses.
    Por exemplo, o governo actual tem vindo a poupar algumas das suas clientelas e a sobrecarregar a maior parte dos restates portugueses (uma parte da conta já chegou, por exemplo, com o aumento da carga fiscal e com a degradação de certos serviços públicos, mas a restante virá ainda no futuro, como é costume).
    O que é um facto é que, como é dito no post, “[o pais] quis viver melhor, mas sem o esforço que essa melhoria implicava…[] o falhanço foi nosso” (colectivamente embora com responsabilidades individuais e politicas diferenciadas, acrescento eu).

  6. MARIOFIG : “um processo que tem sucessivamente retirado soberania aos seus estados membros e que está a aumentar as divisões no seio Europa com vários estados a equacionar a saída.”

    A unificação é precisamente isso : transferir alguma soberania de entidades territoriais e nacionais mais pequenas para uma entidade comunitária mais abrangente.
    Nada disto implica necessáriamente o desaparecimento das nações e de uma forte autonomia.
    Eu não sou “nacionalista” e por isso não tenho nenhum problema com a “perda” de alguma soberania, desde que consentida democráticamente.
    Até penso que pode ser um progresso em direcção de um mundo melhor.

    Tirando a Grã-Bretanha, que no fundo sempre esteve com um pé dentro e outro fora, não vejo mais nenhum pais a querer sair (vejo mesmo uma parcela da Grã-Bretanha, a Escócia, a não querer sair).
    Há naturalmente forças internas em diversos paises que o defendem, sobretudo nos extremos, à esquerda como à direita.
    Há mesmo quem tenha criticas fortes à UE actual e defenda mudanças importantes.
    Mas a esmagadora maioria dos europeus não quer sair da UE.
    Também em Portugal.

    A união europeia percorreu um longo caminho desde os finais dos anos 50 até à actualidade.
    Os avanços, no plano do bem-estar e da cidadania, foram enormes.
    Mas, claro que ainda há muito pela frente.
    As consequências económicas da crise internacional de 2008 e da crise europeia das dividas soberanas, o agravamento da problemática da imigração e dos refugiados, a ameaça do terrorismo islâmico, e outros problemas, têm feito com que a Europa atravesse hoje uma fase dificil e de desafios importantes.
    Mas a UE está muito longe de estar morta ou sequer moribunda.
    Claro que as posições e atitudes como as do Mário, embora sempre legitimas, não contribuem, antes pelo contrario, para a negociação e ultrapassagem desses problemas e desafios sem pôr em causa a unidade e a existência da UE.
    Mas ainda há muita gente que, como eu, acredita no projecto europeu e espero que este continue e se vá consolidando cada vez mais.
    O que é importante é que neste projecto as perspectivas mais liberais se sobreponham às que apontam para uma Europa mais socialista e centralizada.
    No fim de contas, é o mesmo confronto que se verifica igualmente ao nivel de cada pais e nada garante que a saida da UE viesse a favorecer um projecto nacional mais liberal.
    Pelo menos no caso de Portugal nos tempos que correm, parece-me que é antes o contrario.

  7. MARIOFIG : “Talvez pelo seu periscópio português ache um avanço poder imigrar para outros países na UE”

    Sim, acho que é um avanço de diferentes pontos de vista, desde o das pessoas que emigram (a UE não obriga ninguém) até às economias dos paises de emigração e imigração passando pela superação do que há de mau no nacionalismo e pela generalização do que há de bom no humanismo.

  8. MarioFig, daqui a pouco está a ilibar os (des)governos “sucialistas” da democracia portuguesa!!!

    Quer seja a destruição do tecido empresarial (que teve muito tempo e subsidios para se adaptar ao mercado único…), quer o abate da frota pesqueira, ou os subsídios para não produzir batatas, as condições foram (são) potencialmente, as mesmas para todos. No seio do euro a Irlanda prosperou, nós não; perdemos a frota pesqueira, os espanhois não; etc., etc. Antes de culpar a UE (assim como os idiotas dos ingleses), devemos olhar para nós próprios!

  9. André Miguel

    “mandar queimar uma das maiores frotas pesqueiras do mundo”

    Qual era essa frota??? A Portuguesa??? Não nos faça rir!

    Essa dos abates da frota pesqueira e da aniquilação da agricultura foi uma dos maiores embustes que a esquerda criou no nosso país para se ilibar do tremendo falhanço na gestão dos fundos comunitários.

    Estávamos praticamente em pé de igualdade com Irlanda e Espanha em 1986, hoje são duas potências a anos luz de Portugal. Culpa nossa e só nossa, de todos sem excepção. Ninguém nos obrigou a gastar à tripa forra em vez de investir (para os socialistas despesa é o mesmo que investimento, por isso fazem a merda que fazem e estamos como estamos…).

    O Euro foi e é uma benção para Portugal e se alguém quer saber o que seria a vida nos dias de hoje com o Escudo, que tente fazer turismo ou compras pelo mundo com kwanzas ou meticais para facilmente entender!

  10. Gabriel Orfao Goncalves

    Desculpem o off-topic, mas isto é de última hora (pelo menos para mim)…

    Eh pá, digam-me que isto é mentira. Digam que é tudo um brincadeira de quem fez a reportagem. Eu por enquanto não sei: por um lado, parece-me ser uma brincadeira de que fez o vídeo e o publicou; por outro, não há um desmentido oficial. O vídeo já tem alguns dias. Vi-o no blogue corta-fitas

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