O défice mais baixo… em democracia

Quero aqui complementar o post do CGP, onde ele escreveu:

«Em quarenta anos de democracia, esta deve ser a primeira vez que há um consenso em relação aos méritos de ter contas públicas equilibradas».

Esse consenso limita-se, claro, aos partidos do “arco da governação” (PS, PSD e CDS) em períodos de dificuldades orçamentais e sob pressão de compromissos externos (credores ou acordos internacionais). Caso contrário, nem pio sobre o défice. Por qualquer um deles!

Porém, no PS, este discurso de rigor orçamental só é feito enquanto está no Governo. E, como diz CGP, há que lembrar-lhes do que agora defendem quando mudar o ciclo político. É que já o esqueceram no passado recente. Relembro não só os PEC (1, 2, 3 e 4) e o Memorando de Entendimento que PS negociou com “troika” mas também, esta frase incluída na moção de estratégia política do PS em 2011, então coordenada por António Costa e aprovada no XVII Congresso do partido:

[A consolidação orçamental] é um esforço que tem de ser feito para garantir o nosso empenhamento na criação de condições de financiamento da economia portuguesa, indispensável à actividade económica.

Agora que PS voltou à cadeira do poder executivo não é de admirar que haja novo “empenhamento” em atingir metas orçamentais definidas em Tratados Europeus. Têm, contudo, um grande problema: apesar do continuado apoio parlamentar pelos partidos da extrema-esquerda (a dita “Geringonça”), estes – principalmente BE e PCP – clamam por maiores défices:

Durante as suas interpelações ao ministro das Finanças, Bloco de Esquerda e Partido Comunista mostraram o seu desagrado com o valor de défice anunciado pelo ministro das Finanças, argumentando que existia margem para mais medidas de reposição de rendimentos.

Não fossem as pressões da União Europeia e/ou PS estivesse na oposição, certamente o discurso político de António Costa e seus acólitos estaria mais de acordo com bloquistas e comunistas. Aliás, foi assim que ganhou o apoio destes a seguir às eleições legislativas de 2015.

Com a necessidade de continuar a descida do défice (em 2017 esperam voltar a ter o «défice mais baixo de sempre em democracia»), o descontentamento dentro da “Geringonça” tenderá a agravar-se. A “bengala” de António Costa tem sido – e será cada vez mais – desviar culpas para Comissão Europeia, Eurogrupo, Banco Central Europeu, credores internacionais, conjuntura económica, sistema bancário, etc. Deste modo, conseguiu manter BE e PCP como… “cordeiros em pele de lobo”. A ver se continuam assim.

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8 thoughts on “O défice mais baixo… em democracia

  1. Vocês sabem perfeitamente que um governo que não faz reformas estruturais e atira a despesa para a dívida, sendo que o défice de 2016 real está acima de -3%, vai cair mais tarde ou mais cedo.E o défice não é o mais baixo da história da democracia, em Maio o EuroStat vai afirmar isso mesmo. A DBRS não pode manter o protagonismo por muito mais tempo, aliás, é isso mesmo que quer protagonismo, é por isso que ainda não nos atirou para investment junk.

    https://portugalgate.wordpress.com/2017/03/30/as-previsoes-do-banco-de-portugal-e-o-falhanco-do-ps/

  2. “A “bengala” de António Costa tem sido – e será cada vez mais – desviar culpas para Comissão Europeia, Eurogrupo, Banco Central Europeu, credores internacionais, conjuntura económica, sistema bancário, etc. Deste modo, conseguiu manter BE e PCP como… “cordeiros em pele de lobo”. ”

    A melhor “bengala” que o PM Antonio Costa tem e … Passos Coelho a frente do PSD , quando o BE ou o PCP começam a chaterar e so apontar e dizer ” E aquele que querem como futuro PM?”

  3. André Miguel

    “Reposição de rendimentos” é uma expressão que me causa bastante urticária… Como é que se repõe aquilo que nunca foi realmente ganho? Esta gente ainda não percebeu que as suas “conquistas” foram e são dívida?!

  4. lucklucky

    Alguém vê a esquerda a ser condenada por apoiar extremistas islâmicos e ao mesmo tempo dizer que está contra o sexismo?

    Não, logo porque esperam que isto seja diferente?

  5. David

    André Miguel Reposição dos rendimentos poderia ser um alívio da carga fiscal, mas isso nunca vamos ter, é incrível que mesmo com os impostos altos como estão não se consiga alguma vez ter tido um défice inferior a 2.1%

  6. André Miguel

    David, de acordo, mas quando BE e PCP usam essa expressão significa apenas aumentar salários e pensões da FP, os privados que paguem a factura aumentando impostos. Mas acho que Laffer está já aí ao virar da esquina.

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