Explicando o conceito de produtividade

Frequentemente encontro por aí boas explicações sobre o que significa produtividade. É o caso de um curto vídeo, divulgado no Jornal Económico, da autoria do professor Nadim Habib, da Nova School of Business and Economics. Nesse vídeo o professor Nadim dá três boas dicas para as organizações melhorarem a sua produtividade, todas elas derivadas da mesma ideia: é fundamental descentralizar a decisão para que ela esteja presente em todos os níveis da hierarquia. Todos, na sua esfera de responsabilidade, devem ser capazes de decidir.

A discussão sobre a suposta (não) produtividade dos portugueses ganhou nos últimos dias algum mediatismo, quando uma personalidade da política europeia reduziu aquilo que é a nossa pretensa atitude enquanto povo, a uma versão adulta da fábula da formiga e da cigarra, em versão redlight district, que é como quem diz, por cá a malta gosta é de de copos e gajas.

O problema de vídeos como este – e não é uma crítica, na medida em que tudo o que lá se afirma me parece muito bem dito e explicado -, é que por vezes criam a sensação falsa que a produtividade depende apenas do fator trabalho, e da capacidade de nos organizarmos enquanto empresas dotadas de pessoas. E não estarei longe da verdade se afirmar que, com elevada frequência, na discussão comum, as análises sobre a produtividade no trabalho são motivo de forte incompreensão, porque existe a convicção – certa – que os portugueses investem mais horas a trabalhar que os seus congéneres europeus mais desenvolvidos. Culpam-se patrões, o colega do lado, a função pública, sem contudo se identificar aquela que é a razão que mais contribui para o nosso atraso relativo. E se há, sem dúvida, em alguns setores da nossa economia (em particular, nos serviços), uma má organização do trabalho, uma fraca gestão da empresa (por comparação com outras zonas económicas), ou um peso desmesurado dos gastos públicos face ao PIB, a raíz fundamental da nossa falta de produtividade não resulta, na minha leitura, do fator trabalho, ou do número de horas que a generalidade dos portugueses dedicam à sua profissão (o mesmo já não direi do peso dos gastos públicos, logo, dos impostos, no PIB, que penalizam a acumulação de capital, mas isso fica para outras núpcias).

Se olharmos para os dados da produtividade do trabalho na UE, ficamos espantados quando constatamos que a mais elevada taxa de produtividade se situa no Luxemburgo, país onde residem e trabalham centenas de milhares de portugueses. E a explicação não é, como muitos possam pensar, que o emigrante se esforça mais no estrangeiro do que em Portugal (o que não quer dizer que isso não possa acontecer, mas não explica a diferença colossal de produtividade do trabalho, entre o Luxemburgo e a Alemanha, por exemplo, e Portugal).

A produtividade resulta da adequada combinação de todos os fatores de produção. Na definição de Say, serão fatores de produção a terra (terras aráveis, floresta, minérios), o trabalho (mão-de-obra) e o capital (máquinas, equipamentos, instalações, matérias-primas). A produtividade neste sentido mais simplista pode ser definida, assim, como uma medida de eficiência na combinação dos diversos fatores de produção. O problema está em que para que uma empressa – ou um país – sejam produtivos, devem ser capazes de combinar todos estes fatores da forma relativamente mais eficiente.

Imaginem o seguinte caso. Uma determinada companhia aérea do país A possui três aviões, voando sempre com quatro pilotos, três chefes de cabine e oito funcionários de cabine. Uma empresa concorrente, do país B, para o mesmo número de aviões, viaja apenas com dois pilotos, um chefe de cabine e cinco funcionários de cabine. Em terra, as malas no país A são todas elas descarregadas à mão, demorando em média mais 30 minutos a ser carregadas e descarregadas do que no país B, que dispõe de um moderno aeroporto, construído sem luxos mas bem pensado do ponto de vista logístico. No país A a carga fiscal é 15% superior ao país B, porque é necessário pagar salários a pessoas ocupadas em funções menos eficientes (como carregar malas). Os aviões da companhia do país A, como esta dispõe de pouco capital, são mais antigos, consomem mais combustível, e passam mais tempo na manutenção em virtude da idade, voando assim menos horas (daí os aviões operarem com mais pessoal). O que acaba por acontecer é que a empresa do país B é muito mais produtiva do que a do país A, apesar dos trabalhadores da empresa do país A trabalharem mais horas, não só em pleno voo, mas na manutenção e na logística – para não falar das vezes que o avião avaria, e o pessoal fica preso num país distante, por vezes, durante 24 horas. Se o problema do excesso de pessoal a bordo resulta de má organização do trabalho, já os restantes, associados à logística e à antiguidade das aeronaves, são fruto de uma ineficiência relativa ao nível do capital.

Desde longa data que o nosso atraso não resulta do facto dos portugueses trabalharem pouco, ou poucas horas – antes pelo contrário – mas de termos pouco capital: o que obriga a desvalorizar o preço do trabalho. Se pensarmos bem, quando dispomos do capital adequado, e fazemos o mix correto entre terra, capital e trabalho, as nossas empresas são competitivas. Pouca maquinaria, má matéria-prima, pouco investimento, perpetuam a baixa produtividade. É por essa razão que muitos criticam as atuais opções governativas, e não estão entusiasmos com aquilo a que se assiste na política económica da geringonçanomics. Num país que precisa de crescer, o governo optou por reduzir o investimento, subindo as pensões e os salários. O cumprimento nominal da meta do défice é positiva, na medida em que onera menos as gerações futuras. Ao privilegiar, de forma radical, porém, a reposição salarial em sacrifício da redução fiscal e do aumento do investimento, estagna-se o crescimento, adiando o país. O mesmo acontece com muitas empresas que, estando hoje exclusivamente preocupadas com a produção atual, estão a conseguir bons resultados, sem contudo acautelarem a sua reestruturação e o investimento. É isso que os obervadores externos nos dizem, há mais de um ano, penalizando violentamente os juros da nossa dívida nas maturidades mais longas. Porque são muitos os que, fora daqui, com uma visão imparcial, estão convictos que a nossa economia, com reduzido investimento em alguns fatores críticos na área do capital, e com uma política apenas focada  na manutenção de direitos e na sobrevivência política do Governo, não vai conseguir crescer o suficiente para dar sustentabilidade à dívida e alimentar, no futuro, o país. E isto devia preocupar os portugueses, sobretudo os mais jovens. Pouco falta para que Portugal seja um país interessante, sim, mas para os que não são portugueses, ou seja, para aqueles que não têm de suportar o ónus da dívida do país, nem as suas profundas desigualdades.

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11 thoughts on “Explicando o conceito de produtividade

  1. André Miguel

    Já no sec XVIII um tal de Smith explicava isso bem explicadinho, nem era preciso desenhos para entender, mas como tem carimbo de malvado liberal é livro mais difícil de encontrar na tuga que o Mein Kampf. Marx é que é bom para a nossa academia. Resultado está à vista e mais claro ainda vai ficar. Siga o baile.

  2. jo

    Como combina um aumento do investimento público com uma redução de impostos?
    Porque não há investimento privado, se não é proibido?
    Qual foi o sentido de vender todas as empresas públicas produtivas que tínhamos e depois ficar a carpir que não há investimento público? Não teria sido mais lógico não desinvestir?
    Em que altura o investimento público passou de algo totalmente inadequado para algo que faz muita falta?
    Os nossos economistas dizem que o estado não deve ter empresas industriais, que os serviços que presta são melhor prestados por privados, que se investiu demasiado em infraestruturas, que existem infraestruturas a mais e depois dizem que não há investimento público suficiente. Não compreendo, investir em quê?

  3. Dervich

    Excelente post Rodrigo, na verdade, nem parecia escrito por si…(Enfim, também não sei lhe dizer se isto constitui um elogio ou não, fica ao seu critério).

    Foi pena aquela contradição na parte final, mas sobre isso o JO já falou aqui em cima.

  4. JO : “Como combina um aumento do investimento público com uma redução de impostos?”

    O governo actual combina uma redução do investimento publico com um aumento de impostos !…
    Apesar dos partidos que constituem a actual geringonça terem dito que iriam aumentar, e muito, o investimento publico e reverter o “enorme aumento de impostos”, o governo actual não só não aumentou o investimento publico como o reduziu e não só não reverteu o aumento de impostos, a não ser para uma minoria clientelar da classe média-alta urbana, como aumentou ainda mais a já elevada carga fiscal.

    Não me parece que o Rodrigo Adão da Fonseca considere o aumento do investimento publico como indispensável e determinante para o aumento da produtividade.
    O mais importante, ele di-lo claramente, é o investimento privado, o das empresas, é o aumento do capital privado.
    Certo, teria sido preferivel o Estado não ter reduzido tanto o investimento publico apenas para, nomeadamente, poder aumentar mais rápidamente os vencimentos na função pública e reduzir prioritáriamente o Iva da restauração.
    Mas o mais importante para a produtividade é mesmo o investimento privado.
    O governo teria feito melhor em aproveitar alguma margem orçamental imediata (porque estruturalmente não há nenhuma margem tendo em conta a elevada divida pública), mesmo que conseguida ou reforçada com mais cortes nos gastos correntes e no investimento publico, para avançar nomeadamente em duas direcções :
    1) reembolsar mais divida pública mais cara substituindo-a por empréstimos mais baratos – esta é a “restruturação” da divida que lhe poderia dar maior sustentabilidade e fazer com que as taxas de juro em maturidades longas descecem em vez de aumentar ; uma efectiva consolidação das contas públicas, e não apenas uma redução do déficit orçamental que não é estrutural e sustentável (cortes nos gastos sem reformas no funcionamento do Estado ; aumento da carga fiscal) é que poderia dar confiança aos mercados e aos investidores;
    2) reduzir progressivamente a fiscalidade sobre as empresas e sobre o capital de modo a incentivar e atrair mais investimento privado.
    Já para não falar agora em medidas não orçamentais mas de natureza estrutural dirigidas à economia, as tão reclamadas “reformas estruturais”, que o governo actual reverteu, suspendeu ou adiou para a calengas, e que são indispensáveis para dar confiança e favorecer realmente o investimento privado, nacional e externo !…

  5. Caros Jo e Dervich;

    Para que possa haver investimento e formação de capital, é necessário liquidez. A redução fiscal é uma das formas mais imediatas de permitir poupança e fomentar o investimento privado.

    Noto em qualquer caso que o investimento a que me refiro no post não é necessariamente nem público nem privado. A opção política que no caso concreto analiso é que vai no sentido de subir o custo do trabalho, repondo salários e pensões, em prejuízo da formação do capital, seja pela via da redução fiscal, seja pela via do investimento. Nesta linha não há nenhuma incompatibilidade, pois a redução fiscal favorece o investimento privado, e igualmente, uma menor alocação de verbas ao fator trabalho poderia ter permitido mais investimento público. É tudo uma questão de aritmética e alocação de verbas em sede orçamental.

    Convém ainda pôr um ponto de ordem num tema que parece haver dificuldade em perceber entre alguns leitores. Para mim, e para muitos dos Insurgentes (não sei a opinião de todos), o maior problema do investimento público em Portugal é que tenha sido feito com base em dívida, e numa errada alocação de verbas a ativos que são pouco reprodutivos. Não sou, e muitos por aqui também não o são, fundamentalmente, por dogma, contra a melhoria da rede viária, dos aeroportos, da via férrea, das asessibilidades e da qualidade das nossas cidades. O problema é que se tenha considerado que isso ia ser uma forma de acelerar a produtividade, tendo sido feitos os investimentos com base numa dívida que hoje se demonstra dificil de sustentar. É o optimismo despesista que assusta, o errado cálculo, a vontade de comer, o ataque aos bancos, as rendas, tudo isto assusta, e não necessariamente a existência de algumas infraestruturas que, num país como Portugal, é normal que sejam públicas, ou pelo menos, que nasçam da iniciativa pública.

  6. JO : “Qual foi o sentido de vender todas as empresas públicas produtivas que tínhamos e depois ficar a carpir que não há investimento público? Não teria sido mais lógico não desinvestir?”

    Globalmente, considerando o conjunto da economia nacional, não houve desinvestimento : através da venda o Estado retirou-se do capital dessas sociedades mas foi substituido pelo capital privado.
    Mais, até houve normalmente um aumento do investimento na medida em que varias dessas empresas públicas foram compradas por investidores estrangeiros com capitais trazidos do exterior.

    A privatização dessas empresas é ainda uma condição importante para que estas possam aumentar o investimento em meios produtivos tendo em conta o facto do accionista Estado estar sem dinheiro para o fazer actualmente e até num futuro previsivel.
    A TAP é o exemplo mais evidente e conhecido mas o mesmo acontece com a generalidade das outras empresas que foram privatizadas.

    Acresce que a gestão privada das empresas é em geral mais eficiente do que a gestão pública e sob tutela ministerial.

    Para além destas vantagens directas para as próprias empresas e em termos do investimento produtivo a nivel nacional, a venda das empresas públicas permitiu ao Estado um encaixe de dinheiro que foi extremamente útil para a consolidação das contas públicas.
    Acontece que esta consolidação é indispensável para que o Estado deixe de sobrecarregar tanto a economia privada através de uma carga fiscal elevada e desviando daquela recursos financeiros e produtivos, condições necessárias para um aumento do investimento e, com ele, da produtividade.

  7. José Miguel Cerdeira

    Haja alguém… Farto-me de explicar isto cada vez que se fala da nossa produtividade. Estamos sempre a comparar coisas que não são comparáveis, como se fosse possível comparar a produtividade de um miúdo a fazer contas de cabeça com a do mesmo miúdo a utilizar o Excel.

  8. “Estamos sempre a comparar coisas que não são comparáveis, como se fosse possível comparar a produtividade de um miúdo a fazer contas de cabeça com a do mesmo miúdo a utilizar o Excel.”

    São comparáveis …
    O miudo, com o Excel, chega ao resultado mais depressa e ganha por isso tempo : é mais produtivo com do que sem !
    Mas, para ser mais produtivo, tem de ter acesso ao Excel (capital), aprender a utilizá-lo (qualificação), utilizá-lo apenas quando e sempre que se justifica (por exemplo, não interessa perder tempo no PC com uma operação simples que pode muito bem ser feita rápidamente de cabeça) e utilizá-lo convenientemente (eficiência).
    Dito isto, enquanto o miudo não tem Excel ou não o sabe utilizar como deve ser então tem mesmo de tentar compensar passando mais tempo nas contas de cabeça ou em tentativas com o Excel : ganha alguma produtividade no final do dia trabalhando mais horas.

    Um dos circulos viciosos em matéria de desenvolvimento que nós ainda vamos tendo em Portugal é que, enquanto não temos ainda capital suficiente bem como qualificações e capacidades para uma melhor utilização daquele que temos, não fazemos o necessário para ir compensando o déficit de produtividade ‘tecnológica’ com mais produtividade “primária”, mais tempo de trabalho (dai que seja irresponsável e contraproducente estar a querer trabalhar tanto ou menos tempo do que noutros paises mais avançados) e com menos custos de trabalho (dai que seja irresponsável e contraproducente estar a querer aumentar salários sem estarem assegurados aumentos de produtividade ainda maiores).

  9. Obrigado RAF, não estava a entender porque razão o post e os comentários não batiam certo com um vídeo onde se fala em mau planeamento, cadeias hierárquicas demasiado rígidas e má gestão em geral.

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