Um pequeno ensaio sobre a grande estagnação

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O motto foi dado por uma partilha do sempre recomendável Pedro Romano. O link apontava para um artigo do Simon Wren-Lewis, um pós-keynesiano indefectível de Oxford, que, à semelhança de outros economistas como Larry Summers, acham que a grande estagnação económica, particularmente visível no século XXI, se deve a um problema crónico, ou estrutural, de falta de procura agregada.

A posição tem alguns argumentos válidos, embora, em última análise, se trate mais de um problema de método: como os modelos keynesianos dão muito ênfase à procura agregada (basta ver que o modelo IS/LM de Hicks nem inclui oferta agregada; foi necessária uma alteração tardia, que, de forma mal amanhada, resultou no modelo AS/AD), então tudo é um problema de procura agregada. Parece-me — e isto é uma perspectiva pessoal, pois a questão está longe de estar encerrada — que existem outros factores, especialmente do lado da oferta, que poderão explicar este declínio no PIB, ou mesmo na percepção do crescimento do PIB (uma outra teoria é que muitos dos ganhos actuais não são contabilizados no PIB).

Seja como for, escrevi um pouco sobre o assunto. O pouco alongou-se, e de pouco virou um (pequeno) ensaio, que recua ao século XVIII para fazer compêndio para o que temos hoje. Um pequeno ensaio sobre a grande estagnação.

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9 thoughts on “Um pequeno ensaio sobre a grande estagnação

  1. lucklucky

    Existem muitos potenciais factores.

    Necessidade
    O crescimento no passado deveu-se a necessidade. Era preciso comer, ter abrigo, ter transporte. Tal como hoje há cada vez mais obesos porque o corpo não se consegue adaptar ao excesso de comida também hoje se as necessidade mais preementes estão satisfeitas a ambição não atinge tantas pessoas.

    Cultura
    Corolário do anterior.
    E se uma sociedade não estiver disposta a fazer o esforço para crescer mais? Se o objectivo social for carro, uma casa e um emprego( de preferência seguro no Estado/Governo). Esse crescimento já está atingido no essencial e não há mais objectivos.

    Humanos
    Implica saber, mas a capacidade cérebro do humano, os seus sentidos limitados implicam limites ao saber.

    Especialização
    Com a tecnologia veio a especialização devido aos limites humanos referidos no ponto anterior. Quando se atinge o limite da especialização possível atinge-se um limite no crescimento por via da especialização.
    E possivelmente o efeito contrário.

    Tecnologia
    Há limites físicos ao desenvolvimento tecnologia. Normalmente quando se chega a estagnação desenvolve-se tecnologia noutra área que depois pode originar renovação nessa área que esteve estagnada. No entanto os limites existem mas primeiro atinge-se os:

    Diminishing Returns
    Com o desenvolvimento de coisas fáceis e entendíveis pelo humano comum passamos a coisas complexas em que os custos para o seu desenvolvimento passam a ser astronómicos sem que o impacto seja comparável.
    PAL 720×576, HD 1920×1080, 4K já estamos a atingir o limite. Quem precisa de 4K?
    Voltamos aos limites humanos.

    Linguagem
    A linguagem é um limite ao crescimento por via dos processos de pensamento.
    A sua simplificação é uma vantagem para a especialização mas uma desvantagem para a redundancia e aparecimento de novos conceitos.

    Socialização
    Uma excessiva socialização implica a negação da inteligência, implica que as pessoas são cada vez mais iguais, hajem em rebanho, logo muito menos hipóteses de desenvolverem algo diferente.
    Os países Comunistas caraterizados por “igualdade controlada” estagnaram economicamente e atingiram o colapso logo após o saber da revolução industrial ter dado os últimos cartuchos e mesmo assim mal. Até tiveram de ir bater a porta do capitalista Agnelli para terem Ladas.
    As grandes ideias começam na cabeça de alguém que é diferente de todos os outros. A cultura do igualitarismo, da escola publica, ou da falsa escola privada, da TV, do jornalismo marxista ocidental assegura a estagnação e a decadência.

    Just Good Enough
    Muita gente consciente do que necessita já não precisa de tecnologia de ponta para muita coisa, se alguém precisa de escrever texto e alguns blogs pode comprar um dos mais baratos computadores e fica bem servido, e esse computador não precisa de ser substituído a cada 2 ou 3 anos mas a cada 6 ou 7 anos , e chegaremos a mais de 10 anos…

    Eficiência e Qualidade.
    A eficiência baixa os preços logo baixa o crescimento – devido ao modo como se o mede – se a quantidade não cobrir a baixa de preços.
    Assim como a durabilidade. Uma casa que dura 100 anos em vez de 30 se o preço não for o triplo implica menos crescimento.

    Como se mede o crescimento.
    E aqui temos o meta problema, a medição do crescimento.Pode haver crescimento e esse ser uma coisa má. Se aumentar o crime as empresas de segurança tem um grande crescimento. Assim como a construção civil/carpinteiros etc.
    Foi um dos grandes crescimentos económicos nos últimos 40 anos anos em Portugal o investimento em segurança. Não significou a melhoria da qualidade de vida. Como escrevi no tópico anterior, mais durabilidade, mais eficiência a partir de um determinado grau são anti crescimento tal como é medido hoje em dia.
    São excelentes para as pessoas mas mau para o crescimento e para o inflacão dos custos do Estado.

    Enquanto o capitalismo assegura que os preços das coisas se tornam mais baixo ou com melhor qualidade, o sistema político assegura que os custos do estado estão sempre a crescer. Um aspirador há 40 anos custava mais que uma licença para fazer uma obra numa casa, hoje é o contrário.

    Política
    Como Populismo e Extremismo dos partidos Centristas domina as sociedades Ocidentais banhados numa cultura marxista, inflacionista e empregadedorista não se ve como o problema poderá ser resolvido. Essencial para que este sistema continue que as pessoas continuem mal informadas. Que é o que acontece a quem ler ou ver cada um dos nosso jornais ou TV’s.
    Até a tecnologia mudar a política. Já há alguns sinais.
    Brexit e Trump aconteceram por causa da tecnologia.

    PS: sem alguns acentos.

  2. André Miguel

    Luckluky, muito bem, faltou só um ponto, quando refere a socialização e a tecnologia: a percepção, nos países desenvolvidos, que há uma franja da socieadade a viver à custa dos impostos dos outros. Que incentivo isso dá para arriscar, investir e empreender?

  3. lucklucky

    Tem razão falhei em referir esse ponto directamente embora tivesse incluindo no Populismo e Extremismo dos Partidos ditos Centristas.

  4. Luís Lavoura

    Lucklucky, muito bem. Eu talvez acrescentasse outras possibilidades, como o envelhecimento da população, o qual faz diminuir a inventividade e a ambição, ou o facto de uma cada vez maior percentagem da população ser inativa, devido ao adiamento da morte e à cada vez maior duração da educação.

  5. O Simon Wren-Lewis nao e’ post-keynesiano, mas sim neo-keynesiano, como se pode facilmente constatar no seu blog. A diferenca e’ importante, pelo que o post deve ser corrigido.

  6. Luís Lavoura

    Um aspirador há 40 anos custava mais que uma licença para fazer uma obra numa casa, hoje é o contrário.

    O aspirador pode em grande parte ser fabricado por máquinas. A licença para obras exige a interevenção de técnicos que vistoriem e avaliem. O trabalho humano é caro, o trabalho das máquinas não. Isto é a própria definição do progresso: os bens materiais vão ficando cada vez mais baratos em relação ao preço do trabalho humano.

    O aspirador é fabricado na China. Os técnicos que vistoriam a construção são portugueses. O trabalho de portugueses é mais caro do que o de chineses.

  7. lucklucky

    “e à cada vez maior duração da educação.”

    É outro bom ponto ponto que está inserido aqui “A cultura do igualitarismo, da escola publica, ou da falsa escola privada”

    Leiam sobre a vida de um génio até ao início do século XX, na maior parte teve estudos privados, com professores dedicados, começou a criar mesmo na infância ou na adolescência.
    As grandes fases de criação são na adolescência e no início da idade adulta, hoje são passadas dentro de uma escola que por escolha política socializante favorece a mediocridade e trata todos iguais…

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