O panorama político português em perspectiva

Os leitores mais atentos terão notado a alegria de alguns membros do Partido Socialista pelo fraco resultado do Partido Trabalhista nas eleições holandesas. Alguns acharão estranho que responsáveis políticos do Partido Socialista regozigem com a derrota de um partido que pertence à mesma organização política europeia: o Partido Socialista Europeu. Na realidade, sendo teoricamente da mesma força política europeia, estão longe de representar a mesma ideologia. O panorama político português inclinado à esquerda faz com que um partido teoricamente de centro-esquerda em Portugal seja, no contexto europeu, um partido mais próximo da esquerda dura. E no contexto mundial, um partido bem próximo da extrema esquerda. No gráfico abaixo podem ver uma representação do panorama político de 6 países: Portugal, 4 outros países europeus e os EUA. À esquerda os partidos mais socialistas e á direita os mais amigos da economia de mercado. Esta análise só considera a política económica. Excluí da análise os partidos nacionalistas por, normalmente, não se focarem demasiado nas questões económicas e variarem bastante as suas posições nesses temas. No caso da França, da da a sua situação específica, optei por colocar os candidatos presidenciais em vez dos respectivos partidos (da esquerda para a direita: Melenchon, Hamon, Hollande, Macron e Fillon. A linha preta representa o que é visto como centro em cada um desses países.

O campo ideológico inclinado em Portugal faz com que aquilo que é visto como o centro seja na verdade algo que noutros países europeus seria evidentemente de esquerda. O Partido Socialista Europeu junto os partidos de centro-esquerda de cada país, mas ser de centro-esquerda em Portugal é muito diferente de ser de centro esquerda na Alemanha ou na Holanda. Se juntarmos os EUA à equação (e aqui não quis juntar outras zonas desenvolvidas como a Oceania ou o Sudeste Asiático para que o gráfico não se alargasse demasiado à direita), então o centro-esquerda em Portugal torna-se indiferenciado da extrema esquerda no panorama internacional. No gráfico abaixo destaco aquelas que são as verdadeiras famílias ideológicas de cada partido:

Visto desta forma, é mais fácil de entender o entusiasmo do PS local pelo Syriza e o desdém pelo Partido Trabalhista Holandês ou pelo parceiro de coligação de Merkel, que também é da sua família política. Já o PSD e o CDS têm mais em comum tanto com o SPD alemão ou com o Partido Trabalhista Holandês do que o PS. Estando mais próximos ideologicamente do partido de Merkel, do VVD ou dos democratas americanos, estão ainda assim à sua esquerda. Não é também surpreendente olhando para a área destacada a azul que haja pessoas dentro do PSD que admirem Bernie Sanders. Destacado a verde está o espaço tido como centro político nos EUA: uma área política apenas a espaços preenchida na Europa e inexistente em Portugal.

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12 thoughts on “O panorama político português em perspectiva

  1. Aladdin Sane

    PB, informação adicional: já nâo têm Partido Comunista. O que restou dele foi um dos grupelhos que formou o Groen Links, mas já não têm qualquer influência ideológica nesse partido. A info que indicou sobre esse país está correctíssima.

  2. mariofig

    1. Qual a razão porque colocou o Fillon e omitiu Le Pen?
    2. Acha mesmo que o VVD está ao mesmo nível dos Republicanos?
    3. Bernie Sanders na maioria das suas políticas, estará à esquerda do PS e bem do agrado do PCP.
    3. De resto gostei.

  3. O PSD e o CDS estão mais à direita do que o SPD alemão, estão mais ao nivel da CDU e até mesmo do VVD holandês.
    O actual candidato do SPD ao lugar de primeiro ministro, Martin Schulz, até há pouco tempo presidente do parlamento europeu, tem feito frequentes elogios ao PS português e à politica da geringonça.
    Já a chanceler Angela Merkel, e em particular o seu Ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, têm repetidamente elogiado a politica anteriormente seguida pelo governo de Passos Coelho e mostrado distanciamento relativamente à aliança do PS com a extrema-esquerda e à actuação do governo actual.
    As pessoas no PSD que terão dito admirar Bernie Sanders são uma infima minoria e não são de modo nenhum representativas da linha actualmente dominante no PSD.
    Em França, a actual oferta politica representada pela candidatura do republicano François Fillon está bem mais à direita. Fillon tem apresentado a politica económica da Alemanha como um modelo a seguir. E vai inclusivamente mais longe em certos aspectos : por exemplo, o corte de 500 mil funcionários públicos.

  4. David

    Eu poria o Sanders mais alinhado com o PS e o centro americano mais à esquerda. Os republicanos só diferem dos democratas em economia na medida em que preferem impostos mais baixos, em termos de despesa, regulação da economia e estado social pouco diferem dos democratas e do centro Europeu.

  5. Podemos certamente discutir se este partido devia estar ligeiramente mais à esquerda do gráfico ou o outro ligeiramente mais à direita, mas o que é relevante aqui é entender a ausência de direita política em Portugal.

    O PSD é, como o nome indica e como o seu líder faz questão de relembrar, um partido da social democracia. A social democracia é uma ideologia de centro esquerda.

    Assim, à direita desta ideologia, aparece apenas o CDS, que representa 8% do Parlamento português. 92% do Parlamento português está entre a extrema-esquerda (comunismo) e o centro-esquerda (social democracia)

  6. LUCKLUCKY : Em quê ? [“O PSD e o CDS estão mais à direita do que o SPD alemão”]

    Em muitos aspectos e globalmente.
    Não é por acaso que o PSD e o CDS integram o mesmo grupo politico europeu que a CDU/CSU, o PPE, e o PS português é parceiro do SPD alemão na
    Aliança Progressista de Socialistas e Demócratas (S&D).
    Os posicionamentos dos partidos politicos nos diferentes paises devem ser contextualizados. As realidades nacionais são diferentes e as configurações politicas em confronto também.
    O nome do PSD e a referência à “social-democracia” tem a vêr com a história do partido nos anos do pós 25 de Abril e com a circunstância de ter reunido diferentes correntes não “socialistas” no seu seio.
    Por sinal, até foi Francisco Sá Carneiro que mudou o nome de PPD para PSD.
    Na altura, o termo “social-democracia” tinha uma conotação de moderação e de reformismo pró-mercado demarcando-se do socialismo anti-capitalista e de inspiração marxista que os partidos à esquerda, incluindo o PS de Mário Soares, diziam representar.
    É verdade que os anos passaram e o termo foi adquirindo cada vez mais uma conotação de centro-esquerda. Tanto mais que os partidos socialistas europeus, incluindo o português, também evoluiram abandonando de vez a referência ao marxismo e ao anti-capitalismo e reclamando-se eles proprios da “social-democracia”.
    Hoje em dia o termo está efectivamente desajustado para um partido politico que na realidade desde há muito, e hoje, com Passos Coelho, mais do que nunca, é da área do centro-direita europeu.
    Julgo que os dirigentes do PSD, a começar por Passos Coelho, só não mudaram ainda de designação e de referência porque não consideram oportuno, nas circunstâncias politicas actuais, estar a abrir um debate ideologico interno que poderia dividir e enfraquecer o partido.
    Mas, parece-me óbvio que um dia, mais cedo ou mais tarde, esse debate e uma mudança de nome terão de acontecer.
    O que é um facto é que hoje o PSD é claramente um partido que representa em Portugal a área politica onde se situam a generalidade dos partidos europeus de centro-direita, incluindo a CDU alemã e excluindo o SPD alemão, naturalmente.

  7. Dizer que em Portugal não há “direita” (não digo que seja claramente o caso do Carlos Guimarães Pinto mas é o de vários comentadores aqui no “O Insurgente”) não faz qualquer sentido e é inoperacional em termos práticos.
    De resto, a esmagadora maioria das pessoas, de direita ou de esquerda, portugueses ou estrangeiros, não tem esta ideia.
    Os termos “direita” e “esquerda” não têm um conteúdo idéologico e politico rigidamente e definitivamente estabelecido por quem quer que seja. É antes de mais uma designação de tipo topográfico, que situa as correntes e as forças politicas em presença relativamente umas às outras.
    Sempre houve e há sempre uma “direita” e uma “esquerda”.
    Claro que, consoante as épocas e os contextos nos diversos paises, o conteúdo e a linha de separação e confronto entre as duas grandes áreas pode evoluir ou diferir.
    Mas há sempre uma área politica que “pucha” no sentido de um modelo de sociedade e economia mais “estatal-progressista” e outra que “pucha” no sentido contrario, mais “liberal-conservador”.
    É verdade que os discursos ideológicos e as propostas programáticas até podem “puchar” mais ou menos.
    E é verdade que no seio de cada grande área há diferenças, algumas até muito importantes, que podem inclusivamente fazer com que os “centros” de cada lado quase se confundam e os “extremos” se toquem.
    Mas isso depende as mais das vezes e sobretudo do contexto local e temporal do confronto, do que está na altura em jogo, das correlações de forças entre as duas grandes áreas e no interior de cada área, das alianças politico-partidárias possiveis e operacionais, do estado das opiniões públicas e dos eleitorados, etc, etc.
    No que se refere a Portugal, nunca foi tão evidente a existência de duas ofertas politicas distintas, que “pucham” em sentidos opostos, de uma “esquerda”, o PS aliado à extrema-esquerda, e de uma “direita”, o PSD mais ou menos coligado com o CDS.
    Claro que podem sempre existir outras ofertas politicas, mais “centristas” ou mais “radicais”, mas a verdade é que não têm representatividade eleitoral ou força suficientes para poderem ser alternativas viáveis e operacionais.
    O que “não há” actualmente em Portugal é um “centrão”, uma coligação de governo entre um centro-direita (PSD/CDS) e um centro-esquerda (PS), como existem, por exemplo, na Alemanha, na Holanda ou até em Itália.
    O que “não há” actualmente em Portugal é uma “extrema-direita”, anti-imigração e anti-UE.
    E, já agora, o que “não há” mesmo em Portugal (e julgo que em lado nenhum) é uma “direita” “libertariana” com condições de se poder constituir como alternativa politica autónoma (de compromissos e alianças com outras forças politicas) minimamente viável e operacional. Ou seja, uma “direita libertariana” apenas pode contar politicamente na medida em que aceite fazer parte e ser uma componente entre outras de uma “direita” mais alargada e heterogénea. Mas isto implica forçosamente uma postura politica que não seja intransigente e sectária, implica concessões e convergências com partidos e sensibilidades da “direita” que existe efectivamente !…

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