Tapar o cometa com a bolota

Publico aqui o pequeno texto que o jornlista Bruno Faria Lopes escreveu no Twitter. Curto, mas revelador:

Desde 2010, com omissões pelo meio, que os relatórios de combate à fraude e evasão fiscais mostram dados relevantes para o caso das offshores. A receita que resulta de acções inspectivas a transferências para offshore é muito baixa: 4500 euros em 2010, um milhão em 2015. A inspecção do Fisco às transferências declaradas pela banca é por amostragem – são milhões de transferências, não se pode ver tudo. A escassa atenção do Fisco tem razões: vale mais focar inspecções onde se descobre mais receita fugidia: IVA é melhor exemplo. Isto não exclui investigação sobre este caso: porque não se publicitou, se houve favor a alguém, quanto imposto se perdeu, mas sugere que se terá perdido pouco imposto. E alarga perguntas: que critérios usa o Fisco para amostragem das inspecções? Repare-se que podemos (e devemos) fazer esta pergunta para qualquer acção inspectiva sobre qualquer imposto. Sobre resultados: combate à fuga no IVA rendeu 600 milhões em 2015. Inspecções a transferências para offshores deram um milhão.

4500 euros foi o montante de impostos obtidos com inspecção a offshores no último ano do governo Sócrates. 1 milhão de euros foi o obtido em 2015. O montante obtido com as inspecções mal deve ter dado (em 2010 certamente não deu) para pagar os salários dos inspectores envolvidos na inspecção. É disto que falamos no caso das offshores. No entanto, este caso serviu para desviar as atenções de um outro caso onde os contribuintes estão prestes a meter 5,9 mil milhões de euros. Para termos a noção das dimensões, ficam aqui os números por extenso:

Impostos obtidos com fiscalização a offshores em 2010: 4.500
Impostos obtidos com fiscalização a offshores em 2015: 1.000.000
Dinheiro dos contribuintes que será injectado na Caixa: 5.900.000.000

Mas talvez isto não chegue para perceber a diferente dimensão dos problemas. Para quem ainda assim não percebeu, a diferença de impacto nas finanças públicas de um problema e outro é a diferença de tamanho entre o cometa Halley e esta bolota:

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Mas não continuará a faltar quem nos queira alimentar bolotas, enquanto alguns as deglutirem com satisfação para fingirem que o cometa não está a cmainho. Continuemos então a deixar-nos alimentar por isto.

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9 thoughts on “Tapar o cometa com a bolota

  1. JP-A

    Para memória futura:

    O país está quase completamente tomado e anestesiado por um conjunto de bem-pensantes cérebros, que por acaso são sempre do mesmo quadrante. Isto durará enquanto nos calhar a sorte do que vem de fora se ir mantendo. Um dia que haja uma falha, o país desfaz-se como um baralho de cartas e afunda a pique. Quando aí chegarmos, a necessidade de racionar e o desespero de muitos farão vir à tona o que de pior há cá dentro. A corrupção e os esquemas irão alimentar a abordagem ao Estado e veremos nas instituições públicas um clima muito semelhante ao do pós 25 de Abril, com os instintos mais primitivos a sobreporem-se a tudo o que à frente aparecer, como de resto acontecerá com o nosso Costa Concórdia com a aproximação das eleições. Ainda vamos ver os “amigos” da senhora Merkel a rezar pela Alemanha e pela UE.

    A direita que se vá preparando antes que seja tarde.

  2. mariofig

    Penso que o jornalismo alternativo já fez o excelente trabalho de desmistificar e refutar o drama das transferências offshore. Também ajudou, diga-se em abono da verdade, a forma assertiva como o PSD e o CDS se comportaram sobre este assunto que deixou a geringonça confusa. Habituada que está a mentir, negar e falsear, não sabem como reagir quando a oposição diz “vamos lá então investigar este assunto a fundo doa a quem doer”. O governo já se mostra incomodado em prosseguir com este assunto, pelas razões que sabemos. Porque está lá envolvida muita da podridão socialista portuguesa. E portanto está na altura de voltarmos à CGD, que como muito bem diz trata isso sim de um valor astronómico (e portanto este sim digno de ser apelidado de escandaloso) de 5.9 mil milhões de euros.

  3. Triste circo. Sabe-se, porque já foi publicada, a causa das imparidades da CGD – Artlant, Vale de Lobo, EFACEC, GES, Cimpor, BCP, Grupo Lena, etc. Também se sabe quem era o conselho de administração – Vara, Gonelha, Cardona, etc.
    É uma questão de procurar links e aparecem as notícias e os nomes. Olhando para os nomes percebe-se porque razão o PS quer enterrar o assunto, de preferência sob uma montanha de dinheiro. Também se percebe que o PCP e o Bloco de Esquerda não queiram furar a providencial bóia a que estão agarrados, que é o PS de Costa.
    Também se percebe porque razão a imprensa atira todos os dias novos “casos” e “indignidades” à cara de quem a lê, e remeta (quando o faz) o caso CGD para os cantinhos onde ninguém vai ver – a imprensa tem donos e os donos já foram avisados, pelo primeiro-ministro, pelo presidente da república e pela maioria parlamentar, que o caso está encerrado. A mesmíssima imprensa que exige que os seus congéneres norte-americanos desafiem o presidente, o congresso, e o senado não tem cojones para fazer cá o seu trabalho.

  4. Pingback: Núncio mentiu – O Insurgente

  5. Luís Lavoura

    este caso serviu para desviar as atenções de um outro caso

    Este é um argumento disparatado – como se as nossas mentes e os nossos media não pudessem tratar simultâneamente de diversos casos.

  6. Ui…. não me digam que o xcosta não está todos os dias a contar com a menoridade intelectual e cultural dos portugueses, principalmente os que têm ligações ao partido mais socrático do universo. Segundo ui….e com o apoio do sabonete lux.

  7. LUIS LAVOURA : “como se as nossas mentes e os nossos media não pudessem tratar simultâneamente de diversos casos.”

    Poderiam … mas não o fazem !!…
    Neste momento dir-se-ia que há apenas o “caso” dos 10 mil milhões transferidos para offshores.
    Que aparece cada vez mais como um não caso : a montanha da grande fuga de dinheiro “nosso” para paraisos fiscais está a parir o ratinho das estatisticas não publicadas sobre operações normais e indispensáveis para a vida económica com a utilização de verbas declaradas e já tributadas, sobretudo por parte de empresas, muitas das quais estrangeiras que investem e trabalham no pais.
    Dois posts aqui em cima, um do Carlos Guimarães Pinto e outro do Helder Ferreira, são muito elucidativos.
    Em contrapartida, um caso sério, que diz respeito a um buraco de vários milhares de milhões de euros no “nosso” banco publico, a CGD, para o qual contribuiram créditos duvidosos dados a camaradas e amigos, mas não só, buraco esse que por sinal ainda não foi tapado, já este caso parece ter sido definitivamente “encerrado” pelos médias por simples indicação do 1° Ministro e autorizada recomendação do PR.
    Certamente que há uma dose importante de ignorância e inconsciência que explica este absurdo. Pelo menos numa parte dos média e da opinião pública.
    Mas é óbvio que há também muita má fé e instrumentalização politica. Da parte do governo actual e dos que o apoiam.
    Sim, é verdade, o “caso” dos 10 mil mihões (que entretanto teriam milagrosamente duplicado para 20 mil milhões !…) foi reciclado (já tinha sido noticia há quase 1 ano), relookado, relançado e empolado (e continua : o PS diz agora que quer ouvir os antigos Ministros das Finanças e por ai fora !…) para desviar as atenções dos casos CGD e dos avisos cada vez mais frequentes sobre a inexistência de medidas de fundo (as famigeradas reformas estruturais) que deveriam permitir dinamizar a economia e dar sustentabilidade às finanças públicas.

  8. Não é possível obter receita de transferências para offshores porque quem movimenta milhões sabe bem as regras e o dinheiro para offshores que seja de eventual fuga ao fisco não vai direto: vai via Irlanda, via Luxemburgo, via Malta, via Chipre, via UK (pelo menos estes 5): todos da UE, todos com tratado, todos com troca de informações, todos cooperantes!

  9. A fuga ao fisco é um problema com que todos os Estados têm de se confrontar.
    Não é só nem principalmente em Portugal.
    Mas, não nos enganemos nem nos iludamos : não é uma questão politica de fundo e estruturante.
    Bem mais importante é ter uma economia que seja dinâmica e próspera.
    Quanto mais riqueza for criada maior serão as receitas fiscais.
    E quanto menor for a carga fiscal global mais dinâmica e próspera tenderá a ser a economia.
    O problema não se resolve acabando com “offshores” mas antes criando as condições para que estes sejam cada vez atractivos e refúgio de capitais evasores e isto só se consegue baixando a carga fiscal nos paises “inshore”, reduzindo a diferença entre estes e aqueles.
    Sintomáticamente, muitos dos que mais gritam contra a evasão fiscal são também dos que mais defendem politicas que tendem a tornar os paises verdadeiros “pesadelos” fiscais favorecendo assim a existência e o sucesso de “paraisos” fiscais.
    Preocupamo-nos menos com o “offshore” e mais com o estado do “inshore” !!

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