A direita geométrica

Diz o Nuno Garoupa no seu artigo no DN hoje:

Uma possibilidade é que, simplesmente, não haja direita em Portugal. Ou havendo, seria apenas uma direita geométrica, um eleitorado que, declarando-se centrista ou social-democrata nos inquéritos de opinião, não se identifica com os partidos de e da esquerda. Mas, segundo o Portal de Opinião Pública (da Fundação Francisco Manuel dos Santos), o valor médio da orientação ideológica está ao centro (4,8 numa escala de 1/esquerda a 10/direita no final de 2012), ainda que a evolução tenha sido ligeiramente para a esquerda (5,5 em 1985). E está em linha com muitos países da Europa. O mito de os portugueses estarem mais à esquerda do que os seus parceiros europeus não tem grande fundamento nos inquéritos de opinião. Portanto, existe mesmo uma direita sociológica que, em conjunto com a tal direita geométrica, representa cerca de dois milhões de votos desde 1975.

Sendo eu um defensor desse tal “mito” de os portugueses estarem mais à esquerda do que os seus parceiros europeus, fiquei com curiosidade de ir ver o que é que os dados mencionados pelo Nuno Garoupa diziam. Em baixo podem ver o valor médio das respostas dos eleitores nos diferentes países ao Eurobarómetro (últimos dados são de 2012):

posicionamento-ideologico

Como podem ver pelo gráfico acima, Portugal é o 3º país da Europa onde, em média, os eleitores se colocam mais à esquerda, o que contraria a conclusão do Nuno Garoupa. Podemos sempre argumentar que, de facto, os números não são substancialmente diferentes de outros países europeus. Mas não nos podemos esquecer que estes valores são auto-declarados. Sabendo isto, o eleitor de cada país terá sempre em conta a situação específica do país onde mora. Por exemplo, um eleitor do SPD alemão anto-posicionar-se-à mais à esquerda, de acordo com o contexto político-partidário alemão. Já um eleitor típico do PSD, com uma ideologia semelhadante à do SPD alemão (eu sei que o PSD português pertence ao PPE), já se posicionaria um pouco à direita porque para si, ser de esquerda é apoiar o PS, o BE ou o PCP. Sendo um posicionamento auto-declarado, será de esperar que a resposta tenha sempre em conta o contexto específico do país e por isso a média esteja sempre muito próximo do 5. No entanto, mesmo considerando estes factores, Portugal continua a ser um dos países onde os eleitores mais se posicionam à esquerda. Isto tem, obviamente, reflexos no sistema partidário.

O resto do artigo de Nuno Garoupa, apesar da premissa que me parece errada, tem alguns pontos interessantes. Os partidos de direita têm vergonha de o ser. Pior do que isso, por terem medo de os combater, alimentam muitos dos preconceitos que existem em relação à direita, contribuindo para que o país continue a ser de esquerda.

Mais preocupante do que isto, Portugal é um dos países mais à esquerda no contexto europeu. Mas no contexto mundial, a Europa já é, de si, uma região bastante à esquerda. Não existe nenhuma região do mundo desenvolvido mais politicamente à esquerda do que a Europa: EUA, Japão, Oceania e Sudoeste asiático, todas estas regiões estão politicamente à direita da Europa. Ou seja, Portugal está à esquerda da região mais à esquerda em todo o mundo. E, cereja no topo do bolo, tem o governo mais à esquerda que o país teve nos últimos 40 anos. Tudo para dar certo.

Advertisements

16 thoughts on “A direita geométrica

  1. mariofig

    Penso que o problema que é apontado pelo Carlos Guimarães Pinto da auto-declaração vê-se muito bem no caso da Suécia que se encontra claramente no centro do gráfico, mas que tem em todo o caso vindo a ser dominado por governos maioritários com políticas liberais de esquerda. A não ser que os dados já reflitam a ascensão da direita no país causada pelas políticas desastrosas de imigração, a Suécia deveria estar a começar aquele gráfico. Ou a Suécia, ou a Grécia, outro país que realmente não se percebe muito bem o que está a fazer no meio da tabela.

  2. O truque aqui é o auto-declarado, porque se chegarmos a esses 4.8 e lhes perguntarmos a opinião sobre políticas comprovadamente de direita, duvido bastante que a maioria deles as apoiem. Este tipo de estudos devia ser sobre políticas concretas e não sobre percepções.

  3. A Grécia nalgumas coisas é dos países mais à direita da Europa, em que até ministros do Syriza tomam posse benzidos por um pope ortodoxo, e em que uma espécie de municipio continua a ser governado pela Igreja Ortodoxa (o género de sitio que na Europa ocidental teria sido vendido à força em hasta publica no século XIX)

  4. Já agora, interrogo-me se essa não identificação da direita como “direita” será uma excentricidade portuguesa -veja-se que o partido conservador sueco se autodenomina “os Moderados”, p.ex, e em francês até há a palavra “sinistrisme” (para designar o hábito dos partidos de direita terem nomes como “Rassemblement des gauches républicaines”). O René Remond até referiu que nas eleições presidenciais de 74 o único candidato se se dizer de direita foi o Le Pen, e que em 81 nenhum se dizia de direita (https://en.wikipedia.org/wiki/Sinistrisme)

  5. Carlos, a minha resposta está no próprio post – entre Portugal (com 4,8) e Irlanda (com 5,4 que corresponde onde estava Portugal em 1985) – não há qualquer diferença que me possa parecer relevante. “Podemos sempre argumentar que, de facto, os números não são substancialmente diferentes de outros países europeus.” Já agora o país mais esquerdista, Espanha, tem um importante e forte partido de direita que nunca disse que não era de direita (PP).

  6. Carlos Guimarães Pinto

    Nuno, e a minha contra-resposta também está lá. Pela forma como a pergunta é feita, a média terá que andar sempre por volta do 5. Se fosse feito nos EUA, provavelmente o valor médio também seria próximo de 5, apesar de os EUA estarem bastante mais à direita do que a UE. Um democrata Clintoniano, apesar de estar à direita de todos os partidos do PPE, provavelmente responderia que estava ao centro ou mesmo à esquerda (<5). Por isso, não é de esperar que o valor varie substancialmente entre 4 e 6. Dada a variabilidade possível, diferenças de algumas décimas são importantes neste indicador.

  7. Suspeito que os resultados terão mais a ver com a forma da distribuição do que outra coisa qualquer – quem esteja próximo do valor modal vai classificar-se com um 5, quem esteja à esquerda desse valor vai classificar-se na esquerda, e quem esteja à direita vai classificar-se na direita.

    Ou seja, se calhar um país com 60% de conservadores, 30% de liberais e 10% de nacionalistas pode aparecer mais à esquerda do que um com 60% de socialistas, 30% de liberais e 10% de comunistas

  8. Gaius Octavius

    A “Direita” em Portugal, assim rotulada pelos seus inimigos de Esquerda e Extrema-esquerda, é aquela coisa amorfa que acredita convictamente que a Extrema-esquerda “desempenhou um papel essencial no combate à ditadura fascista” e que por isso merece respeito e louvor.
    Ora, que espécie de Direita é esta que prefere Lenine, Estaline ou Trotsky a Salazar?
    Obviamente que ser Direita não implica ser salazarista, mas ser de Direita OBRIGA a que, tendo a ditadura do Estado Novo e a barbárie sanguinária marxista como as duas únicas alternativas possíveis, se opte sempre pela primeira.
    Mas uma suposta “Direita” que opta pela última mostra estar mais próxima da Esquerda que o comunismo representa do que da Direita que Salazar representava e por isso nunca poderia ser verdadeira Direita. Mas se em Portugal o respeito por comunistas é doença de que até a “Direita” padece, e se esta “Direita” prefere comunismo ao Estado Novo, isto diz-nos tudo sobre a real essência desta “Direita”.

    Portanto, quando se diz que a “Direita” em Portugal tem vergonha de se assumir como Direita, está-se a partir do princípio que há alguma coisa para assumir, mas como poderia alguém ter vergonha de assumir uma coisa que não é? A “Direita” portuguesa não se assume porque não é verdadeiramente de Direita.

    O problema é que o espectro político português está tão enviesado à Esquerda que aqui os sociais-democratas são “acusados” (sim, para a Esquerda indígena ser Direita é um estigma) de serem de Direita, o PS é visto como de Centro-esquerda e a Extrema-esquerda marxista (que em países civilizados é inexistente ou insignificante) faz o papel de “verdadeira” Esquerda. Basta lembrar que há portugueses que votam no PCP e no BE e pensam que não estão a votar em partidos revolucionários de Extrema-esquerda (e há muitos outros que sabem mas fingem que não, mas isso é outra história).

    Há países em que há partidos de Esquerda e partidos de Direita, mas em Portugal todos os partidos são de Esquerda, incluindo os de Direita. Se rasparmos os direitistas portugueses encontramos esquerdistas em grande parte deles.

  9. mariofig

    É necessário acabar de uma vez por todas com a noção de que o Estado Novo representou qualquer tipo de ideologia de direita. Não estou a dizer que o Gaius o faz, mas penso que não foi explicito o suficiente. Mas essa é a grande mentira perpetrada pela esquerda em Portugal que, por ser de esquerda, validou a sua luta acusando o inimigo de ser de direita. Mas a verdade é que o Estado Novo foi um animal único que nenhum historiador político nacional ou internacional consegue hoje catalogar excepto qualificando-o como conservador.

  10. mariofig

    Mais mais importante do que isso… quero deixar claro que não é verdade. Que ser de direita obriga a aceitar o Estado Novo como melhor alternativa ao Marxismo. Apenas poderá ouvir esse comentário quando se fazem comparações estatísticas entre ambos os regimes. Por exemplo, é claro que prefiro o Estado Novo quando olho para o número de vitimas em comparação com muitos dos regimes Marxistas, ou quando olho para os resultados económicos. Mas a verdade é que a resposta de qualquer pessoa de direita ao Estado Novo seria de luta e resistência. O Estado Novo representaria o alienar da iniciativa privada e da liberdade, dois grandes pilares ideológicos da direita moderna, dos mais liberais aos mais conservadores. E que portanto o Estado Novo não se distinguiria em nada de uma qualquer ditadura de esquerda.

  11. mariofig

    Nota. Quero pedir desculpa a todos os meus caros colegas por, de há uns dias para cá, passar a escrever post múltiplos quando normalmente poderia colocar tudo num posto. A verdade no entanto é que não o faço propositadamente. É a única solução que encontrei para um problema que começou à uns dias atrás em que o WordPress (o blog engine que alimenta o Insurgente) engole todos os meus posts quando uso parágrafos.

  12. “é que o Estado Novo foi um animal único que nenhum historiador político nacional ou internacional consegue hoje catalogar excepto qualificando-o como conservador.”

    E isso (o “conservador”) não será suficiente para o considerar de “direita”? A mim parece-me que Salazar, Franco e Dolfuss (na Áustria) foram talvez os governantes europeus do século XX (pelo menos em países que não eram monarquias) mais próximos do significado original de “direita” como ideologia (isto é a tradição contra-revolucionária francesa, pró-Igreja Católica, autoritária, anti-democrática, anti-liberal, organicista anti-individualista, etc.)

  13. lucklucky

    Bom post.

    Só destacar a facilidade com que o PSD e CDS adoptam os ideiais Marxistas.

    E como nunca usam a palavra Liberdade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s