Quando a ansiedade conduz à falta de rigor, e a amizade a trocar os pés

O texto que publiquei aqui teve o condão de levar o Manuel Puerta da Costa (“MPC”) a tirar as mãozinhas da beira da lareira para vir dedilhar um pouco ao Insurgente. É de saudar o primeiro post do ano (palavras do próprio no FB). Infelizmente, não sei se por falta de prática, ansiedade de vir defender o amigo Álvaro Almeida (palavras do próprio no FB), ou adesão aos maus hábitos da pós-verdade, o que é certo é que o resultado produzido é penoso, apesar de tentar esconder a falta de acerto num suposto “rigor estatístico”. Esclareço.

Seguindo a ordem do texto, caro MPC, os investimentos que enunciei não são, nem “anúncios”, nem “futuros”. A Critical Software já funciona com normalidade no antigo edifício dos CTT, o mesmo ocorrendo com a Euronext, cujo processo de instalação termina até Junho de 2017. O próprio Natixis, cujo projeto de instalação se estende por três anos, está já em execução, tendo arrancado em 2016. Não são “anúncios”, são projetos reais, em funcionamento, tendo a CMP, por razões diversas, tido intervenção na sua atração.

Bola para bingo, leio um MPC muito agarrado aos números, tendo para o efeito – pasme-se a sofisticação! – recorrido ao INE – fascinante! E que “dados” selecionou para mostrar que “as coisas estão muito mal?”: o das “exportações de bens por localização geográfica”, e os dos “edifícios licenciados para obras de edificação”.

O primeito aspecto que me cumpre destacar é que, para quem está TÃO preocupado com o rigor, o intervalo temporal selecionado seja o de “2012-2016”. Ora, sabido, como se sabe, que Rui Moreira foi apenas eleito em Outubro de 2013, tendo tomado posse já próximo do final do ano, diria que o intervalo a selecionar seria “2014-2016” ou pelo menos, “2013-2016”, o que torna desde logo a posição de MPC muito confusa – e pouco amiga do rigor com que se unge. Mas adiante. Infere-se pelas escolhas dos indicadores, que MPC defende que um centro urbano como o Porto mede a sua pujança económica pelo nível de atividade industrial concentrada no concelho (já que a atividade industrial é o que verdadeiramente define o volume de exportações). Ora então, devemos ignorar que o concelho do Porto é um centro urbano com uma área muito limitada, integrado numa área metropolitana que tende a crescer a sua zona de influência para as regiões limítrofes? Devemos ignorar que por questões legais e ambientais o Porto, enquanto concelho, está condenado a esvaziar-se de indústria? Que a sua vocação enquanto centro habitacional e de serviços, convida a que se planifique em integração com os concelhos que lhe são adjacentes, com outras condições para a atividade industrial e logística? MPC facilmente poderia ter percebido que este indicador não faz sentido nenhum na avaliação daquilo que é o Porto, hoje, se tivesse resistido às tentações, bastava ter olhado para as ditas estatísticas do INE, e constatado que na rubrica “exportações de bens por localização geográfica”, os concelhos pujantes são, imagine-se, concelhos como Azeitão e Famalicão, e não Porto, Lisboa, Coimbra, ou cidades de características semelhantes. A menos que MPC defenda uma fábrica de automóveis em Campanhã, ou chaminés de fábricas de pneus no meio do Parque da Cidade, ou indústria têxtil a debitar resíduos para o Douro, ou panificadoras no meio do Marquês, com entradas e saídas de matérias-primas e mercadorias para uma cidade de morfologia complexa, necessidade de tratamento de resíduos, armazenamento de stocks, entre outras operações próprias da atividade industrial. A sério, não se compreende, que não para enganar pavalvos, a escolha de semelhante indicador. Para concluir, neste contexto, não vejo nenhum problema que a Philips (com a manufatura que pratica) se mude para Gaia, onde faz muito mais sentido que funcione, e que o Porto se vocacione para outro tipo de atividades, como a que desenvolve a Critical Software. Feitas as contas, é toda a região que beneficia, sendo para mim, e para a generalidade dos cidadãos, indiferente que cor política governa o Porto ou Gaia.

Não satisfeito com a vontade de esgotar o espaço urbano com fábricas, e não vendo nisso uma contradição insanável, MPC considera que o declínio na rúbrica “edifícios licenciados para obras de edificação” é também sinónimo de crise. Pois tenho opinião diversa. Longe vão os tempos em que o Porto se fazia da edificação. O que importa hoje fazer é recuperar património e as áreas degradadas da cidade. Ora, não é preciso ir ao INE, nem alongar-me em palavras, para sustentar que a tendência marcada na cidade, hoje, é a recuperação do património, e aí sim, a CMP tem cumprido o seu papel: basta dar um curto passeio na cidade, e observar a realidade que entra pelos olhos dentro, mesmo para quem tenha umas certas dioptrias de origem política.

Mas que não me acusem de não gostar de números. No meu caso, porém, prefiro outros números, que digam alguma coisa de relevante. Por isso, se o objetivo é medir o valor da atividade económica no concelho (se é que faz algum sentido avaliar as coisas assim, dadas as limitações das autarquias), meu caro MPC, há um indicador bastante mais completo, rigoroso e objetivo que as estatísticas do INE que escolheste, de seu nome, “Derrama”. A avaliação com base na Derrama tem inúmeras vantagens: não discrimina o tipo de atividade económica, e é além do mais resultado da geração de lucros – todos eles conceitos bastante simpáticos para malta liberal como nós. Na análise da Derrama, o teste que interessa, o do algodão, não engana – é o chamado dinheirinho em caixa. Ora então, o que nos diz a Derrama, o dinheirinho em caixa? Entre 2013 e 2016 a receita do Município com a Derrama cresceu, em termos acumulados, 41,86%:

derrama-2

Por fim, e sintetizando – que desconstruir pós-verdades ansiosas dá trabalho -, tenho de dizer que não sou fã de parquímetros, mas que aceito a contragosto que sejam necessários para a regulação do trânsito nas cidades. Ora, MPC poderia ter referido que nada neste mandato foi feito neste âmbito que não em continuação da política definida por Rui Rio, e que todas as medidas entretanto tomadas tiveram votação favorável do PSD na Assembleia Municipal. Poderia, também, referir que a única rectificação à política de Rui Rio que foi assumida por Rui Moreira visou desonerar os residentes de zona, que passaram a pagar taxas desagravadas, de apenas 25 euros por ano, introduzindo equilíbrio numa medida que asfixiava os moradores, a quem não se destinam os parquímetros.

MPC puxou dos galões de “economista” e de uma suposta paixão por números para sustentar a sua tese. Depois de analisar o que escreveu, fiquei com vontade de recordar uma famosa anedota, que reza:

Um matemático, um engenheiro e um economista candidataram-se ao mesmo emprego. O entrevistador chamou o matemático e perguntou-lhe, “Quanto é 2+2?”. O matemático respondeu. “4”. “Mas 4 exatamente?”, indagou o entrevistador. O matemático olhou surpreso para o entrevistador e disse “Sim, 4 exatamente”. Chamou o engenheiro e perguntou-lhe a mesma questão: “Quanto é 2+2?”. O engenheiro disse-lhe: “Em média, 4, acrescente ou tire 10%, mas em termos médios, é 4”. Por último chamou o economista e perguntou-lhe, com mais reverência, “Senhor Economista, quanto é 2+2?”. O economista levantou-se, trancou a porta, fechou a cortina, sentou-se ao pé do entrevistador e perguntou-lhe baixinho: “Diga-me uma coisa, amigo … o que é que você quer igualar?”.

Pois é, MPC, o resultado não é famoso, quando arranjamos uns números à pressa só para  ajudar os amigos. Para a próxima, vê se te esforças: até porque como teu amigo, também mereço mais como contraditório, do que umas pós-verdades amanhadas num post sem links nem formatação adequada.

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9 thoughts on “Quando a ansiedade conduz à falta de rigor, e a amizade a trocar os pés

  1. Luís Lavoura

    Os moradores do Porto pagam 25 euros anuais para estacionar nos parquímetros? Em Lisboa paga-se somente 12. O que é tanto mais significativo quanto o nível geral de preços e salários no Porto é inferior ao de Lisboa (segundo me parece).

  2. Rui Ferreira

    E como compara a evolução favorável da derrama, que já sabemos não se dever a um aumento da taxa, à região e país? Ou, caso não seja possível, a outras cidades como Lisboa, Braga ou Coimbra.

    O indicador é bom para o Porto. É interessante ver se é um fenómeno nacional ou vai além disso

  3. Fartei-me de ler mas fiquei na mesma…. tanta conversa para não dizer nada de jeito. Pela alteração do montante das dividas talvez pudéssemos ajuizar melhor. Tudo pode ir parar a Gaia, porque eles são como o ps, não pagam e pronto! Quanto ao Porto, antiganente eram mais sérios, agora não sei… nem me interesa. Quando esta merda berrar de vez vai tocar a todos.

  4. Caro Rui Ferreira,
    Não tenho os números da derrama a nível nacional, por município (consultei os números públicos do orçamento da CMP), mas se pensarmos que a derrama é uma derivada direta do IRC, e tomarmos em linha de conta que entre 2013 e 2016 a receita de IRC, agregada, cresceu um pouco acima dos 20%, podemos afirmar que o crescimento dos lucros no Concelho do Porto é praticamente o dobro da média nacional. Mas é um exercício interessante, fazer algumas comparações com concelhos limítrofes, e perceber se, do ponto de vista agregado, o Porto e adjacentes tiveram um comportamento similar.

  5. Caro Joaquim Brito,
    Os números do endividamento da CMP reduziram-se face ao mandato anterior, e os prazos de pagamento, também. É isso que vem no último relatório e contas da CMP, público, de 2015 (páginas 86 e 87). No caso dos prazos de pagamento, aliás, se os prazos no mandato de Rui Rio já eram excelentes (15 dias, em 2012), agora são quase raros no quadro da administração pública (entre 4 a 6 dias, no período 2013-2015). Pode consultar o Relatório, aqui: http://www.cm-porto.pt/assets/misc/documentos/Direções%20municipais/Finanças/RELATÓRIO%20PRESTAÇÃO%20DE%20CONTAS%202015.pdf

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